Tradução de Maria Cristina Guedes de Sousa, de Portugal.
 


Em Tempos de Ansiedade

John Main OSB
I
CRESCIMENTO ESPIRITUAL


Homens e mulheres espiritualmente atentos hoje em dia, em todo o mundo, começam a perceber que o crescimento espiritual e o acordar espiritual são a maior prioridade para o nosso tempo. Mas a pergunta é: como é que se faz? Como é que entramos neste caminho?

A meditação é o caminho do crescimento, o modo de aprofundar o nosso compromisso com a vida, a nossa maturidade. É uma prioridade da maior importância para todos nós permitir ao nosso espírito duas coisas: 1ª o contacto mais profundo com a fonte da vida, e então como um resultado desse contacto dar ao nosso espírito espaço para se expandir. O que é que significa quando dizemos que uma grande prioridade em todas as vidas que sejam verdadeiramente humanas é este contacto com a fonte da vida?

Todas as tradições espirituais sabem que em profunda quietude o espírito humano começa a compreender a sua fonte. Na tradição hindu, por exemplo, os upanishads falam do espírito d’Aquele que criou o universo vivendo no nosso coração e o mesmo espírito é descrito como Aquele que no silêncio ama todos. Na nossa própria tradição cristã Jesus fala-nos do espírito que vive no nosso coração, e novamente este é o espírito do amor.

O contacto com a fonte da vida é vital para nós, porque sem ele  mal suspeitamos do potencial que a nossa vida tem. E esse potencial é que nós devemos crescer, devemos amadurecer, e chegar à plenitude da vida, do amor e da sabedoria. E isso é de suprema importância para todos nós. Por outras palavras, o que cada um de nós tem que fazer e é convidado a fazer é começar a perceber o mistério do nosso próprio ser, o mistério da vida. Novamente, na visão proclamada por Jesus, todos somos convidados a compreender a sacralidade do nosso próprio ser e da nossa própria vida.

É por isso que segunda prioridade é de tão grande importância, nomeadamente que devemos permitir ao nosso espírito o espaço para se expandir. Na tradição da meditação este espaço para a expansão do nosso espírito encontra-se no silêncio e a meditação é um modo de silêncio e um compromisso com o silêncio. Um silêncio que cresce em todas as partes da nossa vida. Um silêncio que podemos apenas descrever como o silêncio infinito de Deus, o silêncio eterno de Deus. E como eu acho que vocês vão encontrar a partir da vossa experiência, é neste silêncio que começamos a encontrar a humildade, a compaixão, a compreensão, que precisamos para esta expansão do espírito.

É aí que a tradição da meditação é de suprema importância para nós, uma tradição de compromisso espiritual de homens e mulheres ao longo dos séculos. E essa tradição está à nossa disposição. A única coisa que é necessária é que entremos nela, que comecemos a praticar.
A prática é muito simples. Temos que pôr o tempo de parte, temos que arranjar algum tempo todas as manhãs e todas as tardes da nossa vida para ficarmos livres para este trabalho de fazer o contacto com a fonte de toda a vida, e para este trabalho de arranjar espaço nas nossas vidas para a expansão do espírito, para  o aprofundamento da fé. A prática da meditação é, na realidade, muito simples. Pegamos na nossa palavra, no nosso mantra e repetimo-lo. Este é um dos grandes problemas dos homens e das mulheres do nosso tempo. Estamos tão habituados à complexidade, que a simplicidade da meditação, estar apenas contente por dizer o nosso mantra, por fazê-lo soar no nosso coração, é um desafio. Quando meditamos devemos dizer a nossa palavra o mais fielmente possível, com a maior continuidade possível.

A palavra que vos recomendo é a palavra aramaica MARANATHA. Devemos dizê-la assim MA-RA-NA-THA. Dizê-la sem mover os lábios, interiormente no nosso coração, continuamente, do princípio ao fim.

A meditação é um processo de crescimento, de ficar mais desperto espiritualmente, e como em todos os processos de crescimento tem o seu próprio ritmo. É um processo orgânico. Temos, por assim dizer, que enraizar o mantra nos nossos corações. Jesus falou tantas vezes da palavra do Evangelho tomar raízes no coração dos homens e das mulheres e como Ele nos diz tem que cair numa terra fértil. Por outras palavras, a totalidade  do nosso ser que ser envolvida neste processo.
Nós fazemos soar o mantra e pela nossa fidelidade de voltar a ele todos os dias enraizamo-lo no nosso coração. E uma vez enraizado  ele floresce, na verdade ele dá flor. E a flor da meditação é a paz, uma paz profunda. Uma paz que vem da harmonia dinâmica que encontramos quando fazemos contacto com o mais profundo do nosso ser, no centro do nosso ser, e o nosso ser está enraizado em Deus, o centro de todo o ser.

O caminho da meditação é um caminho de grande simplicidade e fazemo-lo um dia de cada vez. Não exigimos resultados. Não procuramos progressos. Repetimos apenas o nosso mantra todas as manhãs e todas as tardes durante o tempo da meditação, e nesse mesmo processo, que é um processo de esquecimento de nós próprios, de tirar a atenção de nós próprios, encontramo-nos em Deus. Ao encontramo-nos em Deus, começamos a compreender que a nossa vida é uma dádiva, que nós oferecemos a Deus e essa dádiva que era finita quando nos foi dada, ao devolvê-la torna-se uma dádiva infinita.

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Em Tempos de Ansiedade
John Main OSB
II
Contactando o nosso próprio espírito


Cada vez mais homens e mulheres na nossa sociedade começam a perceber que os nossos problemas pessoais e os problemas que enfrentamos como sociedade são basicamente problemas espirituais. O que cada vez mais compreendemos no nosso mundo é que o espírito humano não encontra realização no sucesso e prosperidade materiais. Não é que o sucesso e a prosperidade materiais sejam maus em si próprios, são apenas inadequados como resposta cabal e última à situação humana.

Como resultado do materialismo em que vivemos, muitos homens e mulheres começam a descobrir que o seu espírito está sufocado. E muita da frustração nos nossos dias deve-se ao sentimento, que tantos de nós têm, de que fomos criados para algo melhor do que isto, algo mais sério do que apenas a sobrevivência do dia a dia. Para nos conhecermos a nós próprios, para nos compreendermos, e sermos capazes de resolver os problemas, de os pôr em perspectiva, temos apenas que fazer contacto com o nosso espírito.

Todo o auto-conhecimento resulta de nos compreendermos a nós próprios como seres espirituais, e é apenas o contacto com o Espírito que nos dá a profundidade e o fôlego para compreendermos a nossa própria experiência. A experiência só é útil e instrutiva se formos capazes de a avaliar adequadamente. Tantas vezes, e sabemo-lo à nossa custa, temos a experiência mas escapa-nos o sentido.

O que a nossa tradição monástica tem a dizer é o seguinte: se queremos compreender-nos, se queremos saber quem somos, temos que contactar o nosso próprio centro. Temos que ir até ao fundo de nós próprios. E a menos que esse processo esteja a realizar-se, todas as nossas experiências serão superficiais. O modo de fazer isto não é difícil, é muito simples. Mas requer compromisso e envolvimento sério na nossa própria existência, que tomemos a vida a sério.

A revelação maravilhosa que está à disposição de todos se nos pusermos a caminho com disciplina, é que o nosso espírito está enraizado em Deus e todos temos um destino, um significado e uma importância eternos. Esta é uma das descobertas mais importantes para todos nós. A nossa natureza tem um potencial infinito de desenvolvimento, mas ele só acontece se começarmos a peregrinação para o nosso próprio centro, para o nosso coração, porque é apenas lá, nas profundezas do nosso próprio ser que nos descobrimos enraizados em Deus.

A meditação é apenas este meio de fazermos contacto com o nosso próprio espírito e nesse contacto encontrar um modo de integração, de perceber a nossa experiência a harmonizar-se, tudo a ficar alinhado em Deus. O caminho da meditação é muito simples. Tudo o que temos que fazer é estar na maior quietude de corpo e espírito.

A quietude do corpo conseguimo-la ao sentarmo-nos quietos. Assim, quando começamos a meditar devemos encontrar uma posição confortável. A única regra essencial é manter a coluna o mais direita possível. Depois a quietude de espírito, o modo de a alcançarmos segundo a tradição monástica, é aprender a dizer na profundeza do nosso espírito uma palavra ou uma pequena frase.
A arte da meditação é apenas  repetir essa palavra sem parar. A palavra que vos recomendo é a palavra aramaica (aramaico é a língua que Jesus falou) MARANATHA. Digam-na em quatro sílabas com igual cadência: ma-ra-na-tha. Digam-na em silêncio na profundeza do vosso ser. Não mexam os lábios, recitem-na interiormente. O que é importante, e devem percebê-lo desde o início, é recitar a vossa palavra do princípio ao fim da meditação.

Aprender a meditar é aprender a libertar os nossos pensamentos, ideias e imaginação, e é aprender a descansar no mais profundo do nosso ser. Tentem lembrar-se  disso. Não pensem, não usem nenhumas palavras para além da palavra escolhida, não imaginem nada, façam-na ressoar no mais profundo do vosso espírito e oiçam-na. Concentrem-se nela com toda a atenção: ma-ra-na-tha.
Porque é que isto é tão poderoso? Basicamente porque nos dá o espaço que o nosso espírito necessita para respirar. Dá a todos nós o espaço para sermos nós próprios. Quando meditamos não precisamos de pedir desculpa ou de nos justificar. A única coisa que precisamos é de ser nós próprios, aceitar das mãos de Deus a dádiva do nosso próprio ser, e nessa aceitação de nós próprios, da nossa criação, do nosso ser, entramos em harmonia com o criador, com o Espírito.

É disto que trata a meditação, o nosso espírito em total harmonia com o espírito de Deus. E se queremos aprender a meditar, se queremos aprender a viver a nossa vida desde o mais profundo de nós próprios, então temos que ir construindo isto no nosso dia a dia, temos que aprender a criar um espaço na nossa vida todas as manhãs e todas as tardes. O tempo mínimo é à volta de 20 minutos, o tempo óptimo é à volta de 30.

Uma vez que tenhamos aprendido essa disciplina, começaremos a viver em harmonia: harmonia connosco porque tudo na nossa vida se vai harmonizar com Deus e harmonia com toda a criação porque teremos descoberto  o nosso lugar nela. E o mais extraordinário da revelação cristã é que o nosso lugar é nada menos do que estar enraizado e fundado em Deus.
S. Paulo escreve aos Tessalonissenses:

Quanto a nós, devemos dar contínuas graças a Deus por vós, irmãos muito amados do Senhor, porque Deus vos escolheu, desde o princípio, para a salvação pela acção santificadora do Espírito e pela fé que vem da verdade. A isto é que Ele vos chamou por intermédio do nosso Evangelho: à posse da glória do Nosso Senhor Jesus Cristo. ( 2ªTess.2 13-14) .

É disto que trata o caminho da meditação: entrar em harmonia total, em total união com o espírito de Jesus que vive nos nossos corações.


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Em Tempos de Ansiedade
John Main OSB
III
Venerando nos nossos Corações


O mundo em que vivemos está em mudança. Como sabemos, os impérios nascem, têm grandes períodos de poder e depois sucumbem. A lição da história é que quando eles de desmoronam, fazem-no muito rapidamente. A sabedoria é a capacidade de identificar o que perdura, o que resiste, o que é importante. A comunidade dos primeiros cristãos compreendeu claramente que cada um de nós possui, já nesta vida, um princípio eterno dentro de nós, algo nos nossos corações que permanece por toda a eternidade – o Senhor Jesus -.

Da Primeira Carta de S. Pedro:

Quem vos poderá fazer mal se fordes zelosos do bem? Se padecerdes alguma coisa por causa da justiça, felizes de vós! Não temais as suas ameaças nem vos deixeis perturbar, mas venerai Cristo Senhor nos vossos corações. (1 Pedro 3 13-15)
“Venerai Cristo Senhor nos vossos corações”

Para viver bem as nossas vidas, não precisamos de nos deprimir pelo facto de o mundo estar em mudança, de as civilizações sucumbirem. Nem pelo facto de o mundo ser, muitas vezes, um sítio altamente caótico. Como sabemos, há tanta confusão, há tantas pessoas confusas e nós próprios, de vez em quando, experienciamos esse caos e essa confusão dentro de nós. Mas o desafio de cada um de nós e de cada ser humano, é encontrar no mundo real, que é esse mundo caótico, esse mundo em mudança, encontrar nesse mundo real a paz verdadeira, a ordem exacta e uma harmonia que fará sentido de entre todas as vozes competindo pela nossa atenção.

Mais uma vez, a comunidade dos primeiros cristãos viu muito claramente e por experiência própria que o próprio Jesus é o caminho para a ordem, para a harmonia e para a paz. E Ele é o caminho, porque nos conduz à harmonia vibrante da própria Trindade, à ordem, à ordem suprema baseada no amor supremo: Pai, Filho e  Espírito Santo.

O caminho da meditação não é um caminho de fuga. Sobretudo, não é um caminho de ilusão. Nós nem tentamos escapar ao mundo real dos fins obscuros e começos caóticos, nem tentamos construir uma realidade própria alternativa e ilusória. O que Jesus nos promete é que se o venerarmos nos nossos corações, se acreditarmos nele e naquele que o mandou, seu Pai e nosso Pai, então todo o caos e toda confusão do mundo não têm poder real sobre nós. Os stresses, as tensões, os desafios, todos permanecem, mas não têm poder de nos derrotar se fundámos as nossas vidas na rocha que é Cristo.

Este é o trabalho real. É o desafio real que cada um tem que enfrentar: entrar na realidade que é Cristo, a rocha sobre a qual podemos construir as nossas vidas com a confiança absoluta de que Ele nos vai amar com os nossos erros e hesitações, em todos os momentos da nossa vida, até ao último momento, porque ele é supremo Amor.

 É por isso que S. Pedro nos fala da importância de venerar o Senhor Jesus nos nossos corações. Enraizados nele estamos enraizados no princípio de toda a vida, na própria realidade. E fundados nele, nada mais tem poder real sobre nós, nem a própria morte. O desafio é encontrar o nosso caminho em direcção a ele, encontrar o caminho em direcção ao nosso próprio coração para aí o podermos venerar.

O caminho da meditação é um caminho de aprender a morrer para a ilusão, para toda a não-realidade. É o caminho de aprender a elevarmo-nos com Cristo, acima de nós próprios, das nossas limitações, para a vida eterna. E fazê-lo agora, hoje; não adiar a vida eterna para quando chegarmos ao céu. O reino de Deus está entre nós agora, e temos que estar abertos a ele porque, como diz S. Pedro, temos que, no Espírito, vivificarmo-nos com a vida de Deus. Como cristãos nunca devemos desejar menos do que isso. A nossa vida cristã não é apenas uma questão de ir através das nossas vidas. Cada palavra do Novo Testamento sugere-nos que é de suprema importância que vivamos as nossas vidas num estado de contínua expansão, expansão do coração, expansão do espírito, crescendo no amor, ficando mais firmemente enraizados em Deus. Todos temos que compreender o nosso potencial, que estamos num universo em expansão e que possuímos um  potencial de energia – expansão – que não é menos do que infinito.

S. Pedro diz-nos na mesma carta: “viver uma vida em ordem, fundada na oração” e diz-nos “manter ao máximo o nosso amor uns pelos outros”. Este é o caminho da meditação: acolher essa força vital, essa fonte de energia e de poder, de modo a vivermos a nossa vida em todo o seu potencial. E fazemos isto venerando o Senhor Jesus nos nossos corações.

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Em Tempos de Ansiedade
John Main OSB
IV
Comprometimento com a realidade

É muito difícil tentar determinar o que é que faz uma pessoa querer  meditar. É uma coisa que me tem confundido ao longo dos anos. Parecem haver tantas razões pelas quais as pessoas começam a meditar. Mas penso que há apenas uma razão que as mantem a fazer meditação. Parece-me ser um comprometimento cada vez maior com a realidade.

Quanto mais meditamos e perseveramos através das dificuldades, através dos falsos começos, mais claro se nos torna que temos que continuar, se queremos viver a nossa vida de um modo significativo e profundo. Não devemos nunca esquecer o caminho: repetir o mantra do princípio ao fim da meditação. Isso é básico, axiomático, e não deixemos ninguém dissuadir-nos desta verdade.
Se estivermos a ler podemos deparar-nos com todas as variantes e alternativas. Mas a disciplina da meditação, a ascese da meditação, faz-nos uma exigência em termos absolutos: que deixemos o ego, os  pensamentos, análises e sentimentos de lado tão completamente de modo a ficarmos totalmente à disposição do Outro. Temos que fazer isto de um modo absoluto, e essa é a exigência que o mantra nos faz: dizê-lo do princípio ao fim em total simplicidade e absoluta fidelidade.

Qual é a diferença entre realidade e não realidade? Penso que o modo de perceber isto é que a não realidade é o produto do desejo. A realidade é simplesmente estar enraizado em Deus, a raiz do nosso ser. O desejo exige movimento constante, luta permanente. A realidade exige quietude  e silêncio. E esse é o compromisso que fazemos quando meditamos.

Como todos já descobrimos da nossa própria experiência, é na  quietude e no silêncio que aprendemos a aceitar-nos como somos. Isto soa muito estranho aos ouvidos modernos, sobretudo aos cristãos modernos que foram educados a viver numa luta ansiosa: será que eu deveria ser ambicioso? E se eu for uma pessoa má? Não deveria desejar ser melhor?

A tragédia real dos nossos tempos é que estamos tão cheios de desejo de felicidade, de sucesso, de riqueza, de poder, o que quer que isso seja, que estamos sempre a imaginar como poderíamos ser. Assim, raramente nos conhecemos como somos, e raramente aceitamos a nossa situação presente. Mas a sabedoria tradicional diz-nos: saibam que são e que são como são. Pode bem ser que sejamos pecadores e se formos é importante que saibamos que o somos.  Mas muito mais importante para nós é saber pela nossa própria experiência que Deus é a raiz do nosso ser, que estamos enraizados nele e fundados nele. Todos sabemos isso pessoalmente, por experiência própria nos nossos corações. Esta é a estabilidade de que todos precisamos, não a luta e o movimento do desejo, mas a estabilidade e quietude do enraizamento. O que todos estamos convidados a aprender na nossa meditação, na nossa quietude em Deus, é que nele temos todas as coisas que precisamos.

A raiz da qual brotamos é o amor. Nele somos e nos reconhecemos como amáveis e amados. Esta é a realidade suprema que Jesus veio pregar, comunicar, viver, estabelecer. E ela está impressa no nosso coração, se estivermos abertos para ela. É disto que trata a nossa meditação, porque é apenas deste amor e com este amor que nos podemos compreender corretamente, bem como a toda a criação. Sem este enraizamento no amor, apenas veremos sombras e fantasmas e nunca seremos capazes de contatá-los porque eles não são reais.

A meditação é o convite ao caminho profundo em direção ao nosso coração, em direção ao nosso ser. O que a sabedoria tradicional nos diz é que apenas com esta profundidade de experiência e visão é que podemos viver em harmonia total com tudo o que existe. É isso que nos leva à meditação: perceber pela nossa própria experiência que Deus é.

A meditação é o grande caminho para a fé, para o comprometimento. Todas as ações são superficiais, ou mero imdiatismo se não estão fundadas no nosso comprometimento com o que é real, com o que é eterno. Este é o nosso convite como cristãos: aprender  o que é real e o que é eterno, e sabendo isso viver as nossas vidas inspiradas no amor.

Esta é a finalidade da nossa meditação, que não haja nada falso em nós, só realidade; só amor, só Deus.

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Em Tempos de Ansiedade
John Main OSB
V
Paz

Uma das coisas que nos interessa a todos é encontrar o caminho não só para a harmonia nas nossas vidas, mas para algo que apenas  podemos descrever pela palavra “paz”. O sentimento de paz é o sentimento de estar intacto, estar em comunhão, estar completo. Não é apenas o sentimento de estar calmo. Não é isso: é algo muito mais positivo. É um sentimento de bem-estar, quando descobrimos a nossa própria harmonia, a harmonia dentro de nós próprios e a harmonia de que somos capazes na relação com os outros, a harmonia que experienciamos com a natureza quando vimos um dia belo e claro ou uma vista maravilhosa ou um céu deslumbrante. Nesses momentos de revelação  percebemos de rompante que é disso que se trata: um sentimento de união com a natureza, connosco, com os outros. É por isso que meditamos.

Quando começamos a meditar temos que ter alguma motivação. Algum objetivo que nos faça continuar, que nos inicie nessa estrada. Se quiseres uma motivação para conseguir esse estado de harmonia e de paz (que em muitas das escrituras sagradas, quer nas tradições orientais, quer nas tradições do ocidente é descrito como um estado abençoado, de glória, de salvação, ou de vida, o sentimento de estar totalmente vivo)  essa será uma boa motivação. Mas uma vez que começaste a meditar de  um modo regular e diário, começas a compreender que a meditação tem a sua própria dinâmica, não é apenas como qualquer outra atividade na tua vida. Não a abordamos do modo: se eu meditar tantas vezes terei esta recompensa, o nível x de paz; se eu for particularmente fiel aí terei x+1, seja o que for.

Quando se começa a meditar percebemos que chegamos lá sem exigências, sem esperar recompensas. Meditamos simplesmente, porque é a única maneira que encontramos que nos leva a esse sentimento de totalidade, de unidade. Descobrimos na meditação que é para isso que a vida nos foi dada: para ser um, para ativar todo o nosso potencial para a vida, para a felicidade, para ser.

A meditação é para o espírito o mesmo que a respiração é para o corpo. Se alguém nos perguntasse qual é a nossa motivação para respirar responderíamos: “não tenho motivação. É necessário respirar, é necessário para viver. Não tenho uma motivação consciente para isso tudo”. Quanto mais meditarmos, mais experienciamos o nosso espírito em harmonia pacífica com o nosso corpo, em harmonia  pacífica com toda a criação e com o criador, e percebemos que não precisamos de qualquer motivação para meditar. Meditamos porque somos, e porque Deus é; porque essa é a estrutura da realidade: Deus criador, eu como criatura, viva na criação de Deus. A meditação é apenas um modo de me tornar totalmente viva em relação a tudo isso.

É disso que trata a oração cristã. Em essência não se trata de pedir coisas a Deus, ou informar Deus sobre coisas. Trata-se de estar completamente aberto a Ele, completamente com Ele, em completa harmonai com Ele. A meditação é paz, é felicidade e é segurança total, porque nela estamos ancorados na realidade total.

Oiçamos o que S. Paulo escreveu na Segunda Carta aos Coríntios:

“ Porque Deus que disse que das trevas resplandecia a luz, é quem resplandeceu em nossos corações, para iluminação do conhecimento da glória de Deus, e não de nós (2 Cor. 4:6)

É por isso que meditamos, para que a glória de Deus seja encontrada nos nossos corações, se conseguirmos ser calmos, silenciosos e pobres. A nossa pobreza consiste nisto: desistirmos de todas as palavras, pensamentos e imaginação e ficarmos com a única palavra, a palavra do nosso mantra, e formos totalmente fiéis à recitação dela do princípio ao fim.

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Em Tempos de Ansiedade
John Main OSB
VI
O Caminho para a Verdade

Estas palavras estão no evangelho de João, ditas por Jesus:

“Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sereis meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”. (Jo. 8,31 e 32)

Todos sentimos dentro de nós a necessidade de nos confrontarmos com a verdade, encontrar alguma coisa, algum princípio nas nossas vidas que seja completamente confiável, seguro, digno da nossa confiança. Todos sentimos esta necessidade de, de um modo ou doutro, fazer contacto com realidades fundadoras.

O caminho da meditação trata disso. Quando iniciamos o caminho da meditação, iniciamos o caminho para a verdade. Nenhum de nós pode contentar-se apenas com a experiência que outras pessoas fizeram da verdade. Todos temos que conhecer a verdade através da nossa própria experiência.

Como é que meditamos? Se quisermos seguir este caminho, temos que nos comprometer a meditar todos os dias, manhã e noite. O caminho  é a própria simplicidade. Tudo o que temos que fazer é sentarmo-nos e dizer o nosso mantra. A palavra que vos recomendo é a palavra aramaica MARANATHA. Quando meditamos juntos cada um de nós tem que aceitar a responsabilidade de dizer a palavra do princípio ao fim, MA-RA-NA-THA. Dizer a palavra é em si próprio uma experiência de liberdade. Libertamo-nos de todas as nossa preocupações imediatas – tudo o que nos preocupa, tudo o que nos traz felicidade -. Pomos de lado tudo o que se está a passar para estarmos aberto à verdade última e absoluta.

A sabedoria ensina-nos que chegar à verdade é  experienciar a gratuidade de Deus e a sua bondade amorosa. E na visão cristã da meditação, todo o objetivo é simplesmente estar aberto à presença de Deus nos nossos corações. As pessoas muitas vezes perguntam, “porque é que eu devo meditar?”, “porque é que medita?” Penso que parte da resposta está em que na experiência da meditação nós nos reconhecemos como verdadeiros, reais, não a fazer um papel, não a corresponder às expetativas dos outros para nós, mas a experiência de sermos quem somos. A meditação é importante para nós porque cada um tem de aprender a ser verdadeiro e fiel à verdade do seu próprio ser.

Aquele que é verdadeiro, é também o que é fiel. E o poder da meditação é que ao experienciar isto, no silêncio a que a nossa palavra nos leva, aprendemos a viver pela bondade de Deus quando contactamos com a sua bondade nos nossos corações. Deus é verdadeiro e cada um que descobre a sua própria unidade com Deus entrou nessa relação fundamental, e como resultado, todas as nossas relações se preenchem com a bondade e a verdade de Deus.

Jesus diz: ”A verdade vos libertará!” A liberdade é a liberdade de sermos nós próprios e a liberdade de deixar os outros serem eles próprios. A liberdade de nos amarmos a nós próprios, os outros  e Deus. Mas essa liberdade depende de um comprometimento total com a verdade.

As pessoas perguntam “quanto tempo é que isto demora? Tenho meditado todas as manhãs e todas as tardes, desde há seis meses e não tenho a certeza de que tenha feito qualquer diferença”. A resposta a isso é que não interessa quanto tempo é que é preciso. Interessa é que estamos no caminho, estamos na peregrinação, e que diariamente – talvez apenas por um centímetro de cada vez, mas diariamente – o nosso comprometimento com a verdade e com a liberdade crescem. O crescimento é muitas vezes impercetível, mas não importa. O que importa é que estamos a crescer, e que não nos rendemos pela metade, nem traímos o dom do nosso próprio ser, mas estamos dedicados ao crescimento e à maturidade, à verdade e à liberdade.

O oposto da verdade é a falsidade ou ilusão. E a meditação é um compromisso com  a verdade, um compromisso é deixar de tentar criar a nossa própria realidade, de viver na luz de Deus e pela luz de Deus. Esse compromisso  diário e a sua suavidade, à medida que meditamos todos os dias, é um modo de aprender a acostumar os nossos olhos a verem o que têm diante deles, em vez de tentarem imaginar o que têm diante deles e depois tomá-lo por realidade.

O que é real? Deus é real e a realidade de Deus é revelada em Jesus. A coisa mais importante da proclamação cristã é que Jesus se encontra nos nossos corações em toda a sua realidade. Na sua luz nós vemos a luz e nessa luz reconhecemo-nos livres.

Assim quando começarmos, temos que começar na fé e continuar na fé. E a única maneira de chegar à tal luz, à tal verdade, à tal liberdade é através da fé. Sempre que nos sentamos para meditar, a nossa fé é testada e vai ser fortificada. O tempo da meditação quando dizemos o nosso mantra do princípio ao fim, pode parecer uma completa perda de tempo. Mas lembrem-se que Jesus vive nos nossos corações. Ele é a revelação de Deus e só em Deus e de Deus é que temos a nossa realidade.

Dizer o mantra é desviarmo-nos de toda a ilusão, de toda a imaginação, de toda a falsidade em direção à verdade suprema.

 

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã