Terremoto no Chile
Traduzido do inglês por Roldano Giuntoli

Por Maria Rosa, Coordenadora Nacional da WCCM em Concepcion

À WCCM: por favor, rezem por nós.  Essa é a maior e única ajuda que nos podem dar.  Por favor, rezem para que esta loucura se acabe.
Isto aqui está um caos total: as pessoas portam armas, e quando escurece elas saqueiam as casas.  Na noite passada nossos vizinhos nos defenderam... nossos lares, isto é horrível, não há eletricidade, não há água, não há comida.

Por favor, rezem, durante a noite precisamos observar as ruas de modo a que os saqueadores não entrem em nossos lares.  Isto é pior do que o terremoto ou do que o tsunami: tem sido terrível.  Dependendo do que acontecer hoje e, caso eu consiga combustível, irei para Santiago com as crianças.

OBRIGADA. TENHO SUPORTADO A SITUAÇÃO APENAS POR SENTIR QUE ESTAMOS UNIDOS EM NOSSA PRECE... AMO TODOS VOCÊS.

MariaRosa

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Por Dom Laurence: Tablet, 1 de Março
02/03/2010, Chile

“Precisamos de preces, e de mais soldados!”  Muitos dentre nós jamais conheceram uma situação de colapso da infraestrutura social que nos faria desabafar dessa forma no Facebook, sendo esse nosso último recurso disponível de comunicação com o mundo lá fora.  Um mundo que repentinamente se tornou terrivelmente exterior à tragédia que de um momento para o outro nos encerra e nos isola.
Todos sabemos, mas compreensivelmente preferimos esquecer, que a vida repousa perpetuamente em um fio de navalha.  Em poucos momentos pode se evaporar toda nossa percepção de segurança, todos os nossos planos de vida e sistemas de gerenciamento e, em lugar de pensar em como nos adequaremos ao compromisso com o dentista e às reuniões do dia de amanhã, nos surpreendemos olhando atordoados para um abismo.  Isso levou 120 segundos para acontecer às pessoas do Chile, na medida em que as placas tectônicas gemeram e se movimentaram produzindo aquilo que agora se mede como sendo o maior terremoto da terra e, logo em seguida tsunamis de dez metros atingiram a costa.
Tão logo ouvi as notícias, tentei entrar em contato com MariaRosa, nossa coordenadora nacional que vive em Concepcion, a segunda maior cidade do país e próxima ao epicentro.  Só hoje ela enviou uma mensagem no Facebook que é, o desagradável jogo de palavras parece apropriado, enregelante.
“Isto aqui está um caos total: as pessoas portam armas, e quando escurece elas saqueiam as casas.  Na noite passada nossos vizinhos nos defenderam... nossos lares, isto é horrível, não há eletricidade, não há água, não há comida.
Por favor, rezem, durante a noite precisamos observar as ruas de modo a que os saqueadores não entrem em nossos lares.  Isto é pior do que o terremoto ou do que o tsunami: tem sido terrível.  Dependendo do que acontecer hoje e, caso eu consiga combustível, irei para Santiago com as crianças.”

A única coisa que é pior, assim parece, do que um desatre natural dessas proporções, é a ruptura nas normas humanas da sociedade que a tornam merecedora do título de civilização.  Tão facilmente pressupomos que a civilização tenha sido alcançada.  Todavia, tão facilmente podemos nos entediar com ela, ou perdê-la para os medos despertados por um mais forte instinto de sobrevivência.  O que nos aterroriza ainda mais do que a perda da vida ou de um membro, é a repentina visão de pessoas por quem ainda ontem passávamos confortavelmente pela rua, estarem hoje consumidas por uma violência e uma crueldade que não lhes é própria, e as faz parecer tão estranhas não apenas a nós, mas a elas mesmas.  O furor pela sobrevivência parece, ao contrário, surgir de uma oculta fome-pela-vida-a-todo-custo pré-humana, uma fome tão profunda quanto o próprio abismo.  O abismo não se deve a nada que nos seja exterior.  Ele está em nosso interior.  O instinto de sobrevivência pode afogar nossa capacidade de auto-doação e de compaixão e, sujeitar a si próprio todas as relações sociais e as necessidades das outras pessoas.

Todavia nossa resposta aos desastres é imprevisível.  Há alguns anos, quando a geração de energia em Quebec e em partes da costa leste sofreu uma interrupção de vários dias em meio ao inverno, o governo Canadense enviou o exército e convocou os reservistas.  Eles esperavam um caos social, mas não houve nada disso.  Em Montreal me disseram que chefes de família formaram comunidades de rua que compartilhavam suas provisões e estendiam cuidados especiais aos mais velhos e aos doentes .  Os soldados ficaram sentados esperando por uma ruptura que a simples humanidade impediu.  É claro que não se trata de que os canadenses sejam melhores do que os chilenos, e eu estou certo de que ouviremos falar de muitas ações heróicas e desinteressadas dali, que mais do que compensarão os saqueadores e os vândalos de Concepcion.  O argumento não é o de uma tabela de campeonato nacional da virtude.  Sabemos dos doze anos de barbárie nazista, do bombardeio aliado de Dresden, ou algumas décadas depois, do cerco de três anos a Sarajevo e Srebenica, que o abismo pode se abrir em qualquer parte, de maneira tão imprevisível quanto os desatres naturais que tememos.  Esse aspecto fortuito humano só faz com que o fio da navalha pareça mais afiado.

“Obrigada”, MariaRosa escreveu antes que sua bateria acabasse. “Tenho suportado a situação apenas por sentir que estamos unidos em nossa prece. Amo todos vocês.”  Para algumas pessoas a prece pode parecer apenas um apoio psicológico, uma muleta para quando a crise tenha varrido toda segurança.  Todavia, para outras pessoas, ela é uma força real.  Não uma mágica que possa reposicionar as placas tectônicas, ou levar de volta o tsunami.  Porém, uma consciência, permeada pela fé, a “visão de coisas não vistas”.  Essa consciência atenta frequentemente se fortalece mais em períodos de crise, do que nos dias rotineiros da segurança e das complexidades e estresses do mundo.  Prece significa saber.  Nos piores momentos podemos saber que, apesar do terror do isolamento, pertencemos a uma ordem divina que o mais profundo abismo não pode engolir.  Deste conhecimento surge surpreendentemente a palavra ‘amor’.  Ela expressa algo para o qual não podemos encontrar melhor palavra, e que agora está carregado de um significado que altera o significado de tudo.

Com Muito Amor,


   
PAX