Dom John Main, OSB - WCCM


 

Quaresma 2012

Domingo de Páscoa (08/04/12)

O anjo disse às mulheres que Ele não estava lá, onde elas o estavam procurando, porque Ele tinha ressuscitado. Depois da morte, já não o conhecemos de modo carnal – o que inclui o modo da imaginação. Como a meditação, Ele não é o que nós pensamos. Como o reino, não está aqui, não está ali.

Então o anjo disse-lhes: Ele vos precede na Galiléia, é lá que o vereis. "Vede bem, eu vo-lo disse", conclui ele simplesmente. Não há nenhuma explicação, apenas a proclamação. Tarefa cumprida. Como isso poderia ser prontamente entendido ou explicado de maneira satisfatória? A tarefa é comunicá-lo e esperar. Se não for verdade, depois de ter visto a possibilidade e ouvido a proclamação, tudo perde gradualmente a cor e a energia.

Os desafios da condição humana de repente aumentaram de maneira dramática.

É surpreendente que não possamos dizer com exatidão o que os primeiros cristãos estavam comunicando, e, desde então, isso formou uma contínua cadeia de transmissão. Foi uma experiência de seu ser presente, que não pôde ser conservada em pensamento ou na imaginação ou nos sentidos, de um modo que, sem dúvida, os impressionou e transformou, não como memória ou arquétipo, mas como presença pessoal.

Como podemos explicar qualquer dos mais importantes acontecimentos em nossa vida?

As mulheres voltaram para fazer tudo o que podiam, naquelas circunstâncias – anunciá-lo aos outros. E eis que Jesus vem ao seu encontro. O anjo não havia falado que elas o veriam na Galiléia? Elas não estão na Galiléia. Por que está Ele ali, sendo que deveriam vê-lo lá? Está Ele lá também?

Ao vê-lo, começam a perceber que elas estavam em sua mente apesar de (ou por causa de) tudo o que Ele tinha sofrido. A morte, o grande esquecimento não tinha feito com que Ele as esquecesse. Elas deveriam valer mais do que pensavam. Ele deveria ser mais do que elas imaginavam.

Não temais, Ele lhes diz. É o medo que enfraquece a mente e nos torna incapazes da expansão necessária para vê-lo e compreender que agora podemos viver de modo bem diferente e sem medo. (Mesmo o anjo lhes havia dito para não ter medo). Talvez tenhamos mais medo do que o confessemos até para nós mesmos.

Ele também não dá nenhuma explicação, só a experiência em si, dele. Isso leva uma ação, a uma nova prioridade na vida, que define a vida de seus amigos e discípulos de hoje em diante – partilhar com outros essa notícia transformadora da vida.

Aleluia, Ele ressuscitou verdadeiramente. Tarefa cumprida. Nova criação. Aonde vamos daqui em diante?

Laurence Freeman OSB

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Sábado Santo (07/04/12)

Um antigo escritor cristão cujo nome está perdido para nós escreveu estas palavras em uma homilia para descrever o significado deste dia silencioso de transição:

Levantem-se, vamos sair deste lugar, pois vocês estão em mim e eu estou em vocês; juntos formamos uma única pessoa e nós não podemos ser separados.


Depois do drama do trauma há o longo rescaldo de normalidade. É como uma poderosa onda do mar que atingiu a terra com grande força e agora está sendo sugada de volta para o oceano. Você até se pergunta se realmente o grande impacto aconteceu de fato, pois tudo parece tão quieto e vazio e mundano.

No entanto na medida em que aceitamos a grande quantidade de acontecimentos e a espera de duração indeterminada algo surge. Transparece através do vazio imensurável que é tudo o que restou. Um sentimento crescente de união com o qual nós nunca mais vamos enxergar novamente da mesma maneira. Uma presença mútua e íntima de uns com os outros dentro de uma presença maior que contém tudo. Mesmo na dor residual da perda, um novo tipo de paz também mostra, conscientemente, de que esta nova união é tão definitiva e permanente como a própria perda que está por trás dela.

Assim, mesmo quando nada está acontecendo - como aprendemos no vazio da meditação, onde experimentamos a morte e ressurreição diariamente - uma nova vida começa a emergir. Na mente de Cristo vemos que existem duas criações, ao mesmo tempo belas e terríveis. A primeira é marcada pela mortalidade, o horizonte para além do qual não podemos ver nada. A nova criação é conhecida por aqueles que despertarem para o seu ser uma pessoa com a pessoa que volta para nós por esse horizonte.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira Santa (06/04/12)

Nota: em inglês a expressão para "Sexta-feira Santa" é "Good Friday", ou seja, "Sexta-feira boa" numa tradução literal.

O que há de 'bom' num dia em que um homem inocente e bom é condenado por uma acusação inventada, traído e desertado por seus amigos, rejeitado por aqueles a quem falou a verdade, torturado física e mentalmente, crucificado e morto?

A primeira veia de bondade está em seu caminho de aceitação. Quando coisas ruins acontecem, podemos tentar negá-las ou elas podem nos tornar pessoas amargas e odiosas em busca de vingança. No caso dele isso claramente não aconteceu. Que profundo poço de bondade e amor em si mesmo ele escavou para encontrar-se com seus opressores no perdão e para abraçar o que aconteceu com uma equanimidade de alma que transformou o mal feito a ele em bem para os outros?

"Só Deus é bom", disse ele uma vez ao jovem rico que buscava a vida eterna mas ainda se encontrava preso na armadilha de suas posses.

A outra veia de bondade nos eventos de hoje é o efeito transformador que eles têm sobre outros. Isso começou no momento histórico em que esses eventos ocorreram e continua, certamente continua acumulando seu efeito. Através do que aconteceu hoje uma nova consciência adentrou o reino humano e começou a minar as raízes mesmas da escuridão na alma humana, que nos leva a fazer coisas tão desumanas uns com os outros, esquecendo-nos de quem somos e esquecendo que o poço do ser divino tem sua fonte em cada um nós.

No caso de coisas terríveis como essas, damos um suspiro de alívio quando elas passam. Neste caso, porém, vemos que elas têm muito mais a trabalhar para tirar a humanidade do ciclo de violência em que caímos e que é nosso pecado original. Uma violência que nasce do sentimento angustiado e ilusório de Caim de que não somos amados.

Na montanha da Ilha de Bere, onde estou, há uma cruz erguida, imóvel, constante, brilhando durante a noite, silenciosamente fiel. Não muito longe dela alguém colocou, ilegalmente, uma turbina de vento. O moinho de vento gira como o ego ao vento, produzindo lucro de curto prazo à custa de uma integridade maior.

A cruz tem uma energia maior que o ego e contemplá-la em nossa vida, abraçar seu efeito transformador, é que torna esta sexta-feira boa e santa.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da Semana Santa (05/04/12)

Fazei isto em memória de mim.

Sentimo-nos ofendidos ou diminuídos se nos encontramos com alguém que conhecemos e que não se lembra de quem somos. Para ter dias ou acontecimentos significativos em nossas vidas, lembrado por aqueles cuja afeição ou opinião valorizamos, significa muito para o sentido de nosso próprio valor.

No entanto, lembrando-se de uma forma positiva - afirmando que ainda estamos lá e que as coisas importantes da vida não tenham finalmente afundado para fora da lembrança sob as ondas do tempo - requer esforço. "Obrigado por se lembrar ", dizemos, porque a letargia natural do egoísmo torna mais fácil de esquecer. Lembranças negativas - penduradas em mágoas do passado e ações mortas - é mais fácil, embora, por vezes, podemos sentir uma pontada de remorso que, mesmo uma memória negativa está desaparecendo de nossas mentes.

A palavra Grega que nós traduzimos como 'lembrança' e usamos para falar da "memória da Eucaristia" não é apenas lembrar o que podemos (e um dia provavelmente iremos) esquecer, conforme as células do nosso cérebro se esgotam. Isso significa fazer presente um evento que teve um início histórico, mas cuja vida e influência ainda não expirou.

Porque nos esquecemos tanto, tão rapidamente - o que aconteceu há dois dias em um período de 24 horas? - as coisas que andam as ondas do tempo e não desaparecem são as forças significativas e que reforçam a vida. Requer esforço e tempo para recuperá-las, mas depois somos chamados à vida por terem se tornado presente.

O dom de si nunca morre. Ele está sempre presente e pode ser chamado a mente a qualquer momento, a fim de renovar e tranquilizar-nos que a vida, por todas as suas fatalidades, não é apenas a sobrevivência. Trata-se de florescimento, plenitude.

É isto que a Eucaristia é. Apesar do fato de que ela foi cercada em volta por regras e regulamentos e as políticas da religião, a sua energia de melhorar a vida nunca deixa de surpreender. É um canal da generosidade infinita de quem não se esquece de nós.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Semana Santa (04/04/12)

Dor de dente já é ruim o suficiente. Enquanto dura, dor física extrema bloqueia os outros estímulos do mundo, bons e ruins. Ela se torna o centro de nosso campo de percepção. Nós podemos ficar incomodados porque nossas mentes estão tão absorvidas por algo tão acidental, e também que nos faz tão auto-centrados. Podemos dizer a nós mesmos que não vai durar para sempre, mas enquanto estamos passando por isso é como um animal exigente que espera toda a nossa atenção.

Isso não ocorre só com dor de dentes claro. Grande tristeza pela perda de alguém que amamos pesa sobre a nossa região cardíaca e perfura o plexo solar exatamente como uma dor física. O corpo é um sacramento e um meio de expressão de nossa consciência em todos os níveis.

Enquanto comiam, Ele disse: 'Em verdade vos digo, um de vocês está prestes a trair-me ".

A experiência da traição como muitos casamentos e amizades testemunham também é um sofrimento terrível.

Onde é que Jesus obteve esse conhecimento que ele seria traído? Nós não sabemos. Mas ele mantém isso com reserva. Ele não demoniza Judas como alguns dos escritores do evangelho parece fazer. Os motivos do traidor permanecem ocultos e é difícil perdoar sem introspecção, sem saber porque alguém em quem colocamos a nossa confiança e amor joga tudo fora.

Se tivermos essa visão, como Jesus deve ter tido, ficamos em silêncio ao invés de condenarmos. E perdão ao invés de recriminações é capaz de entrar no sistema danificado de nossos relacionamentos.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Semana Santa (03/04/12)

'Agora o Filho do Homem foi glorificado.' Esta é a sua resposta para o momento em que seu destino foi selado e um dos seus discípulos próximos, 'preenchido com satanás', deixa a mesa comum para traí-lo.

O ato da traição pessoal resta, estranhamente isolado na história, sem explicação. Ninguém está convencido de que ele o fez só por dinheiro. Incompreensivelmente necessário porque traz o ator principal para o grande momento.

Nós falamos de glória em batalhas, temperatura gloriosa e a glória de Deus. No entanto, ninguém fala no tipo de glória que acontece num momento de derrota e de desapontamento. Quando alguém em quem depositamos nossa confiança ou esperança nos decepciona ou quando um plano sobre o qual estamos trabalhando em cima fracassa, parece-nos inadequado falar em glória.

Quando você abre uma concha de vieira fresca ela resiste firmemente a você. Ela fecha sua concha fortemente contra a faca invasora que está sendo enfiada entre as duas metades articuladas do seu mundo protetor. A arte desse ato cruel, sem o qual não haveria cultivadores de vieiras, é a de encontrar o músculo que a mantem fechada e ali introduzir a faca. Então a concha se abre, lá está a visão da saborosa comida e a cadeia alimentar continua.

Nós preferimos não ver isto ser feito nem ouvir sobre o fato, mas é parte do mundo que habitamos. O fim de uma vida é o alimento para outra na cadeia do ser. Devemos reconhecer o sacrfício individual e sentir a perda da vida assim como alguns indígenas americanos o fazem, agradecem a uma árvore antes de derrubá-la.

Se o fim de uma vida é aceito desta forma humilde, é como se algo se abrisse. O lado escuro disso é a sombra projetada pela luz intensa que foi liberada.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Semana Santa (02/04/12)

Começamos ontem o retiro da Semana Santa na Ilha Bere. Entre as liturgias, os tempos de meditação, os momentos de reflexão compartilhada sobre os intangíveis e inesquecíveis símbolos da Paixão, vamos tentar preparar-nos – com todos vocês que leem essas reflexões – para os três grandes dias.

Cada uma destas práticas espirituais – meditação, liturgia, lectio – reforça as outras. Como em uma dança, giram juntas, sem competir ou chocar-se, como a própria comunhão divina.

Quanto mais profundo vamos com a sua ajuda, mais percebemos nossa integridade. Nós nos tornamos menos divididos, e menos em conflito dentro de nós mesmos e, consequentemente, entre nós e os outros. A viagem mais profunda é uma cura de tudo o que nos magoou ou danificou em nossas vidas, separando-nos da plenitude do ser para a qual fomos projetados.

Mas o foco é Jesus, e não nós mesmos. Se nos concentrarmos em nós mesmos, o perigo imediato é ficarmos presos na auto-referência (muitas vezes inconsciente). Mas focar nele é escapar da armadilha do egoísmo, e cair na grande liberdade do verdadeiro eu, onde somos um com ele; então, caímos na liberdade ainda maior da comunhão divina, em que tudo o que é humano é divinizado.

O foco em Jesus mostra-nos que não é através de uma série de vitórias e ganhos que fazemos isso, mas por meio de derrotas e perdas. Não é o caminho que o ego gosta de seguir, mas é o caminho secreto e direto para o Reino.

Laurence Freeman OSB

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Domingo de Ramos (01/04/12)

Tudo começa de novo e, de modo ritual, passamos a relatar e reviver interiormente os grandes eventos que aconteceram há muito tempo. O mundo não parou quando eles se realizaram. Apenas de modo simbólico escureceu-se o sol e o véu do templo rasgou-se pelo meio. A vida comercial e emocional das pessoas continuou como sempre, durante todo o transcorrer do curto trágico drama da humilhação de um refém sem poder na política do mundo. Um breve espetáculo de julgamento, tortura pública para manter o povo satisfeito, mais uma execução de um ativista religioso (ou político) que brilhou por um breve tempo na imaginação popular e, em seguida, perdeu a sua aprovação e afundou entre as grandes ondas dos negócios de estado e de interesses pessoais.

Seus amigos íntimos fugiram desapontados e talvez irados com ele, para salvar a si mesmos. Deixaram que morresse só com sua mãe, um discípulo que amava e algumas devotadas mulheres aos pés da cruz.

E aqui estamos em 2012, contando a história de novo, a partir dos relatos levemente desarticulados mas inesquecíveis, escritos várias décadas depois. Não temos suas próprias palavras, a não ser em tradução. Ele não deixou nada escrito. Não sabemos o que ele gostava de comer no café da manhã ou, em termos exatos, quem ele pensava que era. Ele está mais presente do que qualquer outra figura histórica ou de ficção e, contudo, quando o olhamos de perto, Ele se torna transparente e desaparece. Se o encontramos, somos transformados, mas não podemos controlá-lo.

Essas inconsistências e paradoxos que tanto irritam a mente racional, quando ela funciona isolada, constituem os meios de grande transmissão.

As crianças que gostam de uma estória e aqueles que reconhecem o valor de uma grande obra de arte ficam felizes de repeti-la indefinidas vezes. Nesta estória, a própria repetição constitui um ato de fé e portanto ilumina a visão.

Ganha mais força se ao contarmos a estória, atuarmos como no teatro, ao invés de nos sentarmos como uma assistência pacífica. Nesta estória, não existem meros observadores.

Temos um número limitado de oportunidades na vida para representar de novo o drama e penetrar o seu significado. Sem saber quanto constitui parte do processo que nos liga àquele que sofreu e morreu, mas não permaneceu morto.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da Quinta Semana da Quaresma (31/03/12)

De um modo geral, a experiência vem em primeiro lugar. A experiência em primeira mão é sempre imprevisível, mesmo se soubéssemos o que estava por vir, como um nascimento ou morte muito esperados. Podemos conscientemente esperar por uma experiência que sabemos que está sendo formada, mas quando ela realmente acontece uma mudança imprevisível ocorreu.

A experiência em seguida nos presenteia com um desafio e um enigma muitas vezes. Como ela se encaixa no padrão mais amplo de nossa história? É realmente tão significativa quanto parece?

Será que isso significa alguma coisa? Ficaríamos satisfeitos se pudéssemos prever o futuro. Isso nos daria uma sensação de segurança, mesmo se reduzisse a vida a um programa de computador. Mas a consciência humana tem que chegar ao nível da profecia, que se trata de vislumbrar o presente que atravessa todas as camadas do tempo. Temos de levar a vida a sério se quisermos achá-la alegre.

"..você não consegue ver que é melhor que um homem morra pelo povo, do que toda a nação ser destruída." Ele não falou como Ele mesmo, mas profetizou como o sumo sacerdote que era."

O significado é maior do que nós. Então, quando a experiência e o sentido se combinam na visão profética, a pessoa que somos se expande. Desconfortavelmente, mas maravilhosamente. Nesse ponto do processo as pessoas deixam de discutir por um momento. Deixamos de ficar ansiosos a respeito de coisas e descansamos por um momento em um estado tranquilo e vigilante que poderíamos quase chamar de adoração pura.

Fazer sentido é voltar para casa. Talvez por isso, a Quaresma é construída sobre a metáfora de uma longa jornada para uma terra prometida à qual sentimos que pertencemos e que (mais perigoso) pertence a nós. Também pode ser o motivo porque as pessoas muitas vezes dizem quando refletem sobre a experiência e o significado da meditação em suas vidas durante um período de tempo que sentiram como que "voltando para casa". 

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da Quinta Semana da Quaresma (30/03/12)

O homem sempre enxergou o mundo através dos grandes ciclos naturais. Tudo o que era será outra vez, diz um dos livros sapienciais da Bíblia. As estações orbitam como as constelações, previsíveis e tranquilizantes àqueles que experimentam a mudança e a mortalidade. A repetição, porém, é uma faca de dois gumes: é reconfortante em sua previsibilidade, mas tediosa em sua mesmice. Então tentamos ter o melhor de dois mundos, buscando a mudança quando esta pode realizar nossos desejos e ainda assim nos agarrando ao status quo, pois, não importa o quanto este seja incompleto, é o que conhecemos melhor.

Talvez a maior parte da história humana e de nossa vida seja passada numa tentativa de resolver essa equação.

O ciclo da natureza é a batida do baixo. Mas com base nele preparamos as variações criativas que nos libertam de toda sua monotonia. Uma vez libertado o espírito da criação, nos sentimos conectados à fonte da repetição cíclica que nunca é tediosa e é sempre nova. A experiência de Deus como nascente de tudo que existe é o objetivo último de todo o esforço e desejo humanos, mesmo aqueles mais iludidos e ofensivos. Como as grandes migrações na natureza, que ocorrem constantemente em nosso redor, estamos sempre procurando o lar, que é onde podemos nos sentir realizados e em paz, seguros e capazes de nos desenvolver.

"O Pai está em mim e eu estou no Pai"

Em peregrinação, no grande êxodo para deixar a opressão do espírito, nos damos conta de que carregamos o lar dentro de nós e progredimos em direção a ele nos ciclos de descoberta e despojamento, do encontrar e do perder. No êxodo diário de nossa meditação giramos a roda da oração, e ela sempre nos leva para um lugar novo.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da Quinta Semana da Quaresma (29/03/12)

As pessoas geralmente concordam que o exercício, como a meditação, é uma coisa boa. Fisicamente e mentalmente nos sentimos melhores com o exercício físico regular. Dependendo do nosso temperamento pessoal podemos ter dificuldades para manter uma disciplina de exercício diário e procuramos qualquer desculpa para evitá-lo, apesar de saber que vamos nos sentir melhor ao fazê-lo. Ou, tendo uma personalidade mais compulsiva, podemos ficar tão fixados no exercício que exageremos e assim fazemos com que ele desempenhe um papel mais dominante em nossas vidas do que merece. O suficiente nunca é suficiente. Você sempre pode estar mais em forma do que alguém.

Existem alguns paralelos aqui para exercício espiritual. Há a necessidade de disciplina e os benefícios óbvios. Mas só algumas poucas pessoas exageram, tentando o caminho mais rápido para a iluminação. Estes tornam-se extremistas espirituais e quanto mais extremos se tornam, mais longe eles estão de seu objetivo. Há, naturalmente, também extremistas religiosos, mas eles tendem a ser pessoas que estão fugindo de algo desagradável, um problema pessoal ou uma situação política - e eles transformam a religião em uma justificativa para qualquer coisa que eles acham que vai ajudá-los. Extremistas espirituais não são desconhecidos, mas eles são mais raros porque os riscos - de sanidade e saúde - são muito mais elevados.

Por isso, é raro que as pessoas fiquem viciadas em meditação (como sempre dependendo do que você entende por "meditação"). A principal razão, porém, é que a disciplina da meditação inclui um compromisso inerente à moderação e ao caminho do meio em tudo, incluindo a prática espiritual. Meditação é o regulador universal porque nos sintoniza com o espírito que permeia tudo e está disponível para corrigir qualquer desequilíbrio ou erro enquanto estamos abertos a ele. A meditação também é inerentemente um compromisso de estar aberto à realidade como ela é, não como nós a escrevemos.

Moderação e abertura. Os dois lados da escada para a felicidade e paz. E cada passo que damos é um aprofundamento da nossa capacidade de amar. Esperemos que os 40 dias no deserto, que logo irá terminar, já nos tenha ensinado isso. Se não nós podemos, graças ao espírito, comprimir os 40 dias para o momento presente, agora, porque ele sempre nos ajuda a compensar o tempo perdido. Essa é a redenção.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Quinta Semana da Quaresma (28/03/12)

Quando o inverno chega ao Ártico os ursos polares solitários recolher-se em uma cama de gelo e se acomodam para sua longa hibernação. Em seguida, a neve vem e cobre-os mantendo-os vivos no deserto gelado, o isolamento frio preservando-os de uma gripe fatal. Os ursos fêmeas dão à luz durante o seu sono longo e profundo. O chiar do pequeno filhotes ativa seu suprimento de leite, sete vezes mais rico que o leite humano, e seu instinto maternal se mostra mais forte do que a sonolência mais poderosa. Na Primavera ela sai, com os filhotes caindo em seus calcanhares, em busca de alimento sólido, mas mantém um olho aberto para os machos famintos para quem seus bebês poderiam fornecer um lanche irresistível.

Não podemos deixar de nos ver refletidos no mundo animal. Todos os nossos defeitos humanos estão lá, territorialismo, ciúme sexual e possessividade, os instintos de sobrevivência do ego. O que está faltando entre eles é qualquer sentido de pecado. Comer os filhotes jovens, lutar até a morte pela dominação sexual, não mancha a sua inocência. Se eles fazem as coisas que encontramos refletidos em nossas qualidades mais elevadas, a fidelidade ou auto-sacrificio, estes também permanecem na esfera natural e não pode ser contado como virtude. Em Gênesis Deus fez os animais para fazer companhia a humanos, mas descobriu que eles não foram suficientes para aliviar a necessidade humana de união.

Nós muitas vezes condenamos desumanidade humana como animal, o que é, naturalmente, um insulto ao reino animal. Animais caçam e matam, mas o fazem a fim de sobreviver e não como fazemos, por prazer ou para deslocar nossa raiva sobre as criaturas mais fracas.

O que faz então a diferença? Um fator que chamamos de consciência ou uma qualidade particular de consciência que é mais especificamente humana. Não é uma coisa que nos faz naturalmente superior, mas que nos torna infinitamente feliz. Não é (apenas) que somos biologicamente mais inteligentes ou mais gentis. Mas temos sensibilidade em um estado mais desperto pela consciência, pela qual somos conhecidos. Vivemos dentro de um conhecimento benevolente que é mais do que de instinto e auto-preservação. Vamos chamá-lo de graça - um dom que brota de alguma mola impossível de se objetivar, de puro ser em linha reta para o reservatório de nossas almas.

O próximo passo é que se formos conscientes dessa graça somos impelidos a voltar a atenção para a fonte invisível, mesmo que isso signifique, como de fato, tirar a atenção de nós mesmos. E, assim, procurar um professor, tangível visível em quem a grande fonte é totalmente presente e disponível. Através dessa conexão, podemos beber da fonte do ser tão nutritiva como a dos filhotes que bebem seu leite.

Aqui entra Jesus.

"Se vós permanecerdes na minha palavra, sois meus discípulos, e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará"

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Quinta Semana da Quaresma (27/03/12)

O que me enviou está comigo, não me deixou só, porque eu faço sempre aquilo que é do seu agrado.

Ele sempre desejou agradar seu pai e conquistar sua aprovação. Já avançado na maturidade, depois de estar casado e ter seus próprios filhos, seu pai lhe negou o sinal de aprovação e afeição que ele tanto esperou. Quando seu pai estava próximo de completar um aniversário significativo ele comprou uma Harley Davidson que sabia que ele sempre quisera. Um desejo secreto que seu pai havia compartilhado com ele anos antes, num raro momento de intimidade. Quando ele entregou o presente, rapidamente percebeu que não havia acontecido o milagre que ele tanto esperara. Seu pai aceitou polidamente, friamente, mantendo a pose mas, escondendo seus sentimentos do filho como ele sempre havia feito. O coração do seu filho adulto ficou despedaçado, subitamente ele se tornou aquele menino pequeno devastado novamente, chorando pela ratificação masculina que nunca havia recebido.

Isto, no entanto, nada tem a ver com o tema da reflexão de hoje. Jesus está se referindo, como ele costuma fazer no Evangelho de João, à sua relação com seu Pai (nosso pai). Todavia não tem uma conexão psicológica como no relacionamento descrito na história acima. A imagem do pai ou da mãe é tão poderosa para a maioria das pessoas que se poderia questionar a razão de se referir a Deus por qualquer dos termos, tão carregados de uma bagagem psicológica, como são, na história de todo indivíduo.

Uma coisa é certa, Jesus e sua cultura foram pré Freudiana. Como assumimos que o paradigma Freudiano está sob a superfície de toda interação humana, a pré Freudiana é comumente percebida como naïve ou primitiva. Mais do que isso, no entanto, é o nível no qual Jesus está usando este símbolo de sua relação com "meu Pai"- que é seu ponto de referência universal e fonte de autoridade. É humano, mas não psicológico. É ontológico: a natureza do ser como tal, não deste jeito ou de outro, individual ou interpessoal, mas o jeito que cada coisa é em sí. Sendo.

Colocando desta forma poderíamos dizer: 'afinal,o que na terra quer isto dizer?' Talvez por isto, afinal de contas, Jesus tenha usado o símbolo do pai como algo com que podemos nos envolver, ainda que ilustrando algo impossível de se colocar em palavras e, no entanto, mais real que qualquer pensamento. Por esta razão, sentimento confirmado pela realidade neste mais profundo e simples de todos os níveis, pode ser a aposta ou único caminho para o filho mal amado poder cuidar da sua necessidade não atendida na psique.

No deserto, na meditação, caímos direto do domínio psicológico ( com alguns solavancos no caminho) para o plano do ser.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Quinta Semana da Quaresma (26/03/12)

A festa da Anunciação, momento em que a jovem Maria, futura mãe, apreende o seu próprio destino. O imperceptível momento da concepção, recordado quando o horizonte da vida se torna assustadoramente visível. Não é de admirar que os idosos percam a memória de curto prazo, e recordem nitidamente a época da infância e juventude. Os jovens olham para adiante, pensando nas decisões que têm de tomar e no potencial que estão ansiosos para não desperdiçar. Os velhos aprendem a sincronizar a forma como as coisas realmente aconteceram, talvez nunca realizando completamente o potencial, enquanto sua experiência preenche cada vez mais a tela de suas vidas.

Ela ficou "profundamente perturbada" pela mensagem angélica e não entendia o significado do que lhe estava acontecendo. Ansiamos para que algo aconteça, para que Deus nos apareça, para que a realidade floresça em nossas vidas de expectativa e frustração. E quando isso ocorre, dificilmente reconhecemos, ou nos perguntamos o que isso realmente significa. Não há respostas definitivas, porém, e o desejo de Deus, do tudo que precisamos, nunca pode ser satisfeito. Não podemos retribuir o dom. E é por isso que humildade é sabedoria.

Tudo o que podemos fazer é renunciar ao nosso próprio ponto de vista, e aprender a ver tudo a partir da perspectiva do doador. Mas isso nos faz sentir como aniquilados. O ego começa a fazer campanha pelos próprios direitos. Assim, tentamos deixar que Deus seja o verdadeiro centro, ao mesmo tempo em que mantemos uma saída para o nosso próprio egocentrismo. O absurdo disto e a frustração que isso implica pode demorar muito para se tornar evidente.

Maria lutou e cedeu em seu ponto de vista, assim como os pais amorosos e toda pessoa que ama sabem que têm de fazer. Seu fiat, "faça-se em mim segundo a tua palavra", foi simultaneamente uma derrota e uma vitória, um colapso e um avanço, uma morte e o início de um novo nascimento, para além do ciclo de morte e renascimento.

Nosso mantra é o nosso fiat. Que assim seja.

Laurence Freeman OSB

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Quinto Domingo da Quaresma (25/03/12)

Em um belo dia da região montanhosa da Escócia, com céu tão claro como os olhos de uma criança, depusemos Rosie no solo, ao lado de seu marido e de seus filhos que a precederam. Um tocador de gaita de fole indicou o caminho da porta da igreja ao túmulo. Os rituais eram familiares, parte da experiência de fé da família, além da crença, e não precisavam ser constrangidamente explicados. As palavras e gestos significavam mais do que diziam ao pé da letra. Por alguns instantes, abriu-se um espaço, permitindo que a morte e a vida se entrelaçassem e, se você olhasse com cuidado na luz clara, era possível ver o que jazia do outro lado.

Pensamos que a realidade tem de ser articulada e registrada na memória, para ser mais tarde verificada. Entretanto, quando deslizamos através das ligações entre os pensamentos, a realidade torna-se uma presença, ou apenas presença. Assim que pensamos sobre isso ou persistimos nisso, ela se dissolve. "Ele desapareceu de nossa vista". Mas, de novo, logo que voltamos a um modo simples de estar presente aqui e agora, ela volta de maneira gentil e pronta.

Falar do 'outro lado' de modo algum é distorcê-lo com nossos próprios preconceitos. O que vemos à frente deve ainda estar aqui. Em mente desanuviada por completo, tudo está presente.

Os túmulos são muito naturais. Eles nos lembram de nossa humildade, que somos vasos de barro. Por mais que possamos decorá-los, qualquer que seja a graça natural ou o aspecto infeliz que tenham, esta verdade continua a ser a grande igualdade universal. Pode parecer que é muito cedo, nesta quinta semana da Quaresma, pensar sobre a Ressurreição; mas isso é o que, de fato, significa a Quaresma – aprender, preparar-se para ver e experimentar a presença daquele que, de uma vez, elevou-se acima e além dos confins da morte e do renascimento.

Nossa prática, nossa meditação, nossas vidas do dia a dia vividas em oração constituem todas as maneiras de purificar as portas da percepção para permitir que a visão da fé nos mostre o que está sempre presente. Não podemos encarar com fé nenhuma morte, incluindo a morte de nosso resiliente ego, sem aprender algo sobre a Ressurreição de Jesus, que é um de nós.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da Quarta Semana da Quaresma (24/03/12)

Então, houve uma divisão entre as pessoas a seu respeito... Foram cada um para sua casa.

Quando as pessoas recebem a comunhão na missa a sua maneira de fazê-lo, muitas vezes, ilustra a natureza da igreja a qual pertencem, bem como expressa os seus caráteres individuais em alguns momentos reveladores.

As pessoas mais jovens tendem a fazer contato visual e, muitas vezes, sorriem, procurando uma ligação pessoal. Há outros comungantes, geralmente mais velhos, que vêm como se tivessem uma arma em suas costas ou que Deus fosse matá-los com um golpe por receberem a comunhão quando não estão em um estado tão puro de graça, tal qual Madre Teresa de Calcutá e São Francisco combinados. Existem aqueles que são muito arrojados ou másculos para demonstrarem reverência e que pegam a hóstia e correm. Ou aqueles que são mais piedosos, se colocam de joelhos e insistem para que se coloque a hóstia em suas línguas.

A diversidade de pessoas e suas aparentes razões para participar da comunhão podem fazer você se perguntar onde está a unidade. Mas toda a verdadeira relação faz isso - polariza as semelhanças e diferenças, mas nunca desiste do potencial para a união. Essa diversidade é um sinal de quão amplamente o convite de Jesus para "vir a mim" foi distribuído. Ninguém é recusado mesmo se no princípio eles não entendem o que estão aceitando.

Toda vez que meditamos é porque basicamente acreditamos e reconhecemos que - no núcleo profundo do meu ser – existe a exata coisa na qual acredito e espero, mesmo que eu não possa ver, tocar ou imaginar. Eu sei e eu não sei. Isso significa que às vezes me sinto ridículo. Eu posso não conseguir ver a razão por trás das coisas ou que elas existem somente para me ajudar a chegar mais perto aquele centro elusivo.

Da mesma forma, eu posso vir à meditação em qualquer lugar ao longo do espectro em qualquer dia. O que importa não é a aparência superficial ou até mesmo o nível de sentimento, mas a profunda unidade de nível que já existe e é a grande força atrativa.

Dizemos o mantra simplesmente para que possamos deixar toda a análise da autoconsciência para trás. Só quando tivermos respirado uma vez o ar puro do espírito durante esta missão é que poderemos ver a nós mesmos pelo que somos.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da Quarta Semana da Quaresma (23/03/12)

O corpo não mente e nunca se esquece. Já a mente... é difícil dizer o que pensa realmente, pois trabalha em muitos níveis que mal se comunicam um com o outro. E a mente, como vemos naqueles que vão fugindo para longe de nós por motivo de demência, pode se tornar insensata, fácil e rapidamente.

Sendo assim, o que nos faz supor que a mente pode nos guiar mais longe em direção ao encontro da verdade do que o corpo? Somente a ilusão de que a verdade é abstrata, desencarnada. Belém e o deserto da tentação de Jesus, a cruz e a ressurreição nos corrigem dessa ideia. Neste momento ainda estamos no deserto, resistindo às tentações da mente que nos leva à abstração e à ilusão (o poder, a fama, o controle, as posses pelo qual o ego se apaixona). Estamos aprendendo a praticar a disciplina física de modo que possamos nos libertar do apego dos desejos secundários que substituem nosso desejo mais profundo.

Desta maneira aprendemos a encontrar e abraçar o verdadeiro desejo, que é saciado quando simplesmente o abraçamos, nunca quando nos agarramos à imagem de sua realização. Somente enfrentando-o no vazio de nossa incompletude e de nosso anseio é que encontramos essa pobreza de espírito que traz o enriquecimento supremo. Apenas abrindo mão do desejo é que podemos saciá-lo.

Contudo, os velhos hábitos são duros de matar, como a Quaresma, a esta altura, já nos ensinou seguidas vezes. Como os israelitas desanimados em sua jornada pelo deserto, lembrando seus dias de escravidão segura: "Recordamos o peixe que comíamos no Egito e não custava nada, o pepino, o melão, o alho-poró, a cebola e o alho." O problema é que é nas lembranças, não no presente, que eles – e nós – estamos vivendo, como sempre acontece quando nos tornamos desencarnados e pensamos apenas no mundo material.

Quanto mais inteiramente estivermos no presente, menos imaginarmos, mais conseguimos enxergar. Isso porque na meditação, assim como na Eucaristia, comemos e bebemos a realidade. E é por isso que tanto a postura do corpo quanto a atenção da mente são importantes quando aprendemos a meditar.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma (22/03/12)

Se eu der testemunho de mim mesmo, meu testemunho não é verdadeiro; mas há um outro que dá testemunho de mim, e eu sei que o testemunho que ele dá de mim é verdadeiro.

A humildade é uma virtude curiosa, porque na real nunca parece humilde. Colocar-se para baixo, auto-conscientemente deixando os outros dominarem, procurando humilhação, pode ocorrer apenas para ganhar a aprovação dos outros - geralmente ocorre com os tipos religiosos hipocritamente. Aqueles que estão sempre jogando um jogo e não sabem o que a vida real é.

A verdadeira humildade é extraordinariamente auto-confiante. Pode ser assertiva quando necessário, e arrisca-se, quase convida a má interpretação.

Os humildes, como Jesus, são aqueles que sabem quem eles são, de onde eles vieram e para onde estão indo. O auto-conhecimento deste tipo torna mais fácil aceitar a rejeição, porque você não tem nada a perder. Você não está se escondendo atrás da máscara do seu personagem. Se você não estiver controlado pelo modo como os outros te vêem, você tem a liberdade da real solitude.

No entanto, nesta solitude do auto-conhecimento e humildade você não está sozinho. "Há um outro", como disse Jesus. A partir desta alteridade, que é a nossa mais profunda intimidade, surge a afirmação de que precisamos - o testemunho de que é verdade.

Para ser humilde nós precisamos primeiro transcender o ego. Afirmar a si mesmo sem o outro (dando testemunho de você mesmo) é inerentemente falso, inautêntico. Você sempre estará olhando para o reconhecimento do seu martírio. Você vai exigir um dia de festa para isto. Mas nós só podemos conhecer a nós mesmos porque sabemos que somos conhecidos. O conhecimento deste tipo também significa a experiência de aceitação. Alguém tem que conhecer os jogos que o nosso ego joga e não ser dissuadido por eles. Amor é isso.

Você pode estar preparado para dirigir por uma rua de sentido único na direção oposta se for realmente necessário. Você pode até ser meio que forçado a isso. Você contra o mundo. Mas sempre vai sentir o caminho errado, bem como potencialmente perigoso. Se você encontrar um carro vindo do outro lado você vai estar em conflito imediato. O auto-conhecimento (o termo psicológico para a humildade) requer um tráfego de mão dupla.

O "Si mesmo" (self) é um canal de comunhão realizado em comunicação verdadeira. Não é o suficiente dar as coisas, mesmo tempo, até mesmo a sua vida. Amar, ser amigo, estar totalmente vivo significa dar-se a si mesmo. Somente aqueles que conhecem a si mesmos, e sabem que eles são conhecidos, podem fazer isso.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Quarta Semana da Quaresma (21/03/12)

Percebi recentemente que as pessoas que vivem em pequenas ilhas têm um baixo índice de pontualidade. Acho que isso é devido ao fato de que, dadas as curtas distâncias envolvidas, elas acham que não vão se atrasar, desde saim de casa pouco antes da hora do compromisso. Esta filosofia de tempo não funciona tão bem no mundo "grande".

Além disso, há personalidades que nunca conseguem cumprir um prazo e vivem em uma dimensão de tempo de eterna fusão de horizontes.

Se a dimensão espiritual da vida foi despertada e se estamos a explorar a intensificação do aprofundamento da vida, o equilíbrio entre esperar e agir passa a ser regulado. Isso se mostra, sem dúvida, no fato de que a meditação reduz o estresse e promove a criatividade.

Aprender a dizer o mantra e, como disse John Main "se contentar em dizer isso", é ver que todo o tempo existe no momento presente. O dom de ver que esse momento é o momento de Cristo acrescenta a cereja no bolo.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Quarta Semana da Quaresma (20/03/12)

Há dias em preto e branco e há dias plenos de cores gloriosas. Tempo. A única coisa certa que podemos falar do tempo é que ele está sempre lá. Fundamentalmente não há o que possamos fazer sobre isto; tem que ser aceito. Oscar Wilde disse que todo mundo na Inglaterra reclama do tempo mas que ninguém faz qualquer coisa sobre isto. Dias chuvosos, dias tranquilos... também tsunamis e tufões.

O tempo meteorológico afeta nossos humores. Mas nossos humores, ou estados mentais, eles próprios são uma forma de tempo. Por nenhuma razão obvia, algumas vezes mudamos nosso humor de solar para chuvoso, de tranquilo poente para tempestades devastadoras
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Algumas pessoas preferem os nublados, tipo de tempo até mal avaliado, e consideram o ensolarado constante da California entendiante após certo tempo. Eles gostam da mudança de estações. Outros movem famílias e lares para ter tantas horas de sol quanto possível. Algumas pessoas preferem filmes épicos coloridos e com ação, outros, um filme "noir".

Há, no entanto, uma inegável verdade, a despeito de nosso temperamento pessoal, a luz solar ressalta as cores no mundo como um dia em preto e branco, sombrio, não faz. A mais pura luz branca é em si uma concentração do espectro de cores, algumas faixas dele estão além da capacidade da nossa visão física de ver qual faz o que chamamos de luz. Nós nem poderíamos ver ou apreciar o dia chuvoso aconchegantemente na frente da lareira de casa se não fosse pela luz.

Eu sou a Luz do Mundo.

Nós meditamos porque já vimos o suficiente, independente de nosso temperamento ou estágio da jornada a que tenhamos chegado, para saber que esta, essencial e incondicional, pura luz da consciência está dentro de nós. Está também além e anteriormente a todas as formas de tempo. É a purificação e a expressão do único "Eu" que pode ser, autenticamente, nomeado.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Quarta Semana da Quaresma (19/03/12)

Hoje é a festa de S. José, santo padroeiro dos trabalhadores, porque ele era (aparentemente) um carpinteiro e teve um dos grandes papéis de ator coadjuvante na história. No mundo brilhante em que o ego gosta de habitar ou (se não for forte o suficiente para habitar) de fantasiar sobre habitar, o que importa é o Oscar para o papel principal.

Egos menos confiantes também podem ser tomados por delírios de controle e superioridade, mesmo sem ter os meios para tanto ou sem atrever-se a demonstrá-lo. O que importa não é tanto o grau de fama ou de aprovação de que cada ego, fraco ou forte, se alimenta, mas o trabalho que está realmente sendo feito. Alguma coisa está sendo feita que irá nos sobreviver, porque transcende o nosso ego? O que quer que seja habitado pelo ego cairá quando o ego cair.

No fim, o prêmio vai para aqueles que fizeram algo com suas oportunidades, e não investiram em derivativos irreais, ou em ataques de curto prazo para apossar-se dos recursos de outras pessoas. Palavras e idéias podem ser forças muito poderosas mas, no final, o que importa é a ação e não as palavras.

Se entendermos que os períodos de meditação são momentos de pura ação, isso ajuda a calibrar todos os aspectos de nossas vidas e a manter estável a pulsação da realidade. O ponto na vida em que vemos a natureza do trabalho interior é o verdadeiro centro da narrativa de vida, o ponto de virada, de conversão. Pode vir como uma chamada para despertar na meia-idade, ou podemos ser agraciados com ele no início da vida. É o momento em que percebemos que há outro andar, totalmente diferente, na casa da nossa essência (self), onde habitamos. Aos poucos, percebemos que é ainda maior do que o resto da casa – o que, à primeira vista, achamos estranho e depois excitante.

A estrutura da vida continua a mesma, mas seu significado é realçado. O que importa, quando o espírito foi despertado, não é quem fica com o Oscar, mas se estamos fazendo o que estamos destinados a fazer.

Entender porque a meditação diária é o principal trabalho da vida é uma grande graça.

Laurence Freeman OSB

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Quarto Domingo da Quaresma (18/03/12)

Pois Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. (Jo, 3, 17)

É mesmo triste (para muitos de nós) que essas palavras amargurem tantas pessoas, pois ouvem justamente aquilo que elas não estão dizendo. Para aqueles que estão no discipulado Cristão (um dia é possível que sintamos que podemos ser chamados Cristãos, outros Cristos, mas provavelmente não hoje) essas palavras têm impacto diferente. Elas chamam a atenção para uma experiência cada vez mais profunda do amor que faz e, de maneira contínua, refaz o mundo, servindo-o, renovando-o e guiando-o para um desempenho cada vez mais perfeito, apesar de seus defeitos inerentes. Eu conferi este texto quanto a erros de impressão, mas talvez ainda haja alguns aqui. Uns poucos erros de impressão não invalidam o sentido.

A bagagem cultural da Igreja, em especial no Ocidente, torna difícil para muitos perceber que essa imperturbável bondade e misericórdia de Deus se reflete e se mostra ativa em nosso mundo psicológico e material - se nós a ativarmos, reconhecendo-a e recebendo-a como dom gratuito que ela é. Não estamos destinados a ser condenados, mas a nos tornarmos íntegros.

Não conheço nada melhor ou mais de imediato efetiva do que a meditação para nos ajudar a compreender isso.

A leitura diária de John Main, de ontem, exprimiu com clareza a melhor maneira de abordarmos a meditação como uma peregrinação interior que influencia nossa vida inteira e todo nosso ser. Ele disse: não fique desapontado devido a seu fracasso em ser perfeito na meditação, ou em dizer o mantra de modo contínuo ou na disciplina diária. Mas ele também disse que, com toda a certeza, é importante meditar todo dia. Observar essas duas explicações do ensinamento nos ajuda a dirigir nossos passos através de qualquer deserto ou sobre qualquer montanha.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da Terceira Semana da Quaresma (17/03/12)

Energia. Ela existe em uma variedade infinita. A maioria de suas formas, como a matéria escura do universo, não podemos sequer imaginar. Nós recarregamos baterias, nós dormimos à noite, nós temos bons dias e maus dias. Organizações caem no marasmo ou fervilham com vida. Pode ser a tranquila, como a ruminação das vacas em um tempo só delas, ou a eletrizante e impaciente tensão de um atleta no último minuto de treino. Há energia física e a energia de uma palavra recordada, cruel ou amorosa, que permanece na mente e modela a eletroquímica de todo o nosso ser por dias.

Às vezes podemos vislumbrar a verdade, de que não somos apenas recipientes ou canais de energia, mas mais do que apenas receptores e transmissores. Mas nós somos também nem mais nem menos que uma forma de energia que em si é em permuta constante. Nesses momentos de introspecção sentimos, como o salmista cantou, a "maravilha do nosso próprio ser". Vemos que a nossa própria energia está fluindo com todas as formas de energia. Nós pertencemos ao mundo que se dissipa e flui em relação a uma fonte que não podemos ver ou imaginar e, no entanto, é sempre presente.

É na quietude que experimentamos a energia na sua forma mais simples e mais pura. Chegamos mais perto de sua fonte e percebemos que essa fonte é a nossa fonte, nós mesmos e ainda assim infinitamente diferente de nós mesmos. Viver essa experiência de identidade-sem-identidade é amar e então percebemos que a essência de toda essa miríade de formas de energia é o amor.

Por incrível que pareça, nós podemos esquecê-la tão rapidamente como nós a compreendemos. É por isso que precisamos meditar todos os dias de nossas vidas para não nos esqueçamos de estarmos plenamente vivos.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-Feira da Terceira Semana da Quaresma (16/03/12)

Eu me lembro, quando noviço, quando cantava as palavras do hino da manhã todos os dias: "o dia está cheio de esplendor…" Elas se repetiam em minha mente como um jingle. Um dia me dei conta de que talvez elas significassem alguma coisa de fato. Não eram somente uma frase piedosa, repetida por séculos para manter a mente em semicoma, como se o espírito fosse um coala indolente mascando folhas de eucalipto.

Talvez aquele que escreveu essas palavras realmente sentisse que o esplendor preenchia cada dia, qualquer que fosse o clima emocional ou geográfico. Etty Hillesum viu isso claramente em meio às condições sombrias e degradantes da vida em um campo de concentração. E se não passarmos a compreendê-lo um pouco melhor, nem formos capazes de enxergá-lo por nós mesmos como resultado de nossas disciplinas quaresmais, devemos estender nossa Quaresma até conseguirmos fazê-lo.

Cada dia, por mais estressante que seja, carregado de boas novas ou de repetidas decepções, está carregado de momentos de silenciosa eloquência, de glória natural. Pode ser o digno pôr do sol de um dia glacial, a brilhante efusão de cores em um hibisco vermelho, o tímido brotar de magnólias brancas ou cor-de-rosa perfumando seu mundo, tal qual alguém encantador inocentemente tomando consciência de sua própria beleza pela primeira vez. Pode ser o sorriso gentil e a graça de alguém prestando um pequeno serviço remunerado, uma comissária de voo presente para si mesma e para seus passageiros, um policial que caminha alguns passos com você para lhe dar informações melhores, enquanto seus colegas fazem seu trabalho com relutância ou de mau grado.

Quanto mais destes esplêndidos momentos particulares você vê, mais eles se ligam entre si. Você se dá conta de que não são fenômenos isolados, momentos da supernova de estrelas que morrem, mas aspectos da ordem natural e universal das coisas. Este esplendor é na verdade a natureza subjacente da realidade.

As disciplinas da Quaresma ou a disciplina diária do mantra são um preço pequeno a pagar para entrar neste mundo, o mundo real.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-Feira da Terceira Semana da Quaresma (15/03/12)

Jesus estava expulsando um demônio de um mudo. Quando o demônio saiu, o mudo começou a falar, e as pessoas ficaram maravilhadas. Mas alguns disseram: "É por Belzebu, o príncipe dos demônios, que ele expulsa os demônios."

Há sempre alguém para estragar a diversão ou a pensar, como tantos em nossa mídia, que o cinismo é a resposta certa para o entusiasmo. Em algum lugar escondido no ego existe um pequeno mecanismo que é disparado sempre que ele sente a expansão do espírito. Ele tenta puxar para baixo, acuar e controlar.

É preciso estar vigilante para isso, seja para uma pessoa ou para o grupo, porque não é o verdadeiro crítico que fala a verdade por amor e que nunca deixa de apontar o lado positivo. É uma falsa crítica com intenção apenas de limitação e negação. Depois que ela começa, torna-se contagiante. De repente, todo mundo está focado apenas no negativo e desconfia ou rejeita o criativo.

No Evangelho de hoje Jesus expulsa o demônio de mudez e restaura o poder da fala. No deserto, na meditação, estamos expostos ao poder do silêncio verdadeiro. Quando o silêncio se encontra com o demônio mudo do medo e orgulho que nos impede de dizer a verdade e explode apenas na negatividade, então o demônio é demolido. O medo é dissolvido e o orgulho é humilhado. Então, quando nós falamos, se falamos, será em palavras que constroem e restauram os coração quebrantados ou os desanimados. Tal discurso não deixa de ser imerso no silêncio do qual ele flui. 

Laurence Freeman OSB

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Quarta-Feira da Terceira Semana da Quaresma (14/03/12)

O reino dos céus está próximo. Este é o subtexto de todas as práticas da Quaresma, que são projetadas para nos lembrar quão facilmente nos esquecemos disso e como é possível simplesmente recordar.

Etty Hillesum era uma mulher vivaz, jovem judia que morreu em Auschwitz em 1943. No meio do horror da deportação dos judeus de sua Holanda natal, ela passou por um despertar espiritual pessoal que ressoou nas últimas décadas. Sustentada por seu profundo mundo interior e por uma nova visão da vida humana, ela se dedicou a aliviar a miséria de seus companheiros de sofrimento. Ela se recusou a odiar os seus perseguidores e nas flores e céu ao seu redor ela encontrou tesouros inesgotáveis de beleza e revelação.

Uma das pessoas a quem ela estava ajudando uma vez perguntou-lhe como ela podia perder tempo pensando em flores no meio de sua provação.

Ela descobriu Deus ao se abrir ao mundo interior. Mas ela não parecia se preocupar sobre como as religiões competem entre si. Uma vez ela estava expressando algumas ideias sobre o perdão e alguém respondeu: "Mas isso soa como o Cristianismo". "Sim", respondeu ela, "Cristianismo, e por que não?".

Seja qual forem as ansiedades e medos que carregamos conosco hoje - e eles certamente devem ser menores do que aqueles que ela e seus companheiros judeus sofreram na época da loucura - a flor e a fé capazes de mergulhar-nos nas profundezas de Deus estão ao alcance da mão.

Laurence Freeman OSB

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Terça-Feira da Terceira Semana da Quaresma (13/03/12)

Quantas vezes devo perdoar, se meu irmão pecar contra mim? Até sete vezes? Jesus respondeu: Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete.


A: Você sempre ganha. Você sempre consegue dar o seu jeito.

B: Não é assim que eu vejo. Esta hostilidade também torna minha vida miserável.

A: Bem que você merece. Estou contente.

B: Obrigado. Quem está impondo seu jeito agora?

A: Veja, é o que digo. Você sempre torce as coisas de forma a que as pessoas vejam sob o seu ponto de vista.

B: Bem, se eu faço isto eu não me sinto como vencedor. De qualquer forma ser um vencedor também é solitário. Você provoca ciúmes ou zangas nas pessoas se você pensa que venceu e elas perderam.

A: Pobre de você...

E segue sem parar. O ciclo do ressentimento traz consigo um forte componente de más energias que perpetua o sentimento de ser uma vítima ou um perdedor nato. Perdoar aqueles que nos causam mal é escapar deste estado auto destrutivo que paralisa as emoções e congela o pensamento racional. Ele reproduz ilusão e a única cura para ilusão é aumentar as doses diárias de realidade.

Quase todas as pessoas que são cronicamente infelizes sentem que alguma pessoa, em algum lugar é ou foi seu inimigo. O caminho para sair deste pântano é identificar o inimigo, olhá-lo no olho, aonde quer que esteja, pisque e deixe-o ir.

A visão spiritual da vida cuida tanto do pecado, o estado de ilusão e todas suas consequências, como da graça, a perpétua segunda chance. Foca na redenção, na liberação e na cura como processos de revigoramento e rejuvenecimento aos quais deveríamos estar comprometidos.

O deserto é o grande lugar para se diagnosticar esses estados negativos da mente. Eles aparecem naturalmente nos estágios iniciais da meditação. Temos, apenas que, consistentemente, preferir a realidade à ilusão, retornar ao mantra, de forma a ficar livre dos malefícios que sentimos como tendo sido feitos a nós e começar de novo, desta vez mais adiante no caminho, que a despeito das aparências, de fato, nunca abandonamos.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-Feira da Terceira Semana da Quaresma (12/03/12)

Nascida de uma visão mais profunda do que palavras, e transmitida através do silêncio cheio do Espírito, a mensagem cristã é constrangedora. "Deus fez-se humano para que os seres humanos possam ser Deus."

Esta recorrente afirmação dos primeiros teólogos soa mais ousada do que muitos teólogos arriscariam dizer hoje, e resistiu com muita força às tentativas do dualismo gnóstico de diluí-la. É claro que só podemos compreender o que isso significa pela experiência de nossas vidas, quando tentamos viver – e fracamente, na maior parte do tempo – como se fosse a verdade central, a coisa real em todas as circunstâncias.

Ela sugere que a Encarnação é Deus concentrado em um ser humano singular, para que Deus possa de fato "tornar-se plenamente humano". De que outra forma pode-se ser humano sem ser um ser humano em um tempo e lugar determinados? Os teólogos clássicos achavam que isso era necessário, mas que o sofrimento experimentado por este indivíduo era inevitável. Deus precisava ser humano. Jesus, o cumprimento dessa necessidade divina, assim como qualquer outro humano, não queria sofrer. (Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice!).

Para muitos, hoje em dia, essa doutrina pode parecer abstrata e paroquial. Na verdade, ela muda a forma como nós mesmos nos encarnamos em nossas próprias e únicas histórias de vida, através de todas as fases de nosso desenvolvimento. Ela nos ajuda a não ficar presos na mentalidade infantil ou no comportamento adolescente, como vemos acontecer na maioria dos conflitos violentos e, de fato, em muitos dos nossos próprios problemas pessoais.

Ele também nos ensina o modo autêntico de lidar com o sofrimento. Como diz Leonard Cohen, devemos aprender a lamentar nos estritos limites da dignidade e beleza. A tendência do ego à auto-piedade arrisca tornar-nos isolados e amargos. Mas saber qual é nosso destino, para onde o sofrimento nos leva, dá tanto compaixão quanto dignidade para a nossa abordagem da decepção, do sofrimento e da perda.

É por isso que a Quaresma é um tempo cristão. E que a meditação é uma oração cristã. Não devemos nos castigar por causa de nossas falhas, ou buscar a iluminação apenas como uma fuga do sofrimento. Mas para ser plenamente humanos, completamente acordados, a fim de que possamos realmente "tornar-nos Deus", como estamos programados a ser.

Laurence Freeman OSB

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Terceiro Domingo da Quaresma (11/03/12)

No templo, encontrou os vendedores de bois, de ovelhas e de pombas e os cambistas sentados. Tendo feito um chicote de cordas, expulsou todos do Templo, com as ovelhas e com os bois; lançou ao chão o dinheiro dos cambistas e derrrubou as mesas e disse aos que vendiam pombas:"Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio". Jo, 2,14-16

Sem dúvida, Ele não era um político e não falou com rodeios. Agiu de acordo com seus mais elevados sentimentos e pagou o preço de se indispor com aqueles que detinham o poder. Admiramos esta característica em pessoas íntegras, que nos tornam conscientes de quantas concessões fazemos em nossos gestos. Podemos, de modo racional, justificar qualquer procedimento em alguma posição. O bom senso já justificou muitos erros. Entretanto, a dúvida que não vai desaparecer é em que nível de realidade e integridade escolhemos viver.

Ser impopular não constitui um sinal de que você esteja agindo de modo justo. Contudo, fazer o que é certo de modo consistente vai inevitavelmente levá-lo a uma solidão mais profunda, em que você fica exposto à crítica, vulnerável a seus inimigos e revelado a seus demônios interiores. É mais fácil acompanhar a multidão e evitar a sua própria interioridade. Na solidão, você vai ter menos companheiros de viagem, mas aqueles com os quais você faz a peregrinação vão estar com você de boa fé.

Na metade da Quaresma, agora é um bom momento para avaliar como estamos usando este tempo para nos tornarmos mais simples e convertidos. Já perdeu a sua aspereza? Esquecemos o motivo pelo qual empreendemos as práticas que escolhemos para fazer?

A medida do tempo tem a vantagem de nos tornar cientes de como ele pode escapar de nosso controle, de maneira imperceptível e inconsciente. É difícil viver e manter-se na plena apreciação do momento presente, mas nos ajuda a fazer a coisa certa, da maneira certa e na hora certa. Certo significa aquilo que serve para fazer com que nós e as pessoas com quem andamos se tornem mais verdadeiras, mais livres e mais amáveis.

Até mesmo dar espaço para uma meditação extra hoje ajudaria a recompor o programa. (De onde vem a nossa resistência imediata a essa idéia?)

Laurence Freeman OSB

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Sábado da Segunda Semana da Quaresma (10/03/12)

O que uma ovelha perdida, uma moeda de prata perdida e um filho perdido têm em comum? Estão todos perdidos, é claro; mas também, nas parábolas de Jesus, eles são todos encontrados. Sua redescoberta desencadeia celebrações de júbilo. A pessoa que perdeu e encontrou, quer e precisa partilhar seu alívio e felicidade e chama os amigos e vizinhos para se reunirem.

A felicidade, como o medo, a raiva e a tristeza, são contagiosas e, por razões diferentes, pedem para serem partilhadas.

Partilhamos os sentimentos negativos porque eles são destrutivos; talvez sentimos, instintivamente, que se os guardarmos apenas para nós eles nos destruirão mais rapidamente, mas se pudermos infectar outras pessoas, isso os diluirá.

Mas a felicidade, quando guardada para nós mesmos, se diminui e nos diminui. Festas e celebrações são essenciais para a felicidade humana porque elas nos permitem dividir o que é, em si mesmo, um fruto da participação da nossa existência. Pessoas que se recusam a ir a uma festa, como o irmão mais velho ciumento, são vistas como negadoras da vida. Festeiros às vezes agem como se estas pessoas devessem ser postas em um grupo isolado de infelizes por estragarem a diversão dos outros.

Entretanto, no espírito do Evangelho, não devemos excluir aqueles que parecem condenados a esse fim ou que excluem a si mesmos. Celebrar a vida inclui a compaixão que sentimos – e demonstramos – para com aqueles que não podem celebrar. Não podemos ser felizes excluindo os infelizes.

Excluindo, nós perdemos. Incluindo, encontramos. Acolhendo os que não são amados, nós ganhamos uma percepção mais profunda (experiência) da natureza da felicidade. Nós percebemos que não se trata apenas de recuperar o que perdemos ou de ter um bom dia. Algumas coisas nós perdemos para sempre. Existem bons dias e maus dias.

A felicidade – o tipo que não é perdido mesmo quando perdemos algo precioso – não depende de ter, mas de ser. Não depende de estarmos contentes ou descontentes. Mas de sermos quem nós somos.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da Segunda Semana da Quaresma (09/03/12)

O mar oferece ao marinheiro dois prazeres: o de sair da terra, lançando-se rumo a um horizonte sempre mais à frente, navegando por ondas sobre as profundezas misteriosas e perigosas; e o prazer de voltar para casa, de chegar ao porto seguro, de pisar em solo familiar e retornar à segurança da comunidade após a solidão do mar.

Cada um desses prazeres está repleto de verdade sobre nós e sobre a jornada humana. Aprendemos com o prazer. A alegria é a grande mestra para a qual o sofrimento é uma preparação, uma escavação de nossa capacidade de ser. Mas esses dois aspectos da aventura da jornada humana dependem um do outro para nos ensinar eficientemente para que serve a nossa vida e para realmente nos dirigimos. Se não respeitarmos os dois lados desta moeda perdemos o ritmo da vida. Rejeitar o seguro e o familiar pode nos levar a nos viciarmos em perigo e agitação. Corremos apenas por correr. Mas se tememos demais, agarrando-nos às fronteiras da nossa casa, não viajamos para suficientemente longe do porto e o lar se transforma numa prisão.

Encontrar o equilíbrio, flutuar em qualquer tipo de clima, exige profundo amor e devoção. Somente assim podemos chegar à profundidade da compreensão que nos permite conviver bem com os problemas superficiais do dia a dia da vida.

A ansiedade e a confusão surgem porque em grande parte de nossa vida temos apenas um contato secundário com a realidade. Viver espiritualmente significa justamente ter um contato direto com ela, e este nasce somente quando gerado no ventre de um paradoxo: nossa partida é a nossa chegada. Apenas se nos perdermos é que encontraremos quem verdadeiramente somos.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da Segunda Semana da Quaresma (08/03/12)

Boa parte da vida, desde os batimentos cardíacos até o nosso ciclo de dormir e acordar, é repetitiva. Talvez por isso os seres humanos se tornem criativos e irrequietos: para escapar aos ritmos naturais que nos parecem armadilhas. No entanto, ao contrário das rãs ou de cogumelos, estamos cientes da natureza repetitiva da vida, e podemos lhe dar nomes. Essa própria conscientização é a nossa fuga para além do ciclo cármico, em um tipo diferente de existência caracterizada por uma liberdade sem limites.

Há, porém, o xis da questão. Queremos fugir, mas por outro lado não queremos liberdade demais. Nós preferimos laços de seda que nos amarrem ao que é familiar e previsível, uma coleira longa, mas não a gloriosa liberdade.

No entanto, ao analisarmos mais de perto, é realmente impossível repetir exatamente qualquer coisa que seja, porque todas as articulações e cartilagens, cada parafuso e peça de motor, está se desgastando, e caminhando para a obsolescência. O boato da mortalidade, e da impermanência, dá início ao grande despertar.

Em minha experiência, nada traz essa verdade para mais perto, do que a meditação, e a fiel repetição do mantra. Ela corta os laços de seda, e nos eleva acima do ciclo de deterioração natural, levando-nos para o momento presente, onde descobrimos que temos o poder de voar no reino espiritual, até mesmo a um certo grau, nesta terra.

Recentemente, o centro de pesquisas Cern decepcionou a muitos que esperavam que a premissa da experiência, que sugeria que a velocidade da luz não é a velocidade mais rápida do universo, fosse confirmada. Até o momento ela ainda é. Exceçao feita ao amor, que impulsiona toda a repetição fiel.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Segunda Semana da Quaresma (07/03/12)

"Havia um homem rico, que costumava se vestir de púrpura e linho fino e celebrava magnificamente todos os dias. Perto de seu portão, havia um homem pobre chamado Lázaro, coberto de chagas, que desejava encher-se com as migalhas que caíam da mesa do rico. Cães ainda vinham lamber-lhe as chagas. Agora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. O homem rico também morreu e foi sepultado".

Jesus gostava de ensinar por parábolas, sem dúvida, porque são como uma chave de acesso que permite que você entre em qualquer sala. Nós as lemos e as entendemos na medida em que podemos deixá-las ler-nos e dar sentido à nossa própria experiência. Isto, obviamente, varia muito de uma pessoa para outra. Muitos de nós não gosta de ser lido, até mesmo por uma parábola.

Essa parábola é corajosa - observe o contraste entre as condições materiais. Olhando para o diferencial crescente entre os bônus de banqueiros e aqueles que sobrevivem com a ajuda do Estado, podemos concluir que 2000 anos de valores evangélicos têm feito pouco para mudar as estruturas básicas de desigualdade que caracterizam a sociedade humana. Para os economistas esta é uma questão de gráficos. Para aqueles que trabalham ou estão procurando trabalho trata-se de linho fino e de bons alimentos ou feridas e exclusão social. Morte, não a política, é a única grande equalizador.

Há outra maneira de ler e ser lido por esta parábola: no nível da nossa riqueza espiritual ou pobreza. Ser espiritualmente rico é estar centrado em nossa necessidade humana e desapegado do que temos. Ser espiritualmente pobre é definir a nós mesmos pelo que nós temos e se abrigar do medo da morte atrás de falsa segurança.

É difícil encontrar uma maneira ou padrão pelo qual a entender todo o espectro da vida. Nenhuma ideologia pode fazê-lo. A cruz pode, porque ilustra o cruzamento do material, horizontal, e as dimensões verticais, espiritual, de toda a experiência.

A questão é que o espiritual e o material não são dois reinos separados. Toda experiência que temos incorpora ambos. E a cruz - o grande símbolo de amor brilhando, e, portanto, transformando, o sofrimento - revela que o que a mente vê como linhas paralelas que nunca se encontram, na verdade convergem e se cruzam.

O coração é esse ponto de convergência. Se não sabemos o que significa "coração" - como o pobre homem rico fez na parábola até que fosse tarde demais, então a nossa experiência, seja ela variada, bem-sucedida ou atraente, mal merece ser chamado de humana. Somente o conhecimento crescente no coração da quietude ilimitada de ser nos faz plenamente humano, totalmente vivo.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Segunda Semana da Quaresma (06/03/12)

O maior dentre vós deve ser aquele que vos serve. Aquele que se exaltar será humilhado, e o que se humilhar será exaltado. (Mat.23, 11,12)

Que ideal ridículo e inviável. Como pode qualquer sistema de governo ou organização operar, verdadeiramente, baseado neste princípio?

Com certeza qualquer um incumbido de poder e autoridade alega estar servindo o povo. Todos nós pretendemos ser mais humildes do que efetivamente somos. Ainda que, em todos relacionamentos haja projeções, papéis, atuações e jogos que as pessoas desempenham com ou contra as outras. Na maioria dos jogos, aliás, as pessoas gostam de ganhar.

Assim, antes de se dar conta do que está acontecendo, o servir se torna uma fachada para manipulação e a humildade se torna uma forma de dominação. As máscaras estão caindo, tanto na Siria, hoje, como na Libia há poucos meses - ou aonde quer que o distorcido amor pelo poder sobre os outros esteja sendo ameaçado. Ainda que sempre se precise de dois para dançar o tango e que décadas podem se passar até que aqueles que estão sendo explorados possam reagir e se rebelar. Famílias, corporações, nações, todos nós jogamos o mesmo jogo do poder.

De onde, então, vem este ensinamento de Jesus e para aonde está apontando?

Relações saudáveis são, com certeza, um processo de mão dupla e a química dos múltiplos relacionamentos tem muitas dimensões. O princípio fundamental da relação saudável, no entanto, é a solitude. Se não podemos encontrar e nos sentarmos no nosso "quarto interno" ou deixarmo-nos 'ser conduzidos ao deserto' não poderemos ter o necessário desprendimento para a boa relação. A solitude é o nosso encontro com a base do ser, que é o chão de todos os relacionamentos. Apenas quando nos tornamos humildes com esta descoberta poderemos compreender que cada relacionamento do ser humano está enraizado neste chão do ser. Toda relação no cosmos objetiva a relação central que é ser si mesma.

Jesus não está apenas nos dizendo como devemos nos comportar. Ele está nos dizendo como Deus é.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Segunda Semana da Quaresma (05/03/12)

"Dai, e vos será dado. Uma boa medida, cheia, calcada e transbordante será colocada no vosso colo, porque, com a mesma medida com que medirdes, vós também sereis medidos."

John Main amava esta imagem, e lia-a com o tipo de exuberância e prazer que a pessoa verdadeiramente contemplativa sente pela vida, mesmo com todos os seus sofrimentos e perdas.

Alguém que captou essa sabedoria e a absorveu profundamente em sua própria vida foi Rosie Lovat, a primeira oblata de nossa comunidade, que morreu tranquilamente em casa, em Londres, na noite de sábado, aos 93 anos. Ela era muito próxima de D. John, e vinha visitar nossa recém-criada comunidade, nos primeiros anos de Montreal. Assim que chegava do aeroporto, assumia a cozinha e a nós, homens famintos, alimentava não apenas materialmente, mas pelo espírito com que compartilhava nossa vida. Ela se doava, e irradiava os dons que recebia em troca. Era uma mulher forte, inteligente e segura e, ao mesmo tempo, dotada de doçura e gentileza aprofundadas mesmo pelas trágicas perdas que sofreu durante a vida. Ela bebeu da vida que compartilhamos, e do ensinamento que esta lhe infundiu, e jamais ficou insensível ao encanto que ela lhe provocava.

Há alguns anos, deu-me ela seus diários desse período. Ontem, li deles esta passagem: "D. John celebrou a Missa. Jamais vou me acostumar com a maravilha de fazer o pão, dizendo meu mantra no ritmo de sua criação, colocando nele todo o meu coração. Na missa, ele se torna o Corpo de Cristo, e que maior felicidade poderia existir?"

No fim, não são falas ou escritos que nos ensinam, mas a forma de viver a vida e o modo como a doamos e como, novamente a recebemos numa medida transbordante. Concentrar-se por muito tempo em outra coisa que não esta felicidade é perder-se no deserto.

Laurence Freeman OSB

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Segundo Domingo da Quaresma (04/03/12)

Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: 'Abraão', ele respondeu: 'Eis-me aqui!' Deus disse: 'Toma teu filho, teu único, que amas, Isaac, e vai à terra de Moriá, e lá o oferecerás em holocausto sobre uma montanha que eu te indicarei.' (Gênesis 22, 1-2)

Sentimos que não é estória agradável. Um Deus que preferiríamos jogar no monte de lixo de refugo antropológico. Contudo a terra de Moriá constitui uma realidade nos domínios mais profundos e interiores de nosso ser. É onde, como nos lembram os místicos de todas as tradições, temos de entregar ('sacrificar') tudo aquilo a que estamos ligados. E qual o ser humano que não é afeiçoado aos que ama? Como podemos não ser? Sabemos que a terra de Moriá existe, mas não sabemos em qual montanha – em que circunstâncias ou qual hora, ou de que forma – seremos forçados a largar tudo. Entretanto não existe amor sem sacrifício, porque o amor só pode crescer através do desapego, de um contínuo deixar ir. E se não existe amor em nossa vida, ainda assim temos de nos desfazer disso.

A meditação torna mais fácil de entender essa estória desagradável. John Main disse que 'ao entrarmos em nosso silêncio interior, estamos entrando em um vazio no qual somos desfeitos. Não podemos continuar a ser a pessoa que fomos ou pensamos que fomos. Contudo, na verdade, não estamos sendo destruídos, mas despertados para a fonte eternamente natural de nosso ser.' ( A Palavra que Leva ao Silêncio).

Mesmo assim, podemos não estar muito interessados em enfrentar este fundo de realidade. É provável que, no começo, façamos só breves visitas antes de retornar depressa à superfície para respirar o ar de familiaridade e conforto. O deserto diz respeito à aprendizagem para aumentar nossa capacidade no real, para suportar as exigências que ele faz.

O mais importante de tudo, entretanto, é que possamos entender o sentido da leitura do evangelho de hoje, que a Igreja, com sabedoria, justapõe à estória
de Abraão e Isaac. Hoje lemos sobre a transfiguração de Jesus na 'montanha sagrada', junto àqueles que ele amava e compartilhavam de sua presença.

Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João e os levou sozinhos para um lugar retirado sobre uma alta montanha. Lá foi transfigurado diante deles. Suas vestes tornaram-se resplandecentes, extremamente brancas, de alvura tal como nenhum lavadeiro na terra as poderia alvejar. (Mc 9, 2-3).

A transfiguração veio daqueles profundos domínios interiores em que ele viveu. Ela tocou e mudou até mesmo suas roupas: a começar da profundidade em que não há nenhum pormenor sem importância, só exatidão, até a superfície em que as coisas que fazemos na vida diária são realizadas.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da Primeira Semana da Quaresma (03/03/12)

"Sede perfeitos como o vosso Pai Celeste é perfeito".

Com tal desafio como é que o Cristianismo nunca diminuiu, como freqüentemente acontece, tornando-se uma mera moralidade ou outra ideologia concorrendo para a dominação do mundo ou, ainda pior, um refúgio para aqueles que temem a revolução do espírito?

Não apenas que a "perfeição" seja algo desanimador. No contexto o termo refere-se ao amor ilimitado e sem julgamento de Deus, que é testado nas relações humanas pela nossa capacidade de amar a quem nos prejudica ou nos rejeita. O perfeccionismo é um refúgio para uma religião que não quer entender isso, e que prefere a satisfação do ego de estabelecer regras que tem prazer em manter e um prazer perverso em quebrá-las.

Se Deus fosse tão fácil assim de compreender, nós teríamos uma outra sorte na vida. Não haveria a sede insaciável que existe no cerne da existência humana. Mas como podemos suportar um convite à divinização de um estranho que não aceita não como resposta, e sem sentir vergonha, retorna para mais uma rejeição?

Jesus muitas vezes impacientou-se com seus discípulos – "lentos para compreender". Vemos a mesma resistência no tempo que leva para muitos de nós entendermos a meditação. Existem muitos livros e ensinamentos que dizem que a meditação é algo bom, é claro, como uma preparação para ouvir o que Deus tem a nos dizer. Essa é uma forma piedosa de fugir da questão – não muito diferente de dizer que, sim, a meditação é boa porque nos faz dormir melhor à noite e reduz nosso colesterol.

Chegar ao ponto de que Deus é o silêncio, essa é a questão. Nossa tradição mística nos ensina isso. Mas parece ser mais fácil ir pela rota mais complicada.

E por que trazer a meditação para a discussão? Não é mais fácil repetir que há um caminho mais simples e direto para casa?

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da Primeira Semana da Quaresma (02/03/12)

Põe-te de acordo com teu adversário no tempo favorável (Mt 5,25)

O problema é o tempo, mas ele também contém sua própria solução. A pergunta sempre é: o que é "tempo favorável" e quanto ele dura?

Talvez a natureza ambígua do tempo seja a razão pela qual é tão fácil para nós adiarmos o necessário e negarmos o inevitável. Achamos que sempre teremos mais tempo para fazer o que temos que fazer. Depois nos damos conta, na última hora, quando fica tarde demais porque o tempo está acabando, que já não podemos mais nos reconciliar com nossos adversários ou curar os conflitos dentro de nós, ou aquelas manifestações de nossos conflitos interiores projetados em nosso relacionamento com os outros. Aí, então, somente podemos mergulhar mais fundo no solo do ser, nas grandes profundezas do momento presente. Há cura lá na fonte de nosso ser. Mas muito sofrimento poderia ter sido evitado se tivéssemos feito isso no tempo favorável.

Enquanto escrevo isto, as tropas do governo sírio estão repetindo outra vez um padrão na história humana de massacrar o inocente e destruir lares, infâncias e esperanças. O tempo não é favorável. Mas mesmo sabendo que o desejo de derramar sangue vai se desgastar e que no final alcançarão um "acordo", a marca deixada por esse conflito é praticamente indelével. Mesmo para aqueles ainda não nascidos a vida será consequentemente mais difícil.

Planejamos as coisas fáceis e evitamos as difíceis. Nós nos esquecemos de medir o tempo pela régua da realidade.

Em algumas velhas imagens de São Bento, ele é mostrado segurando a Regra numa mão e um tipo de bastão na outra. Alguns dizem que o bastão é necessário para punir as desobediências à Regra. Eu prefiro vê-lo como uma bastão de medição, como o batuta de um maestro, usada para medir o tempo. Para se medir qualquer coisa deve haver limites aceitos, um começo e um fim. E é disso que trata a regra dos dois períodos diários de meditação.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma (01/03/12)

Peça e você receberá...

Se nós recebermos este incentivo na fase mágica do nosso desenvolvimento, vamos ou nos tornar muito decepcionados muito rapidamente, ou seremos forçados a ginásticas metafísicas que bagunçam as nossas mentes.

Até mesmo a mente racional não pode fazer muito sentido desta afirmação que a nossa prática espiritual vale a pena. Para pedir... mas para quê? E quantas vezes? O que devemos oferecer em troca? Mil rosários, desistindo de bebida na Quaresma? Para a mente contemplativa, no entanto, onde paradoxo e sutileza estão mais em casa, estas palavras de Jesus fazem perfeito sentido.

Pedir alguma coisa é reconhecer que não temos isso. É humilhante e arriscado para o ego auto-suficiente, porque a confissão de toda a necessidade nos torna vulneráveis . O truque é perceber que não estamos a pedir qualquer coisa que queremos. Estamos apenas colocando-nos neste estado de pedir - um primeiro passo para a pobreza de espírito e desapego radical. Pedindo por coisa nenhuma significa que nós recebemos tudo o que pedimos, porque é dado na própria forma de pedir. A resposta está na pergunta se ouvirmos silenciosamente o suficiente.

Isso não vai fazer você ganhar na loteria ou consolá-lo com a fantasia de que você pode, mas isto vai ajudar você a viver contente sem ganhar.

Da mesma forma, meditação é atenção, prestando atenção sem prender-se a qualquer objeto de atenção e dispensando todas as imagens e pensamentos. Oração pura, sem aditivos.

Não é um jogo complexo, mas como todos os jogos tem regras. Na verdade, esta é a única regra deste jogo. A disciplina duas vezes por dia de meditação não é tanto uma regra como o bilhete para o jogo.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Primeira Semana da Quaresma (29/02/12)

Relaxamento e calma é um subproduto de um bom trabalho. Obviamente, se você se esforçar para relaxar o esforço para fazê-lo só vai criar mais tensão. Dê à meditação tudo que você tem, mas não tente demasiado forte. A meditação é um bom trabalho e leva a um tipo de descanso que não é passivo e entorpecido, mas claro, alerta e dinâmico. Isso é chamado paz.

O trabalho é a troca de energia entre diferentes formas. Quando começamos qualquer meditação, somos absorvidos nas formas de círculos de pensamentos diários e sentimentos, em todas as suas manifestações passadas e futuras. Elas representam o trabalho de nossas vidas diárias - necessário e útil. No entanto, no momento em que começamos o trabalho de meditação - para estar no presente - essas formas se tornam distrações que devem ser deixadas para trás, todas elas.

Instintivamente a mente tenta se comprometer - a dizer o mantra e, ao mesmo tempo, manter-se planejando ou sondando os pensamentos dolorosos ou entregando-se aos agradáveis. Então, especialmente se você está estressado e sente que não tem tempo suficiente, tudo parece um desperdício de tempo, trabalho não-produtivo. Abraçar este desperdício aparente, porém, o transforma no mais poderoso estado da pobreza de espírito que é o caminho mais rápido para casa.

É como fazer o check-in para um vôo lotado, em um assento do meio na fileira de trás da classe econômica, próximo ao banheiro, e ser promovido para a classe executiva. Você pode não acreditar na sua sorte. Isso soa um pouco egoísta; o que torna altruísta é que você também percebe que todo mundo pode aproveitar a mesma "promoção de vida". E tenta avisá-los disso.

As distrações vêm em embalagens diferentes - pensamentos triviais e superficiais de sua vida, questões pessoais mais profundas e (os vírus realmente perigosos) ambições espirituais e auto-avaliação. Toda a vez começamos de onde estamos. A maioria de nós começa com uma infinidade de imagens. Tomar a direção oposta a elas, retornar fielmente ao mantra, no coloca em um reinício.

Com o tempo, vemos que a fonte de toda a distração é a auto-consciência, a tendência de formar uma imagem de nós mesmos. Deixar isso para trás é o mais duro trabalho do deserto. Mas isso leva para o oásis de auto-conhecimento e, eventualmente, para a terra prometida em si.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Primeira Semana da Quaresma (28/02/12)

"Sim, se vós perdoardes aos outros as faltas que eles cometeram, também o vosso Pai celeste vos perdoará; mas, se vós não perdoardes aos outros, vosso Pai também não perdoará as faltas que vós cometestes". (Mt 6, 14-15)

Esta é uma simples equação cármica que é bastante óbvia na nossa experiência no plano psicológico. A conexão entre as duas partes não é uma ameaça apenas descritiva. O Pai não se recusa a perdoar, apenas nós não podemos sentir o perdão do Pai que nos envolve a não ser que perdoemos. Então precisamos entender o que significa perdoar.

Se eu não posso relevar o jeito com que as pessoas tem me ferido, intencionalmente, inconscientemente ou até mesmo na minha fantasia, eu permanecerei congelado no tempo. Estarei reagindo no presente a partir de um roteiro imutável e repetindo memórias do passado. Vítimas de abuso ou perseguição sofrem isto traumaticamente. O que chamamos de cura é, na verdade, forçar a abertura do torniquete do passado para permitir que a medicina do perdão toque o local da ferida.

Além e dentro do nível psicológico, no entanto, está o domínio espiritual. Aqui, poderosas e misteriosas forças giram como galáxias no cosmos. Mas, ainda, que sejam vastas e cósmicas elas são amigáveis e nos conhecem melhor que nós a nós mesmos, embora não imponham este conhecimento sobre nós, pois assim nos massacrariam.

Cada uma dessas forças é uma emissão no plano do ser (o Pai). Elas são essencialmente, variações da energia primordial do amor. O objetivo da meditação é o de viver tão plenamente quanto possível na presença desta energia e aberta à ela.

Aprender a meditar é aprender a permitir a percepção desta energia se tornar uma realidade contínua, alimentando cada pensamento, palavras e ações. Para aprender qualquer coisa precisamos ter a humildade para ouvir e começar com tarefas simples do conhecimento que estamos adquirindo. Ficamos satisfeitos com este processo, assim como, ficamos profundamente satisfeitos, ao aprender a dizer o mantra.

A consequência desta aprendizagem é a transformação. Energizados pelo amor descobrimos que podemos perdoar porque o perdão é apenas um outro nome para o amor quando encontra a resistência da dor e rompe e restaura a integridade do ser.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Primeira Semana da Quaresma (27/02/12)

"Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, com sede e te demos de beber? Quando foi que te vimos peregrino e te acolhemos, nu e te vestimos? Quando foi que te vimos enfermo ou na prisão e te fomos visitar?" (Mt 25, 37-39)

No fim de contas, o que importa é o que fazemos, não o que pensamos que fazemos. Muitas pessoas religiosas acham que é seu dever defender a Deus dos homens ímpios, condenando ou matando porque eles sabem melhor quem é Deus. E se Deus estiver escondido no outro? Se o nome de Deus for impronunciável, imerso em seu próprio silêncio, e confundido com os nossos nomes humanos? Quando foi que te vimos ..? Não disseste teu nome.. Nós não te reconhecemos.

O nome é descoberto no outro porque Deus nunca é separado, a base do ser não é um ser que possa ser rotulado.

Somente entrando no silêncio podemos encontrar esse outro, pois silenciar é tirar o foco da atenção de nós mesmos e projetá-lo no desconhecido. Cristãos atarefados podem esquecer que alimentar o pobre, vestir o nu e acolher o estrangeiro é um trabalho silencioso se nossa atenção estiver verdadeiramente voltada para aqueles a quem servimos, não para nós mesmos ou para a instituição por trás de nós. No silêncio deste amor, o "prestador do serviço" e o "usuário do serviço" revelam Deus um para o outro. E, assim fazendo, esses rótulos frios se desvanecem.

Somente encontrando o outro podemos encontrar a nós mesmos.

O outro pode ser ameaçador. Cor, comida, língua, roupas ou costumes diferentes. Por outro lado, se somos atraídos pelo outro, podemos ter medo de cair na sua alteridade e ser absorvidos – ou simplesmente rejeitados.

Não há dor pior do que o exílio emocional da rejeição. Não há maior alegria do que quando o outro sorri de volta, do fundo de seu coração, te reconhece e procura. Deus não é uma alternativa para o risco e a dor do relacionamento humano. Ela é o outro tão íntimo, o terreno comum onde nos encontramos e aprendemos, dolorosamente, a amar uns aos outros.

"Responderá o Rei: - Em verdade eu vos declaro: todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes."

Laurence Freeman OSB

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Primeiro Domingo da Quaresma (26/02/12)

O Espírito impeliu Jesus para o deserto. E Ele esteve no deserto quarenta dias, sendo tentado por Satanás; e vivia entre as feras, e os anjos o serviam. (Mc 1,12)

No 26º hexagrama do I Ching, o texto de sabedoria chinesa, denominado o Livro das Mudanças, lemos que grande controle é produzido pela quietude. De seu profundo manancial de sabedoria, ele também nos ensina que, ao defrontarmos cargas que parecem intoleráveis, a melhor reação é permanecer quieto e assim, aos poucos, superar as pressões do sutil e poderoso ego.

Depois do Batismo, não foi a partir do seu ego que Jesus escolheu ir para o deserto. Os coelhos poderiam votar a favor da Páscoa, mas os perus não votam a favor do Natal. Foi o Espírito que levou Jesus para o deserto. O seu ego teria dito _ você tem o apoio do Pai, a atenção da multidão, chegue agora aos locais de campanha. Pelo contrário, Ele passou quarenta dias dominando as feras. Essas forças residem na férrea vontade do ego. Elas podem assumir qualquer forma _ insinuante ou cruel _ que convenha aos seus fins e têm de ser confrontadas na solidão e quietude do deserto do nosso coração. Mas então, enfrentadas e integradas, tornam-se forças angélicas que transmitem a bondade essencial de nossa natureza. O ego não pode ser dominado por força, só por obstinado amor.

Nossa bondade essencial é o único fundamento certo a partir do qual fazemos o que Jesus fez em seguida _ 'proclamar a boa nova de Deus'. Este é o trabalho de nossa vida. Contudo, é difícil acreditar que o tempo ainda não está propício quando sentimos que o tempo está-se esgotando _ os jovens sentem isso tanto quanto os mais velhos, porque só as crianças são imortais.

Entretanto, como sempre no reino do espírito, essa é uma escolha sem alternativa. Não concordar com essa realidade é repetir os mesmos erros até na velhice. Ser fiel é escolher o real. Nosso deserto é nossa meditação.

Laurence Freeman OSB

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Sábado pós Cinzas (25/02/12)

Às vezes o profundo desejo de uma pessoa está tão aparente em sua personalidade que todo mundo pode ver, embora estejam todos convencidos de que este desejo está escondido, e mal se dão conta disso. São destes tristes absurdos que as tragédias humanas são feitas. Ora construímos impérios financeiros, ora nos rendemos à vícios vergonhosos como meios infantis de fugir para longe tanto de nosso verdadeiro eu como de nosso falso eu – na verdade de qualquer eu que encontremos.

Tentando lidar com isso, nós não devemos subestimar o quão profundo e arraigado é o sofrimento humano.

"Os sãos não têm necessidade de médico e sim os doentes; não vim chamar os justos, mas sim os pecadores, ao arrependimento". (Lc 5,31)

Qualquer falta de autenticidade em nós corrompe a alma, cujos sintomas nós mesmos devemos reconhecer, seja medo, raiva, tristeza ou falso desejo. Podemos responsabilizar outros por tirarem vantagem de nossa culpa, mas também nos enfraquecemos, com cada perda, por um sentimento interior de vergonha. O quanto antes nós expusermos tudo isso, melhor, e a meditação expõe tudo à luz desde o primeiro dia. Apenas quando começamos a simplificar é que realmente vemos que Deus não é um juiz e executor externo , mas alguém que cura e um amigo.

As metáforas podem ser falhas, mas elas se tornam reais em nossa experiência. Apenas quando descobrimos o novo continente interno de amor é que o medo e a vergonha humanos se desfazem em sua própria inexistência.

Quaresma. A meditação desenvolve esta coragem, como começar com uma maratona de um quilômetro.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira depois da Quarta-feira de Cinzas (24/02/12)

O garoto de nove anos que o espera, muito ansioso para lhe dizer que correu uma 'maratona' de um quilômetro e meio em tempo recorde. A senhora de 90 anos que olha para aqueles que ama sem energia para se envolver ou responder, e fecha os olhos com exaustão. A amplitude e os estados da consciência humana são tão vastos quanto as culturas e os costumes pelo mundo. Um dia estamos famintos por experiência e realizações. No outro estamos sem apetite.

O jejum é para quando o noivo está ausente, não quando está presente, diz Jesus no evangelho de hoje. Novamente, porém, os opostos convergem.

Queremos tudo, mas também queremos perder tudo, ser desimpedidos e livres. Esta contradição causa muita dor e confusão até que, um dia, a ficha cai. Essas coisas são um único e mesmo desejo – ou uma necessidade mais profunda do que algo óbvio como desejo. Enxergar isso realiza o desejo e nos leva além da órbita desejo e decepção. Egoísmo, distanciamento frio? Na verdade não, pois o teste de autenticidade disso tudo é um amor além dos limites do apego.

Aprender a meditar começa quando aprendemos como meditar. A meditação é extraordinariamente simples e a curva de aprendizado consiste em se reconciliar com essa simplicidade. É mais do que aperfeiçoar-se a si mesmo ou compreender-se. A simplicidade projeta-nos além dessas formas limitadas de conhecimento e ilumina a vida como peregrinação. A jornada não é a autoanálise, mas a transcendência de si. Porém, como disse John Main, é preciso coragem para tirar a atenção de si próprio e abandonar o que pensamos que conquistamos.

A quaresma, a meditação desenvolvem essa coragem. É como começar correndo uma maratona de um quilômetro e meio.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira após a Quarta-feira de Cinzas (23/02/12)

Contando os dias. As crianças fazem isso quando elas esperam por alguma coisa. Prisioneiros fazem isso à medida que suportam seu encarceramento. Peregrinos espirituais também fazem isso (de uma forma infantil e, porque amam a liberdade).

A contagem regressiva da Quaresma começou. Trata-se de um meio artificial (parecendo mais natural, por ser tão antigo) para um melhor entendimento acerca do tempo e da eternidade, que não está menos aqui e agora. É, como alguém a chamou, um gosto da "tempeternidade", o tempo atravessado por uma consciência clara do sagrado no que é comum.

Leva tempo para que a mente comum do dia-a-dia se conscientize do movimento de mudança que a meditação está constantemente impulsionando em nosso ser mais profundo. É por isso que não importa muito o que nós sentimos, ou não sentimos, em nossa prática espiritual. Alguns dias enxergamos o seu significado e ficamos entusiasmados. Outros dias ela nos parece tola e, uma perda de tempo. É a consciência mais profunda, mais clara, o coração puro, que conta toda a verdade.

Qualquer que seja a prática Quaresmal que você começou, assim como a própria meditação, não se trata de ser perfeito ou de alcançar sucesso. Vamos arrancar isso para fora da equação, desde o primeiro dia.

Todos nós falhamos. Todo mundo começa, pára e começa de novo. Tudo o que importa é a fidelidade, é voltar. Fidelidade ensina disciplina. Disciplina liberta-nos do ego e nos leva além de nós mesmos para a consciência pura, inocência pura e, no final, puro amor.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira de Cinzas
(22/02/2012)

"Quando jejuardes, não tomeis um ar sombrio como fazem os hipócritas..." (Mateus, 6,16)

A Quaresma é uma oportunidade de colocar nossa autenticidade à prova. É tão fácil deslizar gradualmente para longe da verdade, imaginar um monte, mas deixar a prática descer para um papel que representamos, tanto para nós mesmos, quanto para fazer-nos parecer melhor aos olhos dos outros. Que alívio voltar para o nosso eu verdadeiro e aceitar a nós mesmos, mesmo quando descobrimos que somos falhos, infiéis e, geralmente, imperfeitos. Nós não precisamos dar desculpas, apenas ser honestos.

Para aumentar a verificação da realidade, somos ajudados por um instrumento - que é fornecido por uma prática especial que adotamos durante a Quaresma. A oração, a esmola e o jejum são as categorias tradicionais da prática espiritual.

Assim, para cobrir todas as bases, nós poderiamos começar com a oração. Reforçando nossa disciplina de meditar duas vezes por dia. Renovando nosso compromisso, endireitando nossa postura. Adicionando uma leitura do Evangelho do dia. Em seguida, doando aos necessitados, se não materialmente, então, na moeda do tempo ou atenção, ou simples atos de gentileza. Em seguida, o jejum - abrir mão ou reduzir aquilo que lá no fundo sabemos que é excessivo ou ilusório ou desequilibrado.

Se fizermos esta prática pelo motivo certo, do jeito certo, por que o ar sombrio? Há de tudo na prática certa, para fazer da Quaresma um tempo para sorrir.

Laurence Freeman OSB

 

 

     
Comunidade Mundial de Meditação Cristã