Maio de 2012

Estive com um jovem diácono pouco antes de sua ordenação presbiteral. Ele estava naturalmente empolgado com a chegada deste marco em sua vida. E estava razoavelmente bem adaptado, como sugeria o problema que havia tido com as autoridades do seminário. Ele me descreveu como alguns outros seminaristas estavam se preparando para seu grande dia. Vários meses antes, fizeram uma gastança para comprar camisas e clergimans e outros acessórios do estado clerical. Estes artigos estavam empilhados de um modo que achei um pouco estranho em um lugar proeminente de seu quarto, onde podiam ser vistos e manuseados facilmente.

 

Não tendo nenhum interesse naquele tipo de identidade clerical e tendo aprendido há muito que "o hábito não faz o monge", achei isso tudo curioso. O clericalismo é um apego excessivo às formas externas e privilégios deste estado de vida. Como o perfeccionismo, seu grande aliado, parece-me um tipo de vírus. Não digo que o padre ou o monge ou a freira devam esconder seu modo de estar no Corpo do Senhor; mas ter esse status não me parece ser razão para ostentá-lo. Nem deve transformar-se num enclave de identidade, numa torre de marfim, contra o mundo.

Estou me dando conta de que abordo este assunto sensível primeiro como monge, depois como padre. Basil Hume, monge e cardeal, uma vez descreveu a relação entre os dois muito bem quando fez a ordenação sacerdotal de um monge. Após ter dito as coisas óbvias sobre a dignidade e a responsabilidade do presbiterato, ele disse, quase como uma reconsideração e (assim o senti) fora do roteiro: "É claro que sua ordenação hoje diminui sua vocação monástica, embora lhe propicie excelentes maneiras novas de servir aos irmãos." Aquilo pareceu um momento iluminado de humildade e realismo.
A igreja é lindamente composta de um arco-íris de formas vocacionais. A ideia de que os estados clerical ou monacal são inerentemente superiores ao estado matrimonial ou a qualquer estado laico está se desvanecendo rapidamente, embora tenha reinado uma vez. Como em um monastério celta onde diferentes modos de vida, de buscar a Deus, podiam ser combinados em uma única comunidade, do eremita à família, assim na igreja como um todo elas se complementam e se corrigem mutuamente. Significativamente, foram os monges que desenvolveram a teologia mais dignificante do casamento na Igreja Medieval, em uma época em que este era visto por muitos como um caminho inferior para seguir a Cristo.

O recente fiasco da crítica do Vaticano às religiosas dos Estados Unidos é grandemente sentido como emergente de um clericalismo que perdeu esse sentido de humildade e proporção. Ele fica mais evidente no tom desamoroso que ignora a surpreendente fidelidade e o auto-sacrifício deste grupo de mulheres católicas norte-americanas por muitas gerações. As freiras norte-americanas podem ser radicais e francas. Como norte-americanas, pode ser que elas ajam, geralmente, de forma unilateral e sejam destemperadas no discurso em comparação com outras culturas, pois, se elas se sentem no direito, simplesmente vão em frente. Isso, sem sombra de dúvida, pode irritar aqueles que veem como seu papel proteger a linha de frente da igreja contra a inundação do relativismo e do secularismo. Mas elas são nossa comunidade. Os religiosos não são clérigos, especialmente as religiosas.

A vida religiosa é uma variação daquela embaraçosa ordem dos profetas que vagueiam pelo Antigo Testamento. Eles incomodavam sacerdotes e reis. Mas tinham a marca de Deus sobre si. "É um profeta como tu que suscitarei do meio dos teus irmãos; porei minhas palavras em sua boca (…) E se alguém deixar de ouvir minhas palavras, as que o profeta tiver proferido em meu nome, eu mesmo lhe pedirei contas." (Dt. 18, 18ss.)

Sim, a profecia é uma questão de discernimento. Mas os clérigos devem se precaver contra o perigo de ouvir somente o negativo nos clamores do profeta e reagirem exageradamente e com força. Mesmo quando o tom é áspero e a teleologia não ortodoxa, o espírito de sabedoria e amor pode estar tentando penetrar por entre as fendas clericais.

Essas mulheres não são loucas, perigosas ou bagunceiras. São profundamente amadas e respeitadas por católicos e não crentes igualmente. Uma de minhas amigas mais queridas era um freira norte-americana, instruída e sábia, cujas visões eram fortes, proféticas. Disse-me uma vez como tinha passado anos dando aula numa escola de ensino fundamental. Sua ordem trabalhava para o bispo por quase nada. E como não tinham nenhum dinheiro para as próprias acomodações, ela e muitas de suas irmãs tinham que montar suas camas para dormir nas salas de aula à noite. Aqueles que falam palavras proféticas com uma história dessas merecem ser escutados mesmo que – ou especialmente se – o que dizem irrita.

Laurence Freeman OSB


   
PAX