Depois da caótica e poluída Bangkok, o centro de Bhikkuni Dhammananda,
a uma hora de carro por um trajeto torturante, parece um verde refúgio,
ainda que esteja ao lado de uma avenida movimentada. Em lugar da fumaça
de óleo diesel, pode-se novamente sentir o cheiro da terra e da vegetação
do viçoso jardim. Dhammananda, uma das apenas oito monjas budistas inteiramente ordenadas na Tailândia, nos recebe calorosamente.
Ela possui uma personalidade forte, cabeça raspada, com as vestimentas monásticas, uma abadessa em todos os detalhes. Tal como todos os
monges do budismo theravada, ela só se alimenta ao meio dia, assim, compreensivelmente, ela se despede de nós para seu almoço com sua comunidade. Tal como em qualquer mosteiro, os períodos de alimentação
e de prece são igualmente sacrossantos.

A Tailândia, com uma população de 62 milhões de habitantes, possui 300.000 monges (bhikkus). Os números decrescem, à medida que o estresse ocidentalizado corrói o tempo livre necessário ao monaquismo. Para alguns,
essa redução pode parecer benéfica, na medida em que a ordenação monástica é, em grande parte, um ritual socializado (espera-se que todos os homens vivam como monges por cerca de três meses, de modo a angariar mérito para seus pais), ao invés da decisão pessoal que é fruto de intensa motivação no Ocidente. Muitos meninos são cedidos a um mosteiro budista, assim como o eram os oblatos nos tempos de São Bento, por razões educacionais ou financeiras.

O budismo é a religião oficial do reino da Tailândia e, a legislação da Sangha monástica está prevista na constituição nacional. Por força de uma lei reativa de 1928, após um movimento provocativo de um pequeno grupo que discutia, aquilo que Dhammananda chama de violência estrutural contra as mulheres, tornou-se ilegal ordenar mulheres como bhikunnis. Aquelas que quiseram viver uma vida religiosa, tiveram que fazê-lo como maechee, freiras vestidas de branco que são popularmente associadas à execução de funções domésticas, que mantém os templos e as residências dos monges em um nível apropriado de conforto e limpeza. Algumas dessas freiras conquistaram uma reputação de orientadoras espirituais, mas, elas continuam sendo de um status inferior e, não são admitidas à mais elevada educação do monge.

Ao voltar, Bhikunni Dhammananda senta-se conosco à mesa de pedra próxima ao jardim, para nos apresentar um relato vigoroso da história do preconceito arraigado que ela contesta bravamente. Assim como as outras poucas monjas inteiramente ordenadas da Tailândia, ele teve que ir ao Sri Lanka, deixando uma carreira universitária e um casamento e família próprios, para poder expressar a plenitude de sua vocação monástica. Eu lhe digo que ela me lembra um pouco Soror Joan Chittister, a radical beneditina norte-americana, que precisou se ocupar de bloqueios similares na igreja católica. Não me surpreendo muito quando ela diz que a conhece e, que trabalhou com ela em vários projetos. Pergunto-lhe, o que ela acredita estar por trás do obstrucionismo patriarcal antiquado, ao que ela me pergunta se pode se expressar de forma direta. Digo esperar que ela o faça e, ela o faz: 'poder e dinheiro", ela diz.

Sem dúvida, são fatos a serem levados em conta. O lado sombrio de muitas religiões é o de caírem na própria prosperidade e status que elas ensinam a transcender. Mais tarde, porém, ao ler a história da primeira reação do Buddha à ordenação de mulheres, senti que a subordinação das mulheres, na religião, é mais profunda. Após sua iluminação, à idade de 35 anos, o Buddha associou a disseminação de seus ensinamentos à ordem monástica que ele fundou. Por ocasião da morte do pai do Buddha, sua madrasta, a rainha MahaPajapati, pediu permissão ao Buddha para seguí-lo no estado monástico. Ele respondeu, 'Por favor, não me peça isso'. Porém, mais tarde, ela se apresentou acompanhada de 500 mulheres com cabeças raspadas e vestes amarelas. O Buddha deu a mesma resposta. Ananda, seu mais amado discípulo, perguntou se isso era porque as mulheres não podiam atingir a iluminação, porém, o Buddha deixou claro que homens e mulheres possuem igual potencial espiritual: uma afirmação histórica, na história das religiões. Por fim, ele cedeu e bhikunnis foram aceitas. No entanto, o problema voltou logo após sua morte e, de acordo com o testemunho de Bhikunni Dhammananda, na maioria das culturas budistas, a posição das mulheres degenerou rapidamente.

Estranhamente, a história do Buddha e da rainha encontra eco na de São Bento e de sua irmã, a Santa Escolástica. Em uma ocasião ele a visitou em seu convento. Ela o pressionou a ficar por mais tempo, mas, obediente à sua própria regra, ele declinou. Ela então, rezou por uma tempestade, que aconteceu, obrigando-o a ali passar a noite. Ele a repreendeu severamente, mas, ela conseguiu o que queria.

Talvez a razão pela qual os homens necessitem dominar as mulheres seja porque eles temam que, de outra maneira, eles se subordinarão a elas. O relacionamento entre mãe e filho, não é igual e, para muitos monges (assim como o Buddha), aquele é o mais forte relacionamento que eles jamais terão com uma mulher. De qualquer maneira, BhikunniDhamananda não compete com os monges. Ela aguarda sua oportunidade, o tempo está a seu favor e, ela procura não assustá-los. Porém, a modernidade atingiu o budismo tailandês, assim como atingiu outras religiões.

Com Muito Amor,


   
PAX