Com aquela determinação própria de uma pessoa multi-tarefa por natureza, que não deixa a peteca cair, Maria recusou nossa proposta de adiar a visita.  Além de ser esposa, mãe e coordenadora dos grupos de meditação, ela era a principal responsável por cuidar da mãe, que estava em fase terminal.  Todos os seus filhos também se dedicavam calorosamente àqueles cuidados, assumindo voluntariamente períodos adicionais, em que se sentavam ao lado da avó, que jazia deitada numa cama de casa, já por vários meses.  Ela não sofria dores ou aflição, mas, dormia profundamente ou divagava quieta, ora consciente, ora inconsciente, dia e noite.  Sua existência parecia já haver migrado para um plano diferente de consciência, sem haver totalmente deixado o plano que, de modo familiar, conhecemos como vida, a vida diária cheia de atividade, de pensamentos e do preocupante senso de tempo, do atendimento a compromissos, do desfrute das horas de refeições e da elaboração de planos.

 

Até mesmo enquanto seguíamos o programa da visita, palestras e reuniões, um dia de retiro e sessões com as crianças da escola, recebíamos frequentes relatórios da mulher que estava às portas da morte.  Eram informações de que não havia alteração em seu estado, de que tudo estava bem, de que ela estava em paz, tranquilizando Maria de modo especial, à medida que ela se dedicava mais completamente ao plano da vida diária.  Ainda assim, na verdade, ela evidentemente não estava separada da presença de sua mãe, e da expectativa de paz e paciência características, que o processo do bem morrer pode criar silenciosamente.

Em nosso particularmente cheio e último dia, Maria nos convidou para jantar em sua casa, junto a sua família e a um clérigo que a apoiava.  Educadamente, tentamos recusar, sem sucesso.  Deveria ter me lembrado que as coisas que procuramos evitar, frequentemente, acabam se tornando aquelas que nunca esquecemos.  Assim, à hora que nos sentíamos prontos para dormir, nos encontramos, ao contrário, sentados com um grupo grande e enérgico, e energizante, em volta de uma mesa abundante.

Ao final do banquete, quando nos preparávamos para partir, Maria me pediu para visitar e rezar junto a sua mãe.  Me foi embaraçoso perceber que lá permaneci durante toda a refeição, sem me lembrar da mulher que estava à beira da morte nessa mesma casa, e fiquei ainda mais emocionado quando descobri que seu quarto era contíguo à sala em que compartilhamos tão felizes o jantar. A entrarmos no quarto, percebemos aquela atmosfera que universalmente acompanha as últimas fases da vida, surpreendentemente semelhante à expectativa e à incerteza de um nascimento que se aproxima.  Trata-se de uma experiência liminar, aqui e ali ao mesmo tempo, um momento fronteiriço.  A mãe de Maria estava deitada em uma cama muito bem arrumada, que transmitia a amorosa atenção que a cercava, sua cabeça repousava em paz no travesseiro, sem parecer doente ou inquieta.  Ela respirava calma e suavemente, e sua presença enchia o quarto, de maneira não egoísta.  Tal como a presença divina, ela não apresentava demandas, ou uma demanda total, assim parecendo ao mesmo tempo irresistível e não ameaçadora.

Maria e eu nos sentamos a seu lado, meditando silenciosamente por algum tempo.  Rezei, então, em palavras e, novamente permanecemos silentes.  Ela não apresentava sinais de resposta à nossa presença, exceto por meio de uma sensação mais profunda da presença dela.  Tratava-se de uma comunicação silenciosa, a comunicação que é silêncio.  Pouco depois nos levantamos para sair.  Abençoei a mulher moribunda, e Maria tomou a frente para sairmos do quarto.  Ao me afastar da cama, olhei para sua mãe e vi que seus olhos estavam abertos olhando-me diretamente.  Um completo vislumbre de um abismo prenhe de luz.  Mais tarde, qualquer um poderia chamar isso de uma benção.  Chamei Maria de volta, mas, os olhos de sua mãe estavam novamente fechados.  Intuitivamente, nos sentamos mais uma vez, sem qualquer propósito ou intenção em particular, só a de estarmos ali, no mais completo sentido da frase, para entendermos o que estava acontecendo.  Foi um daqueles raros momentos da vida, de total certeza de que estávamos no lugar certo, na hora certa, e que nada tínhamos a fazer, a não ser estar presentes.  A mulher moribunda continuava a respirar suavemente, mas, crescia a sensação de uma mudança iminente.  Pouco depois, sua respiração se alterou, ela deu a impressão de ofegar uma última vez e, então, sem esforço, desistiu de seu instinto de sobrevivência, e se entregou completamente para outra espécie de vida.  Seu último alento parecia escancarar uma dimensão de imobilidade irrepetível, uma finalidade sagrada que naquele instante consumiu toda tristeza e perda, em uma total consumação.

Chegara o único momento da vida que se compara completamente ao drama do nascimento.  Assim como nos níveis de profunda prece, sentimentos e pensamentos eram temporariamente irrelevantes.  A paz e a felicidade não eram experiências identificáveis, mas, apenas aspectos incidentais de uma realidade que falava apenas por, e de si mesma.  A mãe de Maria morrera.  Maria perdera sua mãe.

Com Muito Amor,


   
PAX