Existem tantas histórias, de atrocidades, de escândalos, tanta revolta e raiva e, demandas por nossa solidariedade, que a opção de se manter afastado das notícias é muito compreensível. Noticiários também nos ajudam a fazer isso, tornando-se apenas entretenimento ou, "reconstrução". Filtros, assim como o The Tablet, são necessários para que nos mantenhamos informados da aldeia global e, ainda assim, enxerguemos a verdadeira natureza das coisas e, mantenhamos algum critério consistente para lhes dar sentido, para formar padrões informados e, de algum modo, permanecer tanto contemplativos, quanto contemporâneos. Apenas o genuíno eremita tem o direito de permanecer completamente alheio, por estar completamente conectado a tudo.

Melhor do que os noticiários, é ver por si mesmo os locais e os povos da história, mesmo que isso aconteça anos depois de eles terem passado para os arquivos dos meios de comunicação. Tomemos Sarajevo como exemplo. Posso me lembrar de ler as notícias e ver fotos de bombas caindo, sentindo-me chocado com a limpeza étnica, deportações, torturas, estupros e o massacre de Srebinica; mas, a guerra da Bósnia estava em um canto da Europa que Eu conhecia apenas através de meus livros-texto de história e, dos relacionamentos que tinha com pessoas da "Europa Oriental". O problema é sempre o de que os noticiários são filtrados por jornalistas que escolhem aquilo que eles pensam irá entreter, chocar ou excitar. A tragédia de hoje faz as manchetes, mas, amanhã fará a página 12. Lembro também de ter lido acerca da Corte Internacional de Justiça que distinguiu de maneira tão delicada a diferença entre "genocídio" e "atos de genocídio", uma negociação de palavras que fazia a realidade parecer abstrata. Durante quatro anos Sarajevo oscilou entre a primeira página e os quadrinhos. No entanto, para seus habitantes, cada dia deve ter se parecido com Apocalypse Now. O cerco a Sarajevo de 5 de Agosto de 1992 a 29 de Fevereiro de 1996 foi o mais longo da guerra moderna.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Trata-se de uma antiga e idiossincrática cidade de charme e complexidade, mesquitas e igrejas e, após o holocausto, uma única e primorosa sinagoga, com registros das deportações do holocausto. Com uma cultura que a tornou a capital intelectual muçulmana da Europa, Sarajevo acomodava cidadãos muçulmanos, ortodoxos, católicos e judeus. Seus mercados e pontes curtas estão novamente fervilhando, mas, durante o cerco, 12.000 de seus habitantes foram mortos e, 5.000 mutilados, com uma média diária de 329 bombas de artilharia, alcançando um pico de 3.771 em 21 de Julho de 1993. (Talvez estivesse em férias naquele dia, ou, ministrando um retiro em algum pacífico mosteiro) A cidade é cercada de colinas onde as forças nacionalistas sérvias estavam posicionadas, tal qual os gregos em Tróia, procurando fanaticamente destruir a recém independente Bósnia-Herzegovina. "Cristãos" insanos em seu ódio sem misericórdia. Os sérvios de Sarajevo que se recusassem a oprimir os muçulmanos, eram eles mesmos executados. Vielas de atiradores abatiam pessoas que estavam conversando nas esquinas. Jogos de futebol, coletores de água, filas do pão, a destruição deliberada de uma das maiores coleções de manuscritos orientais do mundo. Isso aconteceu em uma cidade que hospedou as Olimpíadas de Inverno de 1984, uma cidade de eruditos, artistas e conservatórios, de franciscanos e de sufis. Talvez alguém precise negar o horror para se manter são. Nesse caso, ele deveria fazer a distinção, assim como Freud, entre repressão, a recusa da realidade dolorosa, e supressão, o conscientemente deixar de lado o passado por um futuro melhor. Mesmo que esse futuro signifique apenas turismo. O passado foi suprimido na nova Sarajevo, mas, não foi esquecido e, estranhamente, sua lembrança é uma semente de esperança.

Ora, isto é história, os novos líderes procuram controlar a maneira pela qual ela é escrita. Os religiosos dizem olhar à frente. Porém, a paixão e a dor de suas lembranças estão próximas à superfície de qualquer conversa. É encorajador, dizem eles, que não haja violência agora, ainda que isso possa não surpreender em vista das alterações demográficas do pós-guerra. Não há muitos cristãos ortodoxos em Sarajevo; mas, quantos há exatamente de qualquer grupo étnico ou religioso, é um fato político, que ninguém quer realmente saber. A sugestão de um censo é politicamente perigosa. Todavia, é surpreendente e maravilhosamente consolador, vermos o apetite pelo diálogo e pela prece. Então, porém, como me disse um líder muçulmano, "sabemos bem o que acontece, quando cessa o diálogo".

Se todas as cidades possuem karma, assim como Jerusalém e Roma, Sarajevo também tem sua parcela. Seus cidadãos lhe dirão, quase orgulhosamente, foi o local onde irrompeu a primeira guerra européia do século 20, com o assassinato do Arquiduque Ferdinando e, onde terminou a última guerra do século, a da Bósnia.

Com uma lógica estranha, porém, constrangedora, sua pior história a torna um local onde se podem aprender lições de virtude cívica, a paz pode ser construída e, o diálogo pode se desenvolver, onde a desumanidade pode ser redimida. Em locais onde o sangue foi derramado, freqüentemente existe um silêncio que convida a uma nova tentativa de sermos humanos. Especialmente nos olhos silentes de um líder judeu com quem conversei sobre esse ódio existente entre os povos do Livro, enxerguei aquela esperança sanguínea, tingida de sangue, sem a qual o passado já nos teria derrotado.

Com Muito Amor,


   
PAX