"Capella" - Fevereiro 2010
Tradução de Roldano Giuntoli
 

Era uma conversa sobre economia global, lá pela hora do desjejum, em uma manhã do inverno londrino.  A previsão do tempo era ruím.  Contudo, uma sala aquecida e elegante, de um centro para negócios exteriores na praça Saint James de Londres, acolhia uma elite de pessoas empenhadas em perscrutar o futuro.  Excentuando-se eu, a audiência era formada por pessoas com discernimento acerca de para onde o mundo se dirige, discernimento esse proveniente das áreas do jornalismo, economia, finanças e negócios.  Eles desejavam testar e aprofundar suas próprias idéias, ouvindo o palestrante convidado, amigo meu, admirado em sua área, procurando compreender a abrangente e detalhada perspectiva dele, através do papel que ele representa em um banco global.

Essa pessoas não eram os agentes do poder da política da economia mundial, mas agentes do conhecimento, aqueles que informam pessoas que tomam decisões.  Eles falavam baixinho, não eram do tipo que prepara discursos.  Eles apresentam duas ou três teorias possíveis e explicam porquê uma delas deveria ser preferida, caso devêssemos escolher.  Mas eles sabem o que sabem e, parecem estar livres daquele jogo de palavras interesseiro dos políticos, ou do direcionamento motivado pelo lucro dos investidores.  Eles não precisam carrear a opinião pública, nem se reeleger.

Conversamos sobre a crise em um tom calmo e relaxado.  Eles possuem aquela modéstia confiante dos especialistas que são fascinados por seu objeto de estudo, de per se, tal qual um carpinteiro concentrado em sua própria arte, não por causa do valor pelo qual a mesa que ele fabrica será vendida.  Havia um clima acadêmico de precisão, cortesia e refreamento.  Todos sabiam não haver uma única explicação, ou solução simples.  Aqui você poderia compreender que os chineses não fugiram do encontro de Copenhague por mero egoísmo.  Foi porque seu objetivo social prioritário e apaixonado é a erradicação de sua própria e amarga pobreza.  Não se permitiria que nada obstaculasse esse objetivo imediato, nem mesmo as mudanças climáticas.  Assim, até mesmo nesse nível, as escolhas são sempre de caráter moral: o conflito de interêsses entre sua própria família e as necessidades dos outros é um dilema que só a sabedoria e a coragem podem resolver.  No caso de seu próprio filho e o filho de um estranho estarem ambos chorando de fome, quem você alimenta primeiro?

As conclusões a que esse tipo de discussão matutina acabam levando, provavelmente determinam o preço do café que eu tomei com meu amigo em seguida, bem como de onde esse café é importado e, quanto é que a garçonete polonesa que nos atendeu poderia remeter ao final do mês para a família em sua terra natal.  As grandes e lúcidas abstrações dos especialistas não são, ao contrário das aparências, tão do outro mundo.  E a qualidade da consciência, o despertar espiritual e a integridade pessoal desse tipo de pensadores impactam as vidas daqueles para os quais o preço do café, do transporte público e o valor do salário mínimo são preocupações do dia-a-dia.  Meu amigo falou sobre as mudanças globais que se seguem à recessão, não sobre espiritualidade. 
Todavia, quando ele falou sobre o fracasso do sistema bancário global em se reformular após as iniquidades dos anos recentes, pensei ter percebido um tom e uma sensibilidade que refletiam uma experiência contemplativa da verdade: não apenas uma afirmação fundamentada em estatísticas.  Talvez sejam essas, afinal, sutis nuances da verdade experienciada que dão forma à interpretação dos dados e que, em última análise, determinam se o mundo será um lugar mais ou menos justo após termos realizado nosso trabalho nele.

Meu breve encontro com mulheres e homens sábios da economia global me fez pensar sobre a distância existente entre o pequeno e o grande.  Quanto parece ser inflamado e tenro esse doloroso golfo que separa o Homem Rico e o Pobre Lázaro, que se encontra na arqueologia dos primeiros núcleos humanos e se reflete nos preços das residências de diferentes áreas de qualquer cidade moderna.

Depois disso, me encontrava em uma paróquia remota da área rural de Queensland, que experimentava aquele novo e breve verdor que se segue a fortes chuvas.  Me encontrava com um extraordinário bispo pastoral, Brian Heenan, que calorosamente era recebido como “Padre” nas pequenas congregações que visitamos, viajando de carro por centenas de quilômetros.  Batizamos Jonah, de quatro meses, em uma pequena cidade mineira chamada Capella.  Brian e eu falamos sobre a Igreja durante a viagem.

Quão remotas parecem as disputas vaticanas para a a vida cristã dessas simples comunidades.  No entanto, o mesmo golfo, as mesmas injustiças endêmicas e dolorosas existem na Igreja.  Nesse sentido, trata-se apenas de uma outra região do mundo, uma outra instituição global.  Todavia, eu também senti, assim espero, quando Jonah abriu seus olhos ao sentir a água fluir sobre sua cabeça, que poderíamos vir a testemunhar, ainda que intermitente e debilmente, o fato de que esse antigo golfo existente entre os seres humanos, que causa todos os nossos piores fracassos de humanidade, é transponível.  Nada demonstra isso melhor do que Cristo, a ponte entre ricos e pobres, os poderosos e os amordaçados, o professor e o demolidor.  E, a igreja, na verdade, é apenas ele que é a ponte.

Muito Amor

Laurence Freeman, OSB

 

Medite por Trinta Minutos
Sente-se confortavelmente, mas com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxado mas atento. Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a como quatro silabas de igual duração Ma-ra-na-tha, em ritmo lento. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense nem imagine nada - nem de ordem espiritual nem de qualquer outra ordem. Se pensamentos e imagens afluírem à mente, trate-os como distrações e simplesmente retorne à repetição da palavra.

Comunidade Mundial de Meditação Cristã