"Hospital" - Maio 2010
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Logo antes de me levantar para sair, de maneira ociosa, tal qual uma criança de dois anos de idade, me estiquei para pegar um ornamento atraente na prateleira a meu lado.  Tratava-se de uma dessas esferas de pedra polida, que não servem nem mesmo como peso para papéis, pois rolam com tanta facilidade.  Segurei-a por um momento, admirando  a beleza da pedra e, então, na tentativa de recolocá-la, ela escorregou, tentei pegá-la com minha outra mão, mas deixei-a cair quando ela atingiu meu dedo mínimo.  Depois de uma curta pontada de dor, notei que meu dedo apresentava uma interessante nova forma.

Uma visão diferente do próprio corpo, mesmo que seja uma pequena parte como essa, reorienta completamente a própria percepção do mundo.  Imagine-se como deve ser a Ressurreição.  Fui tentado a forçá-lo de volta à sua posição normal, mas, sabiamente me recomendaram não fazê-lo.  Ninguém sabia em que direção ele deveria ser puxado ou empurrado. O dedo pulsava um pouco, mas estava inconvenientemente rígido: eu estava desamparado e necessitava ajuda.

Saí em busca dela dirigindo-me à Unidade de Emergência e Acidentes do St Mary’s Paddington, tranquilizado pela placa azul na parede, que nos informava que aqui, Alexander Fleming havia descoberto a penicilina, no ano em que nasci, talvez isso fosse uma conexão cármica.  Tal como a maioria dos hospitais londrinos, ele tinha um aspecto caseiro, um tanto pobre, sem aquela eficiência higiênica de vidros e metais que aparece no sistema de saúde que se mostra na televisão, mas era amigável.  Tive que dar meu nome e algumas rotineiras provas de minha existência social, a uma atendente encarregada de preencher formulários, compreensivelmente enfastiada, que estava atrás de uma tela atopetada com tantos avisos que quase a escondiam inteiramente.  Todavia, não me perguntaram se eu possuía seguro saúde, ou mesmo se eu era um cidadão britânico.  Não fui paparicado, nem rejeitado ou tratado como um cliente, apenas aceito como alguém que necessitava ajuda, e colocado em uma fila com outros como eu.

Sentados, meu gentil acompanhante e eu, olhávamos em volta para os outros necessitados.  Alguns estavam sós, outros com numerosos familiares.  Frequentemente os olhos se encontravam ao nos olharmos perguntando-nos qual seria o problema deles. Algumas vezes o problema era óbvio.  Quão vulneráveis e transparentes estamos, sempre que outras pessoas conhecem nossas verdadeiras carências.  O homem a meu lado estava com seu dedo enfaixado.  Sentindo-me na mesma categoria, perguntei-lhe se o havia quebrado.  Não, ele o havia quase seccionado ao cortar papéis no escritório.  Ele estava amedrontado, e balbuciou algo quanto a ter sido tão estúpido.  Assim como eu, assim como todos nós necessitados, ele se sentia estúpido quanto aos erros que nos derrubam dessa maneira.

Antevendo uma longa espera, decidimos meditar, porém foi uma curta prece (São Bento dizia que a prece deveria ser curta), pois chamaram meu nome.  O sistema se lembrou de mim pelo meu nome!  Passei por uma rápida triagem, raios-x e me disseram para novamente aguardar.  Logo, eu estava deitado em uma baia de atendimento, trocando gracejos com uma enfermeira de grandes proporções, que deve ter sido a capitã de seu time de hockey na escola.  Ela era uma enfermeira da pediatria que estava fazendo um treinamento adicional.  Conversamos enquanto ela estudava meu dano.  Ela poderia endireitar o dedo deslocado, porém ela ainda não estava autorizada a fazê-lo.  Um jovem médico indiano logo chegou, vestindo calça jeans, sem avental, treinado para coisas mais importantes do que o reposicionamento de um osso.  Respirei profundamente o óxido nitroso e esperei pela dor do puxão, mas quase não senti nada.  ‘É só isso?’  Sim, é só, mas ainda não tente movê-lo .’

“A terra toda é nosso hospital dotado pelo milionário arruinado”. 1

Os cuidados ainda não haviam terminado.  Precisava de outro raios-x para certificarmo-nos de que o procedimento funcionara.  Minha risonha enfermeira veio me enfaixar, no exato momento em que uma verdadeira emergência chegou.  Uma parada cardíaca.  A equipe da emergência largou tudo e correu para os respectivos postos, tal como um time de futebol, que cumpre um planejamento secreto de jogo.  Eles mostraram gostar de utilizar suas especializações.  Junto com os outros machucados me espremi contra a parede para a entrada da maca sobre rodas do paciente, torso nú, sob ressuscitação cárdio-pulmonar, cercado por pessoas cuja único interesse era salvar sua vida, a vida de um estranho, tal como todos nós éramos, até que nossas carências nos apresentassem.  Quando por fim minha enfermeira voltou, perguntei como ele estava.  ‘Nós o ajudamos a sair dessa’.

Por baixo das mãos ensanguentadas sentimos a fina compaixão da arte do curandeiro, que resolve o enigma do gráfico da febre”. 2

As enfermeiras e os médicos não estavam fingindo serem perfeitos.  O hospital não era uma sociedade perfeita.  Caso errassem, eles eram os responsáveis.  Eles eram os curandeiros dos seres humanos, seus companheiros.

Se apenas pudéssemos encarar a igreja simplesmente da mesma maneira.

Muito Amor

Laurence Freeman, OSB

 

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1 N. T.: Tradução de um trecho de poema de T. S. Eliot em que ele revisa à sua maneira o dogma da Sexta-Feira Santa, o dia da Paixão de Cristo, no qual mostra-se que o sofrimento é o caminho para a redenção, desde que aceito em verdadeira humildade, como sendo penitencial e purificador.  Eliot transpõe os termos deste padrão cristão fundamental para a mais moderna linguagem.  A Igreja é uma “enfermeira moribunda”, Adão é o “milionário arruinado”, e a terra em que sofremos é “nosso hospital”. (The Art of Poetry: How to Read a Poem por Shira Wolosky)

2 N. T.: Tradução de outro trecho do poema de T. S. Eliot em que o “gráfico da febre” de um paciente em um moderno hospital representa o curso da doença do paciente.  O “enigma” provém do paradoxo de que a “doença” e seu tratamento podem ser a rota para a saúde.  O sofrimento se torna mais compreensível ao refletirmos que a dor pode resultar até mesmo do desejo de curar de um compassivo médico.  Todavia, o sofrimento causado por um médico compassivo seria ainda mais aceitável, se soubéssemos que que o médico também sofrera, também fora “ferido”. (The New Testament and literature: a guide to literary patterns por Stephen D. Cox)

 

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã