Dom John Main, OSB - WCCM


Domingo de Páscoa (04/04/10)

As primeiras testemunhas de Jesus ressuscitado foram mulheres. Isto apesar - ou porque – as mulheres não eram vistas como testemunhas legalmente competentes. Talvez isso nos mostre que para acreditar na Ressurreição temos que confiar não apenas nos comentários de outras pessoas, mas em nossa própria experiência. As “mulheres não sabiam o que pensar” e Pedro ficou perplexo diante da notícia de que Ele havia ressuscitado.

Este é o pré-requisito para a fé e a visão das coisas não-visíveis. Estar aberto à profunda maravilha de nossa própria criação e como o nosso ser é penetrado pela mente de Cristo - este é finalmente o caminho para reconhecê-lo. É também um dos frutos da meditação, unir fé e crença à experiência - ou como dizia John Main - para “verificar as verdades de nossa fé em nossa própria experiência”. A ressurreição não é “sobrenatural”. Ela nos envia de volta a esta vida de uma maneira nova.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira Santa (02/04/10)

Os primeiros gnósticos não se permitiam imaginar como o sofrimento e a morte poderiam estar relacionados a Deus. O dualismo deles mantinha estes dois mundos rigidamente separados. Os primeiros cristãos só poderiam ver a espantosa epifânia da cruz como uma indicação do destino humano, no qual “todos os mundos” estão unidos na gloria de Deus. A cruz tipifica tudo o que nós queremos manter afastado ou que negamos: humilhação, dor, rejeição e mortalidade. Ficamos sem fôlego ao compreender que esta humilhação – um desfecho lógico da humildade de Deus na própria encarnação – torna acessível a nós tudo aquilo que perseguimos e que queremos abraçar.

Quando nós aceitamos essa verdade dura de aceitar e mais dura ainda de compreender, a morte é derrotada e não tem mais poder sobre nós. Nós podemos viver livres do maior de todos os nossos medos. Além disso, nós fomos preparados para o mais profundo nível de significado na história, o qual espera sua silenciosa explosão em três dias. 

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira Santa (01/04/10)

Em uma fábula de Esopo um cachorro segurando um pedaço de pão na boca vê seu reflexo em um lago. Não se reconhecendo, ele abre a boca para agarrar o pão refletido e perde o pão real que estava segurando. Hoje celebramos a instituição da Eucaristia na qual Jesus revela o significado de tudo o que Ele é de tudo o que vai realizar amanhã: a doação de si mesmo por amor que afeta a união com aqueles que recebem Seu presente e também com aqueles a quem ele nunca deixa de oferecê-lo. O pão e o vinho - símbolos ordinários da nutrição humana - assim se tornam o sinal da doação de si mesmo. Pão real, pão vivo, e não uma imagem ou um objeto de desejo, mas uma forma e um meio da energia do imediatismo do amor, que satisfaz a alma faminta.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da Semana Santa (31/03/2010)

À medida que chegamos ao limiar dos Mistérios da Páscoa, deveríamos fazer uma avaliação sobre o que a Quaresma significou para nós este ano e refletir se nos preparou para entender com mais profundidade os significados que novamente vamos explorar. Para nos aprofundarmos mais no significado, precisamos deixar de lado nossa descrença e nos abrir para a nossa experiência, até mesmo – na verdade, especialmente – quando a nossa experiência parece incompreensível.

Existe um plano ou um padrão no cosmos em que Cristo forma um ponto de convergência e Iluminação central? São Irineu chama isso de “Recapitulação” de todas as coisas em Cristo significando um resumo, repetição e correção de tudo o que existe e que acontece “em Cristo”. Mas antes que a visão do todo em escala cósmica entre em foco precisamos de algum modo responder essa pergunta desde a perspectiva da nossa própria vida. Esperamos que a Quaresma nos tenha tornado mais sensíveis para esse nível de verdade e de auto-conhecimento.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da Semana Santa (30/03/2010)

‘Um de vocês me trairá’. As palavras de Jesus envolveram Seus dicípulos em um calafrio, e eles queriam saber quem seria. Isto significa que cada um suspeitava queeles talvez  fossem capazes de traí-Lo. Se nós temos o potencial de partilhar a bondade da glória de Deus, a capacidade de sermos divinizados, nós também temos o potencial de desperdiçá-la. A luta para permanecer no caminho do crescimento positivo é contínua. Tão logo nos tornamos complacentes ou mudamos da graça para o perfeccionismo, a lenta integração e iluminação de nosso lado sombrio se interrompe. Todos sabemos – em momentos de depressão ou raiva ao longo do dia – quão facilmente o lado sombrio pode dominar. Confiar na nossa capacidade de saber  e reconhecer  isto – permanecendo focados na pura consciência – reverte esse ocasional colapso e até se transforma em progresso positivo. Ultimamente, não temos que temer nem mesmo nossa pior capacidade de negação e traição a nós mesmos. Onde há pecado, a graça cresce e fatalmente nos inunda ainda mais.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da Semana Santa (29/03/2010)

Nós não costumamos associar paciência e paixão. Reconhecemos que a paciência é uma virtude e até vemos que a impaciência é uma forma de raiva, que muitas vezes irrompe sob forma de violência. Mas provavelmente achamos que a paixão é uma qualidade mais heróica e atraente, embora ela também possa turvar o julgamento e levar a um comportamento irracional. No nosso comportamento, muitas vezes, oscilamos entre as duas. A paciência parece ser uma forma de menor energia e a paixão um estado mental mais intenso e concentrado. Mas quando consideramos a Paixão de Jesus e sentimos a força do ela diz sobre nós mesmos, podemos ver essa questão de forma bem diferente. A raiz de “paixão” e de “paciência” é a mesma palavra, e sugere uma verdade de grande importância. A paciência envolve enfrentar o sofrimento inerente à vida – atravessar aquilo que precisa ser passado. Mas a paixão - concentração intensa - também é necessária para sustentar esse movimento e conseguir completá-lo. Uma paixão paciente pode ser o tema que abre para nós algumas das profundezas do significado nos próximos dias.

Laurence Freeman OSB

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Domingo da Paixão (28/03/2010)

A Paixão e Morte de Jesus são um ensinamento vivido. Fatos encarnando ensinamentos enaltecem as palavras mais comuns com poder excepcional e preenchem o silêncio com um significado transformador. As diferenças de perspectiva  entre os quatro evangelhos expressam as infinitas permutas de significado nestes eventos históricos.

Jesus prepara os discípulos para um mistério em que eles estão prestes a serem imersos pela recordação do significado de humildade – serviço, ao invés de manipulação, aceitação de que estamos mais próximos da verdade entre os menores, os perdidos e os últimos do que entre aqueles que dependem das fachadas de sua própria onipotência. Os eventos estão plenos de tensão, quase a hiperrealidade de um paradoxo. Nestes momentos intensos, nos encontramos com os opostos do sucesso e fracasso, os hemisférios da luz e da escuridão da alma, o bom e o mau bandido, as polaridades da lealdade e da traição. Subjacente a este reino da dualidade, encontramos o reino do espírito, da unidade. Tudo aquilo que parece dividir converge na pessoa central da narrativa, que aparenta desaparecer naquilo que representa.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da quinta semana da Quaresma (27/03/10)

No hemisfério norte, foi um longo e gelado inverno. Em breve, quando a grama começar a crescer novamente, as vacas serão soltas no campo, e brincarão uma meia hora, antes de começar a ruminar tranquilamente, na sua longa sessão de meditação bovina. Agricultores e jardineiros dizem
que a Primavera está atrasada este ano. Geadas tardias fizeram vítimas, e ainda temos que esperar e ver o que vai crescer e que terá de ser arrancado e jogado na pilha de compostagem.

Traumas de infância também podem criar padrões e bloqueios psicológicos que só mais tarde na vida serão revelados e enfrentados. Mas o grande ciclo de morte e renascimento é constante e engloba todos os caprichos das estações e dos indivíduos. Nós encontramos nosso significado maior em realidades maiores do que geralmente pensamos ser.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da quinta semana da Quaresma (26/03/10)

Somos condicionados há muito tempo a nos avaliarmos por aquilo que temos ou pelo que conseguimos. No mundo antigo, havia a ‘fama’ atribuída ao heroísmo, ou um nome que perduraria após a nossa morte, para as gerações futuras. Hoje, é a celebridade; apenas ser reconhecido e aplaudido por qualquer razão. Outros níveis de valor são atribuídos em função da riqueza material que outorga poder e assim ganha o medo e a dependência de outros. É mais difícil, Jesus disse, para as pessoas presas a esses modos de verem a si mesmas chegarem ao reino dos céus – vida real – do que um camelo passar pelo buraco de uma agulha.

Ao dizer o mantra, estamos nos despojando de cada uma e de todas essas falsas avaliações. Começamos a entrar no estado de pobreza de espírito em que possuímos e nos apegamos a cada vez menos e menos. No início, é revigorante. A sensação de libertação é como respirar ar mais puro ou perder peso, então nos tornamos mais ágeis e argutos. Gradualmente, porém, percebemos que o desapego é ilimitado. E finalmente, é o próprio sentido de nós mesmos que precisamos entregar ao que parece – ao menos em alguns momentos – um vazio sem sentido. Só a experiência do amor no âmago desse processo nos leva a prosseguir ate o fim que é, na verdade, um começo infinito.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da quinta semana da Quaresma (25/03/10)

Festa da Anunciação

Hoje - 9 meses para o Natal - é realmente a festa da Palavra que se torna carne. Nós refletimos hoje em nossos corações a misteriosa concepção de Jesus em Maria, quando ela expressou seu bravo “faça-se em mim a Sua vontade”. Um parecer favorável ao que parecia uma pequena onda, mas foi o primeiro sinal de um tsunami.

Os principais pontos de virada de nossas vidas muitas vezes chegam desta forma tranqüila e não dramática. A pessoa que encontramos que muda a nossa vida. O fracasso ou o sucesso que dá um novo rumo à história de nossa vida. Quando tudo isso atravessa a superfície e é reconhecido, elegemos um momento de aniversário de reconhecimento. Mas as raízes vão mais fundo do que podemos seguir. Em algum nível profundamente simples de unidade todas as causas e efeitos se encontram. Então o significado - Logos - nos toca.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da quinta semana da Quaresma (24/03/10)

Nós somos rápidos em passar adiante nosso julgamento a respeito dos outros, e nossos comentários sobre as outras pessoas normalmente enfocam o que – naquele instante  – nós achamos atraente, repulsivo, inspirador  ou irritante a respeito daqueles a quem julgamos. Nós não relutamos em  passar adiante estes julgamentos sumários a terceiros que não conhecem as pessoas em questão.  Quando descobrimos que nós mesmos fomos “embalados e entregues” da mesma forma que fizemos, nós nos revoltamos ( ou nos sentimos lisonjeados ) pela parcialidade e falta de sutileza.

Único como cada ser humano é, cada um de nós é sagrado. Isto significa que qualquer coisa que dissermos a respeito de outra pessoa  será  aquém da verdade, da mesma forma como qualquer coisa que dissermos a respeito de Deus será inadequado. O mistério da realidade reside na sua inteireza.  Somente a totalidade pode adequadamente representar a totalidade.    Aí reside a sua verdade. Isto explica porque o silêncio - compassivo, atento, perspicaz e humilde - é tão necessário como base e meio de toda nossa comunicação e compreensão.

Assim como tentaremos entender o significado de Jesus nesses próximos dias – tendo tentado entender a nós mesmos um pouco melhor durante estas últimas semanas – nossa meditação será como sempre nossa melhor professora.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da quinta semana da Quaresma (23/03/10)

Este é um bom período, ao final da Quaresma, para refletir sobre o que nos foi ensinado neste período, este ano. Se realizamos uma pratica especial ou abraçamos alguma forma de autocontrole, fomos fieis até o fim?  E em que contribuiu para nos tornar mais livres e focados?

Se tivermos nos saído bem, nos sentimos um pouco mais satisfeitos? Acima de tudo, sentimos maior clareza de mente e de coração, nos sentimos mais preparados para os mistérios mais profundos dos próximos dias? Mesmo se sentimos que não aproveitamos totalmente esta oportunidade que a Quaresma nos oferece para simplificação e purificação de nossa consciência, o que podemos fazer para nos sintonizarmos na nova melodia, tanto da escuridão como da claridade, que em breve iremos ouvir?

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da quinta semana da Quaresma (22/03/10)

A prática espiritual consiste em ver o que temos que perder, perdendo-o complacentemente e reconhecendo que estamos sendo levados a colocar outra coisa em seu lugar. Toda perda é penosa, vergonhosa, frustrante ou enfurecida. Lembre-se de como se sente quando você perde sua mala depois de um longo vôo e que o serviço ao cliente mais parece inclinado a lhe tripudiar do que ajudar a encontrá-la. Como é fácil e tentador permitir que estados negativos da mente tomem conta e permitam que o ego - que registra todas as perdas como uma afronta pessoal - ocupe espaço e comprometa seu julgamento. Toda perda, por menor e temporária que possa parecer, desperta ecos de todas as perdas anteriores de nossas vidas: esta é a razão pela qual nós tão facilmente reagimos exageradamente.

A meditação e o autocontrole estão entre as práticas da Quaresma que têm mais valor e energia na vida cotidiana porque nos fortalece para enfrentar a primeira onda de sentimentos negativos e para recordar que por menor ou maior que seja a perda vai se seguir o encontro – tão certo quanto a ressurreição segue a morte.

Laurence Freeman OSB

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Domingo da quinta semana da Quaresma (21/03/10)

O Evangelho de hoje nos conta a história de Jesus e a mulher surpreendida em adultério. Essa é uma passagem disputada pelos estudiosos mas tão amada e profundamente compreendida por gerações de Cristãos que permaneceu no cânone. Porque ela parece tão emblemática de Jesus e o espírito de seu ensinamento? Não só porque Ele está sempre do lado do oprimido e marginalizado. Um teste verdadeiro para ver Jesus é estar no lado perdedor e com aqueles que se recusam a polarizar e fazer de outros seus bodes expiatórios. Mas também reflete Sua profunda e contundente gentileza para com aquela parte de nós que, em muitas ocasiões, escolhe apontar o dedo e condenar. Jesus não só exonera a mulher, defendendo-a de uma multidão de homens patriarcais furiosos. Ele os força, sem o uso da violência, a se confrontarem com si mesmos e com sua própria decepção e obstinação. Eles não aparentam arrependimento, mas a vergonha de si mesmos os faz se esquivarem. Jesus salvou e ensinou em um gesto que une as forças da sabedoria e da compaixão.
Como um padre do deserto uma vez disse quando perguntado sobre como melhor encontrar a paz de espírito: “julgue ninguém e em cada conflito pergunte-se ‘quem sou eu?’ ”

Laurence Freeman OSB

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Sábado da quarta semana da Quaresma (20/03/10)

Caravaggio pintou duas grandes obras inspiradas pelo encontro de Jesus com os dois discípulos no caminho de Emaús. A primeira executada no auge de sua carreira e popularidade mostra um Cristo jovem, sem barba, em uma cena cheia de luz e surpresa. A figura à direita abre seus braços tanto quanto pode pela surpresa do que vê. A segunda pintura foi feita em um período mais obscuro de sua vida, quando Caravaggio tinha perdido fama e fortuna e estava foragido. Nela Cristo aparece mais velho e sombrio, a luz baixa e a surpresa dos discípulos parecem ser mais suaves. As formas com que vemos dependem de nosso estado de espírito. A fé com que vemos cresce ainda mais com a adversidade. John Main, disse que a meditação “verifica as verdades de nossa fé em nossa própria experiência”. Conforme nos ensinam os variados estados da mente, nos quais estamos trabalhando para melhor reconhecê-los e moderá-los durante a Quaresma, nossa experiência muda. Temos fases da vida, altos e baixos, e de um momento para o outro podemos mudar nosso humor e perspectivas. O que permanece constante em todas essas mudanças da fortuna e da emoção tem o direito de ser chamado de verdade.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da quarta semana da Quaresma (19/03/10)

Você está jantando com um grupo durante a Quaresma e chega a hora da sobremesa. Você tinha resolvido não comer sobremesa, como parte de sua prática quaresmal. De repente, isso parece um pouco infantil e, além do mais, é a sua sobremesa preferida. Ainda assim... Aí você vê vários outros recusarem a sobremesa. Talvez eles estejam fazendo dieta, talvez jejum - talvez até um pouco das duas coisas, pois a motivação humana é sempre mista. De qualquer forma, você se sente fortalecido pelo exemplo deles, humilhado por sua própria fraqueza, e pronto para recomeçar. Essa é a história da vida espiritual, nunca perfeita, sempre redimível.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da quarta semana da Quaresma (18/03/10)

Os quarenta dias da Quaresma nos preparam para o intenso mistério que vivenciamos nos três dias da Páscoa. Para que esta iniciação no mistério de Cristo tenha efeito precisamos sentir uma identificação intuitiva com Jesus. Como definiu São Leão Magno: “A verdadeira reverência pela paixão do Senhor é fixar os olhos do nosso coração em Jesus crucificado e reconhecer Nele a nossa própria humanidade”.

Primeiro, temos que ser capazes de ver com os olhos do coração, que são facilmente turvados por qualquer forma de excesso – por exemplo, ansiedade demais, tempo demais ao computador ou mais comida daquela que realmente precisamos. Portanto, a Quaresma bate na tecla da moderação que inicia o processo de purificar o coração para que ele possa ver. Então, usamos o poder da visão para olhar, para concentrar nossa atenção na experiência que Jesus vivenciou. Entender o significado do sofrimento é uma aspiração universal. Só nesta etapa é provável que haja um senso de identificação.  Não é apenas uma projeção imaginária ou psicológica que nos mantêm no centro da situação. É preciso reconhecer a “nossa própria humanidade”, diz São Leão, e isso significa uma consciência que nasce de um todo recém-descoberto. Algo há muito tempo familiar de repente se torna extraordinariamente novo.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da quarta semana da Quaresma (17/03/10)

São Patrício pregou o evangelho de perdão para as mesmas pessoas que o haviam escravizado na  juventude.  Ele passou da peregrinação para missão. Durante o processo algo se abriu e o libertou, e então ele se sentiu capacitado pelo poder do amor no lugar da amargura. Quando lemos a respeito da vida dos santos que, como ele, suportaram muitas dificuldades de inimigos e amigos e que continuaram, mesmo apesar disso, a louvar e a servir a Deus; pode ser que a gente fique um pouco cético de que não foi tão fácil como parece.

Sem dúvida não foi fácil e houve momentos de dúvida, desânimo e  fracasso. Mas como podemos ver  em figuras como Nelson Mandela, Ghandi e Oscar Romero, o amor aos seus inimigos não é um ideal impossível.  Para alcançar essa dádiva - a qual é, de qualquer forma, necessária para nossa paz de espírito – duas coisas precisam estar no lugar certo. Primeiro temos que saber que somos amados verdadeiramente como nós  somos. E  temos que ter a graça da resignação. Já na velhice São Patrício escreveu sobre sua vida com gratidão pela graça ao olhar para os tempos de “prosperidade e adversidade”.  João Cassiano usa a  mesma frase para descrever a fidelidade ao mantra ao atravessar altos e baixos da peregrinação interior. A peregrinação encarna a missão.  

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da quarta semana da Quaresma (16/03/10)

Quão diferente o mundo verde parece à luz do sol. O que uma afirmação de esperança como a Primavera mostra é que não se esqueceu de nós. É verdade que existe uma beleza em dias cinzentos e árvores nuas, mas continuamos a sentir que a primavera e o verão encarnam a verdade mais profunda e central da Vida. O resto é preparação e encerramento no reino do tempo. Aqueles que vivem nos trópicos têm diferentes lições em diferentes cores para ler o livro da natureza. Sua contínua floração ainda é parte do ciclo universal de morte e renascimento. Hoje, ao contrário de épocas passadas, podemos ler o livro simultaneamente em toda a sua diversidade global. Podemos ver e cheirar suas diferenças gloriosas. Este é um sinal da nova santidade do nosso tempo, uma espiritualidade de maior perspectiva e inclusão. Não admira que a Quaresma chegue ao limiar das estações.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da quarta semana da Quaresma (15/03/10)

Um dos feitos do ego mais distorcidos é o de culpar os outros, de forma a nos proteger ou manter nossa imagem intacta. Como vemos na imagem de Adão apontando seu dedo para Eva e até mesmo no comportamento de crianças bem pequenas, deve ser um mecanismo de defesa profundamente entranhado. Ele nos leva a todo tipo de problemas, no mínimo tornar um inocente em bode expiatório.

Biblicamente o deserto simboliza o local onde a simplicidade radical do meio-ambiente e a falta de elementos de distração permitem uma gradual perda de todas as projeções. Idolatrar ou endemoninhar são igualmente irreais. Na simplicidade nós primeiro nos encaramos para depois nos aceitarmos como somos e só então será possível assumir responsabilidade onde a temos. O primeiro passo é sermos honesto com nós mesmos. Por isto Jesus nos alerta contra qualquer tipo de encenação nas demonstrações religiosas. Mais fácil falar do que fazer; mas a meditação torna isto possível porque também ela é uma espécie de deserto de simplicidade radical e transparência.

Laurence Freeman OSB

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Quarto Domingo da Quaresma –“ Laetare” (14/03/10)

Então o dia com que eles frequentemente sonhavam havia chegado. E o povo que passara quarenta anos no deserto, oscilando entre a esperança e a angústia, fazendo de si mesmos uma outra geração, que não tivesse lembrança da escravidão, entrou na Terra Prometida. Naquele dia o maná cessou – o alimento especial, um pouco insosso, talvez, mas que os havia seguido tão fielmente, foi-lhes tirado. E eles tiveram que se acostumar agora com a comida cultivada localmente. (Josué 5:9-12)

Laurence Freeman OSB

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Sábado da terceira semana da Quaresma (13/03/10)

“Eu quero a misericórdia e não o sacrifício”. Jesus citou este frase do profeta Oséias em um de seus ensinamentos.

O sacrifício, muito frequentemente, significa sacrificar o outro. É preciso uma percepção muito clara, não turvada pelo efeito do ego, para ver que a natureza da realidade última é compassiva. É muito fácil para nós usurpamos o trono de Deus e nos acharmos, com nossos ressentimentos e opiniões auto-centradas, árbitros da justiça. A vaidade acredita que pode ser polícia, juiz, júri e carcereiro. A meditação e os efeitos esclarecedores das práticas da Quaresma refreiam o ego e restauram a clareza e o controle da humildade. A Quaresma e a meditação têm um objetivo comum: não a vaidade de uma falsa espiritualidade, mas o espírito de bondade, de perdão e de carinho. Em sua forma mais pura, estas qualidades são mais poderosas e eficazes do que qualquer tipo de violência. A meditação é uma Quaresma contínua - oração e jejum mental. A Quaresma é um lembrete externo de tudo que a meditação ensina e alcança diariamente.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da terceira semana da Quaresma (12/03/10)

O Reino dos Céus não é apenas um lugar, mas um modo de estar apaixonado pela realidade. Jesus disse que é como um homem que tropeça em um tesouro enterrado em um campo. Mas, ele acrescentou, é também como um mercador procurando pérolas magníficas. Sorte e projeto. Graça e fé. Disciplina e liberdade. Prudência e espontaneidade. Aparentemente opostos, mas em realidade dois lados da mesma moeda que gira eternamente na quietude, aqui e agora, lá e sempre.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da terceira semana da Quaresma (11/03/10)

Um antigo mestre cristão disse que a oração tem substituído o sacrifício em nosso relacionamento com Deus. Isto ilustra o que Jesus quer dizer ao afirmar que "os adoradores que o Pai quer adoram em espírito e verdade". Este divisor de águas fundamental na consciência religiosa não invalida todas as observâncias externas, mas as relativiza e lhes dá um novo propósito. Se abrimos mão de doces na Quaresma não é para aproximar-nos de Deus através do sofrimento. É para nos focar e concentrar melhor no puro ato de atenção - o sacrifício do coração - que é a oração.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da terceira semana da Quaresma (10/03/10)

Um velho homem com um olhar cada vez mais distante  olha para você e diz que seu trabalho acabou, mas ele quer aprender a meditar. Uma criança com total confiança olha diretamente para você e depois fecha os olhos para meditar.  Entre os dois e abraçando ambos está  o espírito da Quaresma.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da terceira semana da Quaresma (09/03/10)

Neste estágio da Quaresma, já deveria estar mais claro quais os aspectos de nós mesmos que precisamos mudar para nos abrirmos, para deixarmos que o espírito trabalhe.  Esse trabalho leva mais do que quarenta dias, mas a Quaresma pode fazer com que os focalizemos e até mesmo por nos tornarmos conscientes deles, já estamos produzindo mudanças.  Um desses aspectos diz respeito ao perdão.  Podemos "seguir adiante" de modo muito superficial, a partir de um momento de mágoa, de traição ou de perda.  Sob a superfície, podemos permanecer apegados à raiva ou à tristeza.  O perdão é mais do que conferir absolvição.  Trata-se de entregar.  A cura e a reconciliação estão na entrega, não uma vez, mas, como Jesus nos disse: "setenta vezes sete", ou seja, continuamente.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da terceira semana da Quaresma (08/03/10)

A mãe de um garoto de dez anos foi surpreendida pela intensidade da disciplina do menino na Quaresma. Ele abriu mão do chocolate e quando ele recusou um “cookie” de chocolate, que ela cozinhou para ele e para as irmãs, ela ficou preocupada achando que ele estava levando o propósito muito a sério. Ela disse a ele que Deus não ficaria zangado se ele comesse um no domingo, dia em que é permitido suspender a disciplina. Também disse a ele para não ser muito intenso em relação a tudo isso e nem amedrontado de quebrar o compromisso e ter problemas.

Ele olhou para ela meio surpreso e disse: eu sei que Deus não me puniria, mas isto é o que ele escolheu fazer e quis levar o seu propósito até o fim. Ela se sentiu tranqüila e talvez um pouco gratificada. Ele tinha acabado de fazer uma descoberta, a qual muitos de nós nunca fizemos ou de que facilmente nos esquecemos; que na disciplina, livremente escolhida, nós aumentamos o autoconhecimento e a auto- aceitação. A recompensa é uma expansão do coração e da mente e uma nova  noção de nós mesmos em Deus. E isto compensa de longe o sacrifício de ficar sem  “cookies”, mesmo aos domingos.

Laurence Freeman OSB

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Terceiro Domingo da Quaresma (07/03/10)

As montanhas fascinam até mesmo aqueles que não gostam de alturas. Nas tradições religiosas, as montanhas se tornam lugares sagrados – de Horeb a Ularulu.

Ao subir a cordilheira do Himalaia você pode ter um momento “blakeano” [de William Blake, o poeta] e ver brevemente os picos das montanhas como ondas, sólidas apenas em aparência, mas em realidade como todo o resto do universo, como energia que flui. Os cumes das montanhas são o ponto de encontro entre terra e céu, onde o que é visível e tangível toca e desaparece no etéreo e no transparente. Talvez Moisés no Horeb tenha tido uma experiência similar quando se aproximou da sarça ardente e o grande EU SOU se dirigiu a ele. Mas o sagrado se torna facilmente territorial, como a profana “Terra Santa” demonstrou. Na nova isenção da mente de Cristo nós não mais identificamos adoração com lugares sagrados (“esta montanha ou Jerusalém”, como disse Jesus à mulher no poço). A adoração agora é “no espírito e na verdade”. De súbito, nossa base para derramar sangue ou agir de modo injusto em nome da religião foi arrancada de nós.  Caímos no mistério do Deus vivo e não na nossa imagem de Deus.

Nossas práticas espirituais da Quaresma deveriam aperfeiçoar esse modo de ver. Se nos tornarmos apegadas a elas por elas próprias, ou se desistirmos delas porque nos entendíamos, ou se não conseguirmos recomeçá-las no momento certo, elas naturalmente não poderão mais ter mais esse potencial.

Laurence Freeman OSB

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Sábado da segunda semana da Quaresma (06/03/10)

A oração é deixar os pensamentos de lado – assim nos ensina a sabedoria dos antigos mestres da oração. Se isto significasse "apagar" a mente ou um estado geral de inconsciência, poderíamos encontrar outras maneiras de fazê-lo. Os “pensamentos” a que eles se referem têm dois níveis. Primeiro a pantomima aleatória da mente - fragmentos de memória, flashes de fantasia, auto-acusação, auto-glorificação, devaneio ou resolução de problemas. Tudo isso pertence ao estado natural da atividade mental, como as ondas na superfície do mar. O segundo significado de "pensamentos" se refere aos estados latentes de negatividade. Estes variam de luxúria e ira ao orgulho e ganância. É o que os monge do deserto chamam de “paixões”.

Pensamentos aleatórios deixados livres e indisciplinados vagueiam no espaço desordenado de nossa mente. Eles podem desencadear uma única ou uma combinação destas paixões. Então, deixar de lado os pensamentos significa tanto controlar a atividade cerebral aleatória quanto, se necessário, lutar contra a força das paixões. Não há muita vida espiritual sem estar preparado para isso. O mantra é projetado para fazer este trabalho porque o trabalho deve ser simples, profundo e sincero. Você não abandona os pensamentos pensando sobre eles.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da segunda semana da Quaresma (05/03/10)

Todos nós temos tarefas que gostamos e algumas outras que tentamos evitar. Muitas vezes essas preferências e aversões são bobas, totalmente subjetivas e irracionais, e por isso não gostamos de torná-las públicas. Um bom jardineiro talvez ame preparar o solo para a semente, mas sempre tenta evitar o plantio. Um bom cozinheiro pode amar cozinhar, mas talvez odeie fazer a apresentação do prato.  Um assistente de escritório pode gostar de tirar xerox e odiar grampear as cópias.  Talvez isso se deva ao fato de não nos sentirmos aptos para alguma tarefa especifica ou por termos tido alguma experiência desagradável que, mesmo acontecendo uma única vez, deixou uma marca negativa. Apesar disso, na maioria das vezes, nós aceitamos fazer coisas que não gostamos somente porque essas coisas precisam ser feitas e a integridade de todo o trabalho depende delas.    Em algumas ocasiões nossos momentos de oração podem ser assim também. Existe sempre alguma outra coisa que poderíamos estar fazendo a qual proporcionaria resultados não só mais rápidos como também mensuráveis.   O sentimento de medo, que é elemento básico da oração na maior parte do tempo - e que só é transformado pela alquimia da fé - pode nos fazer vacilar em relação à disciplina. A quaresma não é especificamente um tempo para fazermos coisas que não gostamos. Isso seria muito negativo. Antes, é um tempo para abraçarmos a integridade do “agora da vida” e para reconhecermos que algumas coisas são necessárias, mesmo que elas sejam inconvenientes ou que estejamos inclinados a postergá-las.  Surpreendentemente, nós com muita freqüência aprendemos a amar  aquilo que uma vez tentamos  evitar.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da segunda semana da Quaresma (04/03/10)

O Evangelho de hoje, sobre um homem rico e um homem pobre – Lázaro - exorta-nos a fazer uso completo de todo o tempo que temos. Budistas com sua noção de tempo cíclico aconselham a sermos gratos por termos nascido na forma humana. Cristãos com o seu sentido de tempo linear deveriam ser mais atentos e agradecidos pelo dom da mortalidade.

Ele (o evangelho de hoje) foca a mente maravilhosamente para lembrar como o tempo é curto. O homem rico, que sofre depois de sua morte por causa de sua negligência pelos pobres, deseja que tivesse agido de forma diferente e gostaria de alertar seus parentes - um sinal de que ele não é totalmente sem compaixão. Mas, com certo senso de humor ao contar a parábola, Jesus salienta que, retrospectivamente, advertências não são muito úteis. Precisamos ver o significado de nossa experiência agora, enquanto viajamos através das paisagens em mudança em nossas vidas. Uma das oportunidades de Quaresma é lembrar que viver o momento presente e estar aberto ao seu potencial infinito é mais importante do que lembrar os nossos erros do passado.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da segunda semana da Quaresma (03/03/10)

Os temas revelados durante os rituais de três dias de Páscoa, não são menos do que os principais elementos do sentido da vida. No mundo antigo “os mistérios de Elêusis” eram cerimônias de iniciação, para o culto de Deméter e Perséfone, que prometiam algum tipo de divinização aos que participassem.  Eram ritos secretos com raízes na pré-história da religião. Sócrates se recusou a participar porque a ele não seria permitido falar sobre o conhecimento que ali adquirisse. (era expressamente proibido aos participantes falar sobre a cerimônia ou os rituais). Como em todo ritual religioso sério, a preparação dos participantes se fazia necessária. A Quaresma é nossa preparação e a Páscoa é o nosso mistério.

Um dos temas do Mistério Pascal é o da traição. Jesus foi traído não somente por Judas, mas de certa forma por todos aqueles aos quais ele tentou ensinar. Isto não e incomum.  Mas a maneira de Jesus lidar com a traição foi extraordinária.

O tema da traição é mais profundo do que parece. É claro que, aprender a lidar com a traição ou com esperanças frustradas – sem nos tornarmos paranóicos e reconhecer nossa própria culpa - faz parte da maturidade. Deveríamos estar atentos a isto. E esse período de atenção da quaresma pode nos ajudar.  A meditação nos mostra como a própria mente pode nos trair. Mas mais ainda, nós deveríamos estar nos preparando para o grande tema: o mistério pleno que ate mesmo a maior traição é redimida.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da segunda semana da Quaresma (02/03/10)

Se a humildade fosse apenas uma versão ligeiramente concentrada de modéstia isso não iria representar nenhum grande desafio para nós. Jesus, entretanto, torna desconfortavelmente claro que é muito mais do que isso. “Não chamem ninguém na terra de mestre, porque vocês têm apenas um mestre... Quem se exaltar será humilhado, mas quem se humilhar será exaltado”.

Não há muita margem de manobra para o ego, ao cumprir seu papel, ignorando o espírito. Humildade é tão radical quanto puder ser. E assim ela transforma todas as estruturas de poder em que nos encontramos. Se tivermos poder sobre os outros, embora benevolentemente, ou se nos sentirmos subordinados à influência de outros, a mensagem é a mesma. No espírito somos todos revolucionários. Porque há apenas um mestre, somos iguais e não podemos fugir a isso, nosso verdadeiro eu, no desempenho de papéis, de gênero ou religiosos.

Na meditação a libertação de todos os sistemas de poder em que o ego tem um papel é o objetivo revolucionário. Quando isso é alcançado nos tornamos livres.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da segunda semana da Quaresma (01/03/10)

Humildade é importante. Atualmente não é um valor cultural importante, já que estamos em uma era de celebridades e auto-expressão. O mundo em que vivemos pode nos ajudar a entender melhor o que é humildade, ao nos mostrar o que  não é. Você poderia, por exemplo, ser famoso e humilde, embora o desejo de ser famoso talvez o impeça de ser humilde. Você poderia ser um grande artista ou um “blogeiro” e ser humilde, todavia estas atividades poderiam absorver tanto seu tempo que você esqueceria quem realmente é. Humildade é essencialmente auto-conhecimento. Isto é importante porque saber quem você é essencialmente – e não somente pelos olhos de outras pessoas ou ainda pelo prisma de nosso ego – é condição para se conhecer a Deus. Só podemos conhecer a Deus através de um processo de não-conhecimento- abandonando as tentativas de aprisioná-lo e medi-lo. Essas tentativas geralmente nos levam aos  falsos deuses. O não-conhecimento (o caminho da meditação) é ‘deixar os pensamentos de lado’. É como se desnudar. Como quando vamos a um exame médico e nos pedem para tirarmos a roupa. Isto pode nos deixar inicialmente envergonhados e desconfortáveis, sentados ali vestindo “aquela camisola pela metade” (que nos deixa mais nus do que vestidos) esperando a vez de ser examinado. Se sentir meio bobo  também  faz parte da fase inicial da meditação. Estarmos como Deus nos criou, vestindo só o que vestíamos quando viemos ao mundo, é meditação. A palavra humildade se origina do latim “húmus”, que significa terra. Reserve hoje alguns momentos para olhar o solo, seja num parque, num vaso de planta ou num monte. Especialmente quando a primavera chega ao hemisfério norte- ou com a fecundidade do solo nos Trópicos- você talvez tenha um “insight” de quão fértil a humildade é com seu jeito “pé no chão”, na sua falta de pretensão e auto engano.

Laurence Freeman OSB

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Segundo Domingo da Quaresma (28/02/10)

Transfiguração. Jesus subiu a montanha com seus três discípulos mais próximos para orar. Lá - enquanto os discípulos lutavam para ficar acordados - ele foi transfigurado em luz.

Um budista tibetano com seu conhecimento do continuum mente-corpo tem pouca dificuldade para aceitar a história literalmente. O ocidental moderno tende a buscar o significado metafórico. Mas se tudo no mundo material e mental é, em certo sentido, uma metáfora de uma realidade que não podemos compreender, mas apenas encontrar e se unir com aqueles transformados por ela, a diferença é tão grande?  A questão não é apenas refletir sobre o que aconteceu, mas ver que ela nos mostra algo de nosso próprio destino e potencial incompreensíveis. Hoje vou estar com uma família cujo filho de 21 anos de idade morreu em um trágico acidente há dois anos. A experiência do tempo não diminui a dor da ausência, mas algo muda. A vida flui, e cada dia tem as suas distrações, mas um processo mais profundo se desenrola. O luto é algo que faz parte da transfiguração da consciência humana. Quando Jesus transfigurado "falou" com Moisés e Elias, ele estava falando sobre sua morte próxima, estado de luto para o que viria a seguir. Não podemos fazer com que a vida tenha sentido sem esse horizonte.
 
Laurence Freeman OSB

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Sábado da primeira semana da Quaresma (27/02/10)

Na cultura ocidental nós sabemos tudo sobre imagem. Uma boa imagem projeta e vende qualquer coisa por um tempo. Se a imagem perde o brilho ou a cor, podemos criar uma nova imagem, "repaginar" a si mesmo ou o produto de alguém. Sabemos que nem todo mundo é tão bonito quanto os modelos que nos vendem roupas ou nos fazem escolher o lugar onde passaremos nossas próximas férias. Sabemos que a auto-apresentação dos políticos como sinceros, abertos e preocupados é provavelmente um conceito da equipe de relações públicas.

Esse conhecimento sobre a maneira como nosso mundo funciona, nos leva a um cinismo generalizado, a uma profunda falta de confiança, frequentemente combinada com um senso relutante de dependência naquilo em que nós não acreditamos.A presença da hipocrisia na religião, exposta e  criticada severamente por Jesus, tem também nos tornado mais desconfiados de homens (ou mulheres)  vestindo longas togas nos dizendo como Deus quer que sejamos.

Ao mesmo tempo nosso ceticismo mundano tem aberto a porta para uma experiência contemplativa  diante da qual nos deparamos confusa e hesitantemente. Esse é o único caminho a se seguir. Não podemos voltar ao conforto da  ingenuidade na qual vivíamos anteriormente. Mas dar esse passo inicial em direção ao espaço espiritual e maneira de viver- parece muito arriscado.

Damos esse passo quando abandonamos todas as imagens, apesar de atraentes, interessantes e imperfeitas, para descobrirmos que nós mesmos somos a imagem que procuramos. Nós somos o ideal que projetamos em direção aos outros com cada vez menos convicção. Nosso verdadeiro eu é a imago dei, o ícone vivo de Deus, a coisa que é real. Nós não temos que procurar muito longe. A boa noticia é que: procurar por isso já é achar. Na verdade não precisamos nem procurar por isto. Nós temos somente que nos aquietar.
Aquietar-nos é algo em que poderíamos gastar mais tempo  durante a quaresma.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira da primeira semana da Quaresma (26/02/10)

Uma das pragas do Egito foi a escuridão que cobriu a terra e era “tão espessa que se podia sentir”. Uma vez eu recebi uma carta de alguém que eu não conhecia que estava presa numa negra depressão como aquela. Ela censurava a mim e a comunidade por não ajudá-la em seu horror. Estava claro que ela estava em profunda dor e angústia. A sua raiva era uma forma de descarga. Quando procurei saber melhor, descobri que várias pessoas da comunidade já tinham passado um bom tempo ouvido-a. Ainda que não fossem terapeutas estenderam, amigavelmente, a mão para ela no seu terrível isolamento. Obviamente a pobre mulher já havia esquecido e não conseguia dispersar a densa escuridão que a cercava. Como num buraco negro onde a luz não entra nem sai, sua escuridão parecia definitiva. Ela apenas conseguia sentir a espessura da escuridão, o eclipse de todo amor e esperança.

A estúpida recusa do faraó a deixar os israelitas saírem, foi momentaneamente abalada pela praga da escuridão, mas quando Moisés esticou muito a barganha ele recuou e recusou novamente. Foi a praga seguinte, a morte do primogênito que finalmente mudou sua decisão. Na vida interior também a morte do antigo ego é um destino melhor do que o prolongamento de uma meia vida na densa escuridão.

A meditação é uma aceitação da morte e quando a morte é aceita ela nos impulsiona para uma forma de vida mais intensa.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira da primeira semana da Quaresma (25/02/10)

Eu estava observando uma grande árvore madura sendo removida por um grupo de trabalhadores. Eles haviam cavado uma trincheira larga e profunda em torno de suas raízes. Provavelmente algumas raízes foram cortadas ou feridas, mas havia algumas intactas, suficientes para garantir a sua sobrevida. Dava a impressão de se estar no meio de uma operação, o paciente passivo, vulnerável e despido de toda dignidade. Os homens estavam suspendendo com suportes que se cruzavam sob a árvore ao se prepararem para deslocar aquele objeto milagroso da criação para a caçamba do veículo.

A prática religiosa ou espiritual que não é radical – visando a atingir as raízes de nosso ser – é um mero remendo. Pode acalmar um pouco a mente e nos consolar dos infortúnios da vida – o que não é pouco – mas seu maior objetivo é a conversão radical.

O paradoxo é que a grande transformação que sofremos, progressivamente, na meditação assemelha-se a uma convulsão e uma perda total – uma entrega total para nada receber. Entretanto a realidade é que se trata de descobrir e ganhar algo que a nossa imaginação não pode depreender. Parece uma remoção e um desarraigamento, mas é de fato uma volta ao lar e uma personificação. A Quaresma é um tempo para sintonizarmos nesse paradoxo em preparo para o paradoxo pascal definitivo de morte e ressurreição.

Laurence Freeman OSB

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Quarta-feira da primeira semana da Quaresma (24/02/10)

Se o pecado fosse apenas uma quebra de regras seria muito mais fácil ser bom. Nós poderíamos mudar as regras ou jogar bandido e mocinho com nós mesmos. A percepção moral mais poderosa da fé cristã – aquela que ainda não penetrou nas mentes e corações de muitos cristãos – é que o pecado não se trata de comportamento ilegal, de quebra de decretos divinos. E desta forma se associa não com a punição, mas apesar dela - a palavra é “graça”. Significa receber um presente realmente gratuito (sabemos o que isso significa no varejo) que achamos que não merecemos. O mais próximo que chegamos a esta experiência é quando percebemos que alguém realmente nos ama. - "o quê, eu, eles devem estar loucos?" Bem, Deus é um pouco louco, do nosso ponto de vista. “A Nuvem do Não-saber” diz que a prática da meditação "seca a raiz do pecado em nós". Também diz que o pecado é sentido como uma espécie de  caroço pesado em nós. O senso de separação, de estar fechado em si próprio, de achar que é difícil sermos nós mesmos, de fazer o que se preferiria não fazer, de inadequação ou indignidade. Quem quer enfrentar tudo isso? Por que não ficar na superfície das coisas e seguir com a vida e fazer um pouco de bem para os outros ocasionalmente?  Tente. Isso não funciona.  Algo – chame-o de “graça”, também, se você quiser – nos leva a desmontar, desenraizar e demolir este senso muito enraizado de falta de amor que é a causa de toda a desumanidade em nosso mundo. A Quaresma é um tempo em que podemos nos permitir a indulgência de focar neste trabalho e perceber que ele não é centrado em si mesmo como a mente cotidiana nos diz, mas precisamente o contrário. O sinal de que estamos fazendo este trabalho é que nós não recriminamos a nós mesmos ou a outros pelos fracassos e enganos. Nos tornamos menos julgadores, agindo como se soubéssemos tudo, como se fôssemos Deus. Tornamo-nos mais nós mesmos, o que é mais compassivo e tolerante. Mais como Cristo.

Laurence Freeman OSB

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Terça-feira da primeira semana da Quaresma (23/02/10)

Jesus diz claramente aos seus seguidores para não fazerem alarde de sua autodisciplina – na realidade, devem esconder o fato de estarem jejuando. Este aviso nos faz lembrar como é fácil nos tornarmos rainhas do drama até mesmo na vida espiritual. A relação entre o que realmente sentimos e o que demonstramos que estamos sentindo é normalmente obscura. Apertamos os dentes porque estamos zangados ou para mostrar que estamos? Esse é um um problema que não incomoda o tigre que persegue sua presa. Mas nós nos preocupamos com a verdade e com a integridade, precisamente porque muito facilmente perdemos o fio da meada e sentimos que nos perdemos de nós mesmos ao fazer isso.

A sensação de que não estamos sendo nós mesmos é profundamente perturbadora e nos deixa infelizes. Auto-dramatizar pode ser uma etapa na descoberta do nosso eu verdadeiro - (e, portanto, de Deus), mas não é o final da partida.  Na meditação, nos despojamos do dramatismo externo e ainda que durante algum tempo tenhamos que testemunhar a interminável representação de um papel e o constante rebobinar de fitas emocionais e reações do ego, sabemos no fundo que não estamos jogando nenhum jogo. Na meditação, não há simulacros.

Talvez seja por isso que sentimos que a meditação nos muda profundamente, ainda que “nada aconteça.’’  Talvez também seja por isso que meditar sozinho de manhã e de noite – como a maioria de nós precisa fazer – e meditar com outros – como em um grupo semanal – sejam práticas mutuamente instrutivas. Se o ego está aquietado pelo silêncio, quando estamos com outras pessoas, elas não são um público para quem interpretamos, mas uma comunidade com quem rezamos e com quem nos reunimos.

Laurence Freeman OSB

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Segunda-feira da primeira semana da Quaresma (22/02/10)

Um dos Padres do Deserto disse que o dom do auto-conhecimento é mais valioso do que o poder de fazer milagres. Ainda que sejamos meio céticos quanto aos milagres hoje – mesmo vivendo na era do milagre tecnológico –  também meio que esperamos por um evento extraordinário ou uma intervenção que mude tudo para nós.  Ganhar na loteria, o surgimento de um par perfeito, o trabalho certo. Talvez para as pessoas modernas o entretenimento em uma escala de massas tenha substituído a preocupação dos nossos ancestrais com milagres. Mas o auto-conhecimento não é sobre uma fantasia. Ele nos muda e muda a nossa percepção da realidade do dentro para fora. É irreversível e representa na realidade o que chamamos de “crescimento”. Também não é sobre passividade. O auto-conhecimento não acontece simplesmente. Precisamos desejá-lo e desejar desejá-lo e depois trabalhar para tanto. A meditação é uma afirmação disso, um compromisso pessoal com essa dimensão espiritual da realidade. A Quaresma existe para ajudar-nos a atualizar esse compromisso e a estar abertos para a graça que completa o trabalho que precisamos fazer.

Laurence Freeman OSB

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Primeiro Domingo da Quaresma (21/10/10)

Você não precisa acreditar na figura mítica do diabo – uma composição de sombras psicológicas e da força coletiva da escuridão - para entender o que significa tentação. Quando Jesus “foi levado ao deserto para ser tentado”, ele enfrentou tudo isso - a sedução do poder, a auto-suficiência, vaidade, tudo o que ego instintivamente prefere e vê como um meio de sua auto-preservação. Resistir à sedução da ilusão demanda o risco consciente de optar pelo real. É o jejum das falsas consolações de todos os substitutos da realidade. O deserto é um lugar onde podemos fazer isso porque sua simplicidade minimiza a distração, a floresta de distrações na qual o irreal facilmente se esconde e reagrupa suas forças. Cada período de meditação nos permite sermos levados para o deserto. Às vezes, há a luta com as distrações e o ego. Mas às vezes, de forma inesperada e pela graça, o deserto floresce com todas as cores e fragrâncias frescas do nosso encontro com o real.

Laurence Freeman OSB

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Sábado após quarta-feira de Cinzas (20/02/10)

 “Não são aqueles que estão bem que necessitam de médico, mas os doentes”. A Igreja primitiva pensava em Jesus primariamente como um médico mais do que como juiz. A forma com que pensamos em Jesus é influenciada por – e em formas de poder transformar – a forma como vemos a nos mesmos.  Ou nos sentimos como se estivéssemos infringindo as regras, aquém da perfeição ou como se pudéssemos a qualquer momento fazê-lo. Uma variação disto ocorre quando rejeitamos qualquer noção de autoridade além de nós mesmos e ignoramos uma espécie de Deus que não existe realmente. Ou nos vemos como peregrinando a uma plenitude que nos dá o máximo significado redentor para cada aspecto da nossa experiência através de um terreno diário de cura, com seus picos de visão sublime e seus vales de desânimo. As mãos que curam, ajudam, cuidam e amam não são apenas uma alternativa consoladora para a mão de ferro do juízo e condenação. É a realidade. Quanto mais profundamente penetramos nos domínios do coração – esta é a peregrinação da meditação diária que permeia toda a nossa experiência – mais convincentemente reconhecemos que é isso que realmente encontramos e que nos encontra no silêncio de nossa própria verdade.

Laurence Freeman OSB

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Sexta-feira após quarta-feira de Cinzas (19/02/10)

Uma vez alguns fariseus perguntaram a Jesus porque os seus discípulos não jejuavam. Sua resposta foi que não se jejua quando o noivo está presente. Quando a festa acabar, aí você pode jejuar. O que é jejum? Isso significa que a festa acabou durante a Quaresma? (exceto aos domingos – já que algumas tradições cristãs suspendem o jejum no dia da Ressurreição).    

O jejum é um auto-controle balanceado e uma livre auto-dedicação a moderação. Não se trata de infligir dor em si. Mas se estamos vindo de um lugar de excesso ou ilusão, a viagem de volta ao equilíbrio e à realidade não será fácil. A nossa crise econômica atual nos diz isso claramente. Mas o que acontece com os momentos festivos da vida? A religião não fala freqüentemente sobre dor e sofrimento? E a diversão? Mesmo que você tome um comprimido de ecstasy todos os dias e dance a noite toda, todos os dias, a diversão se esvai e cobra o seu preço. Os efeitos dos danos cerebrais seriam o preço da diversão sem fim.

Existem dois níveis trabalhando nisto. Primeiro, a vida tem um espectro de prazer, banalidade e dor. O ciclo ao redor do qual ela gira é variável, e embora possa ser influenciado - viver sabiamente aumenta a felicidade - não pode controlar totalmente o futuro. O outro nível é a dimensão espiritual em que a felicidade incondicional do Espírito absorve e transforma a dor. Lá realmente a festa dura para sempre. A Quaresma nos treina através da maior plenitude da mente a trazer estes dois níveis a um melhor relacionamento. Eles podem não ficar permanentemente unidos, mas ao menos os efeitos do relacionamento melhorado - a clareza, o equilíbrio, a felicidade, a flexibilidade e liberdade -  serão realmente experimentados e compartilhados.  Assim, talvez Jesus quisesse dizer que o noivo está e não está aqui. Na vida interior a Quaresma não é apenas quarenta dias. Se isso parece não fazer sentido para nós, mantenhamos a nossa meditação diária mesmo assim.

Laurence Freeman OSB

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Quinta-feira após quarta-feira de Cinzas (18/02/10)

Então ele disse a todos: “Se alguém quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz diariamente e siga-me. Porque quem quiser salvar a sua vida irá perdê-la; mas quem sacrificar a sua vida por meu amor, irá salvá-la. De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se e causar a sua própria ruína?” (Lc 9)

Na Quaresma, trabalhamos com a plenitude da mente e a interioridade, com bons pensamentos e compaixão para os outros, para tornarmo-nos mais familiarizados com este paradoxo central da existência humana. Através da renúncia nós atingimos uma grande integração. O todo é atingido mais diretamente pela renúncia. O ego é profundamente pulverizado ao entrar neste paradoxo. “Seguramente o todo deve vir pela aquisição e pela garantia do que temos?”, ele questiona.

No coração deste conhecimento está o mistério da morte. Nosso medo de morrer paralisa nossa iniciativa de tornarmo-nos mais plenamente vivos. Começamos a nos libertar desta ignorância endêmica através do entendimento da graça do perdão.

A disciplina da Quaresma se torna facilmente egocêntrica se não for temperada por esta graça – que começa e cresce somente quando é primeiramente aplicada a nós mesmos. Para aceitar e abraçar nossas próprias imperfeições, para amar a nós mesmos como somos e não como se fôssemos um ídolo formado pelo perfeccionismo – devemos perdoar a nós mesmos. Uma vez que o fazemos, a graça flui mais facilmente para todos os nossos relacionamentos e daí para diante, profundamente, em nossa vida. O bálsamo curativo da reconciliação restaura nossa mente ferida para a força e claridade necessárias para renunciar a nós mesmos, para focar a luz da consciência fora de nós mesmo. Para o amor.

Nós então enxergamos melhor a diferença entre desejo e necessidade, fantasia e realidade. Deslocamo-nos para a obediência à grande lei de renúncia ao invés de lutar contra ela com uma falsa idéia de sacrifício. A meditação desperta e aplica esse conhecimento puramente e na menor e mais simples parte de nossa existência. É o que é meditação. E a verdade experimentada mais profundamente do que o pensamento em meditação gradualmente torna-se mais do que uma idéia. Torna-se um modo de vida, uma forma de viver plenamente.

Laurence Freeman

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Quarta-Feira de Cinzas (17/02/10)

O mundo cristão começa hoje seus quarenta dias de preparação para os Mistérios da Páscoa, ecoando muitas passagens da Bíblia e do Alcorão, tais como o número de dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, e os quarenta anos do Êxodo. De um ponto de vista simbólico, significa um período de tempo estimativo ou numeroso. Trata-se do número médio de semanas da gestação.

Como meditantes, podemos encarar a prática a que nos entregamos duas vezes ao dia, durante a Quaresma, como uma feliz oportunidade de aprofundamento e esclarecimento e, como um reinício da peregrinação ao centro do coração. Poderíamos também adicionar outro período de meditação, quando possível, ou mesmo um período mais curto de imobilidade silente lá pela metade do dia. Para os principiantes, este é um estratagema útil para fazer com que o ego se empenhe em uma prática que sempre representa uma disciplina desafiadora, especialmente no início.  A determinação de um período para nos dedicarmos à prática, nos confere um objetivo de curto prazo que poderá produz ir um hábito bom que será apreendido para toda a vida.

A Quaresma é um período para refletirmos, através da escritura e de outras leituras, sobre o significado da vida, como jornada espiritual. Cada um deveria escolher cuidadosamente o que ler: tomar por exemplo um dos evangelhos para ler durante toda a Quaresma, de modo a se familiarizar com ele e com um dos textos chave da tradição de meditação que seguimos: como por exemplo o livro de John Main “O Caminho do Não Conhecimento”.

Assim, em vez de  encará-lo como um período em que nos privamos daquilo de que gostamos, ainda que um pouco de auto refreamento também não nos faria mal, poderemos encará-lo como um período para a apreciação de um rico cabedal de ferramentas espirituais que temos à nossa disposição para nos manter alertas e zelosos na arte espiritual.  Se você recebeu as cinzas em sua fronte hoje e ouviu as palavras “lembra-te que és pó”, o lembrete de nossa mortalidade pode aguçar nossa apreciação e desfrute do dom precioso da vida e da consciência humana.

Laurence Freeman OSB

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Os textos estão sendo gentilmente traduzidos por nossos amigos: Marcelo Melgares e Márcia Orantas (RS), Edith Vargas (RJ), Monica Alvarez (RJ), Carlos Eduardo Miranda (RJ), Alessandro Akil (RJ) e Evangelina Oliveira (RJ).

Comunidade Mundial de Meditação Cristã