Domingo de Páscoa (04/04/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira Santa (02/04/10) Os primeiros gnósticos não se permitiam imaginar como o sofrimento e a morte poderiam estar relacionados a Deus. O dualismo deles mantinha estes dois mundos rigidamente separados. Os primeiros cristãos só poderiam ver a espantosa epifânia da cruz como uma indicação do destino humano, no qual “todos os mundos” estão unidos na gloria de Deus. A cruz tipifica tudo o que nós queremos manter afastado ou que negamos: humilhação, dor, rejeição e mortalidade. Ficamos sem fôlego ao compreender que esta humilhação – um desfecho lógico da humildade de Deus na própria encarnação – torna acessível a nós tudo aquilo que perseguimos e que queremos abraçar. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira Santa (01/04/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarta-feira da Semana Santa (31/03/2010) À medida que chegamos ao limiar dos Mistérios da Páscoa, deveríamos fazer uma avaliação sobre o que a Quaresma significou para nós este ano e refletir se nos preparou para entender com mais profundidade os significados que novamente vamos explorar. Para nos aprofundarmos mais no significado, precisamos deixar de lado nossa descrença e nos abrir para a nossa experiência, até mesmo – na verdade, especialmente – quando a nossa experiência parece incompreensível. Existe um plano ou um padrão no cosmos em que Cristo forma um ponto de convergência e Iluminação central? São Irineu chama isso de “Recapitulação” de todas as coisas em Cristo significando um resumo, repetição e correção de tudo o que existe e que acontece “em Cristo”. Mas antes que a visão do todo em escala cósmica entre em foco precisamos de algum modo responder essa pergunta desde a perspectiva da nossa própria vida. Esperamos que a Quaresma nos tenha tornado mais sensíveis para esse nível de verdade e de auto-conhecimento. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terça-feira da Semana Santa (30/03/2010) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da Semana Santa (29/03/2010) Nós não costumamos associar paciência e paixão. Reconhecemos que a paciência é uma virtude e até vemos que a impaciência é uma forma de raiva, que muitas vezes irrompe sob forma de violência. Mas provavelmente achamos que a paixão é uma qualidade mais heróica e atraente, embora ela também possa turvar o julgamento e levar a um comportamento irracional. No nosso comportamento, muitas vezes, oscilamos entre as duas. A paciência parece ser uma forma de menor energia e a paixão um estado mental mais intenso e concentrado. Mas quando consideramos a Paixão de Jesus e sentimos a força do ela diz sobre nós mesmos, podemos ver essa questão de forma bem diferente. A raiz de “paixão” e de “paciência” é a mesma palavra, e sugere uma verdade de grande importância. A paciência envolve enfrentar o sofrimento inerente à vida – atravessar aquilo que precisa ser passado. Mas a paixão - concentração intensa - também é necessária para sustentar esse movimento e conseguir completá-lo. Uma paixão paciente pode ser o tema que abre para nós algumas das profundezas do significado nos próximos dias. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Domingo da Paixão (28/03/2010) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sábado da quinta semana da Quaresma (27/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira da quinta semana da Quaresma (26/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira da quinta semana da Quaresma (25/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarta-feira da quinta semana da Quaresma (24/03/10) Nós somos rápidos em passar adiante nosso julgamento a respeito dos outros, e nossos comentários sobre as outras pessoas normalmente enfocam o que – naquele instante – nós achamos atraente, repulsivo, inspirador ou irritante a respeito daqueles a quem julgamos. Nós não relutamos em passar adiante estes julgamentos sumários a terceiros que não conhecem as pessoas em questão. Quando descobrimos que nós mesmos fomos “embalados e entregues” da mesma forma que fizemos, nós nos revoltamos ( ou nos sentimos lisonjeados ) pela parcialidade e falta de sutileza. Único como cada ser humano é, cada um de nós é sagrado. Isto significa que qualquer coisa que dissermos a respeito de outra pessoa será aquém da verdade, da mesma forma como qualquer coisa que dissermos a respeito de Deus será inadequado. O mistério da realidade reside na sua inteireza. Somente a totalidade pode adequadamente representar a totalidade. Aí reside a sua verdade. Isto explica porque o silêncio - compassivo, atento, perspicaz e humilde - é tão necessário como base e meio de toda nossa comunicação e compreensão. Assim como tentaremos entender o significado de Jesus nesses próximos dias – tendo tentado entender a nós mesmos um pouco melhor durante estas últimas semanas – nossa meditação será como sempre nossa melhor professora. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terça-feira da quinta semana da Quaresma (23/03/10) Este é um bom período, ao final da Quaresma, para refletir sobre o que nos foi ensinado neste período, este ano. Se realizamos uma pratica especial ou abraçamos alguma forma de autocontrole, fomos fieis até o fim? E em que contribuiu para nos tornar mais livres e focados? Se tivermos nos saído bem, nos sentimos um pouco mais satisfeitos? Acima de tudo, sentimos maior clareza de mente e de coração, nos sentimos mais preparados para os mistérios mais profundos dos próximos dias? Mesmo se sentimos que não aproveitamos totalmente esta oportunidade que a Quaresma nos oferece para simplificação e purificação de nossa consciência, o que podemos fazer para nos sintonizarmos na nova melodia, tanto da escuridão como da claridade, que em breve iremos ouvir? Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da quinta semana da Quaresma (22/03/10) A prática espiritual consiste em ver o que temos que perder, perdendo-o complacentemente e reconhecendo que estamos sendo levados a colocar outra coisa em seu lugar. Toda perda é penosa, vergonhosa, frustrante ou enfurecida. Lembre-se de como se sente quando você perde sua mala depois de um longo vôo e que o serviço ao cliente mais parece inclinado a lhe tripudiar do que ajudar a encontrá-la. Como é fácil e tentador permitir que estados negativos da mente tomem conta e permitam que o ego - que registra todas as perdas como uma afronta pessoal - ocupe espaço e comprometa seu julgamento. Toda perda, por menor e temporária que possa parecer, desperta ecos de todas as perdas anteriores de nossas vidas: esta é a razão pela qual nós tão facilmente reagimos exageradamente. A meditação e o autocontrole estão entre as práticas da Quaresma que têm mais valor e energia na vida cotidiana porque nos fortalece para enfrentar a primeira onda de sentimentos negativos e para recordar que por menor ou maior que seja a perda vai se seguir o encontro – tão certo quanto a ressurreição segue a morte. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Domingo da quinta semana da Quaresma (21/03/10) ......................................................................................................................... Sábado da quarta semana da Quaresma (20/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira da quarta semana da Quaresma (19/03/10) Você está jantando com um grupo durante a Quaresma e chega a hora da sobremesa. Você tinha resolvido não comer sobremesa, como parte de sua prática quaresmal. De repente, isso parece um pouco infantil e, além do mais, é a sua sobremesa preferida. Ainda assim... Aí você vê vários outros recusarem a sobremesa. Talvez eles estejam fazendo dieta, talvez jejum - talvez até um pouco das duas coisas, pois a motivação humana é sempre mista. De qualquer forma, você se sente fortalecido pelo exemplo deles, humilhado por sua própria fraqueza, e pronto para recomeçar. Essa é a história da vida espiritual, nunca perfeita, sempre redimível. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira da quarta semana da Quaresma (18/03/10) Os quarenta dias da Quaresma nos preparam para o intenso mistério que vivenciamos nos três dias da Páscoa. Para que esta iniciação no mistério de Cristo tenha efeito precisamos sentir uma identificação intuitiva com Jesus. Como definiu São Leão Magno: “A verdadeira reverência pela paixão do Senhor é fixar os olhos do nosso coração em Jesus crucificado e reconhecer Nele a nossa própria humanidade”. Primeiro, temos que ser capazes de ver com os olhos do coração, que são facilmente turvados por qualquer forma de excesso – por exemplo, ansiedade demais, tempo demais ao computador ou mais comida daquela que realmente precisamos. Portanto, a Quaresma bate na tecla da moderação que inicia o processo de purificar o coração para que ele possa ver. Então, usamos o poder da visão para olhar, para concentrar nossa atenção na experiência que Jesus vivenciou. Entender o significado do sofrimento é uma aspiração universal. Só nesta etapa é provável que haja um senso de identificação. Não é apenas uma projeção imaginária ou psicológica que nos mantêm no centro da situação. É preciso reconhecer a “nossa própria humanidade”, diz São Leão, e isso significa uma consciência que nasce de um todo recém-descoberto. Algo há muito tempo familiar de repente se torna extraordinariamente novo. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarta-feira da quarta semana da Quaresma (17/03/10) São Patrício pregou o evangelho de perdão para as mesmas pessoas que o haviam escravizado na juventude. Ele passou da peregrinação para missão. Durante o processo algo se abriu e o libertou, e então ele se sentiu capacitado pelo poder do amor no lugar da amargura. Quando lemos a respeito da vida dos santos que, como ele, suportaram muitas dificuldades de inimigos e amigos e que continuaram, mesmo apesar disso, a louvar e a servir a Deus; pode ser que a gente fique um pouco cético de que não foi tão fácil como parece. Sem dúvida não foi fácil e houve momentos de dúvida, desânimo e fracasso. Mas como podemos ver em figuras como Nelson Mandela, Ghandi e Oscar Romero, o amor aos seus inimigos não é um ideal impossível. Para alcançar essa dádiva - a qual é, de qualquer forma, necessária para nossa paz de espírito – duas coisas precisam estar no lugar certo. Primeiro temos que saber que somos amados verdadeiramente como nós somos. E temos que ter a graça da resignação. Já na velhice São Patrício escreveu sobre sua vida com gratidão pela graça ao olhar para os tempos de “prosperidade e adversidade”. João Cassiano usa a mesma frase para descrever a fidelidade ao mantra ao atravessar altos e baixos da peregrinação interior. A peregrinação encarna a missão. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terça-feira da quarta semana da Quaresma (16/03/10) Quão diferente o mundo verde parece à luz do sol. O que uma afirmação de esperança como a Primavera mostra é que não se esqueceu de nós. É verdade que existe uma beleza em dias cinzentos e árvores nuas, mas continuamos a sentir que a primavera e o verão encarnam a verdade mais profunda e central da Vida. O resto é preparação e encerramento no reino do tempo. Aqueles que vivem nos trópicos têm diferentes lições em diferentes cores para ler o livro da natureza. Sua contínua floração ainda é parte do ciclo universal de morte e renascimento. Hoje, ao contrário de épocas passadas, podemos ler o livro simultaneamente em toda a sua diversidade global. Podemos ver e cheirar suas diferenças gloriosas. Este é um sinal da nova santidade do nosso tempo, uma espiritualidade de maior perspectiva e inclusão. Não admira que a Quaresma chegue ao limiar das estações. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da quarta semana da Quaresma (15/03/10) Um dos feitos do ego mais distorcidos é o de culpar os outros, de forma a nos proteger ou manter nossa imagem intacta. Como vemos na imagem de Adão apontando seu dedo para Eva e até mesmo no comportamento de crianças bem pequenas, deve ser um mecanismo de defesa profundamente entranhado. Ele nos leva a todo tipo de problemas, no mínimo tornar um inocente em bode expiatório. Biblicamente o deserto simboliza o local onde a simplicidade radical do meio-ambiente e a falta de elementos de distração permitem uma gradual perda de todas as projeções. Idolatrar ou endemoninhar são igualmente irreais. Na simplicidade nós primeiro nos encaramos para depois nos aceitarmos como somos e só então será possível assumir responsabilidade onde a temos. O primeiro passo é sermos honesto com nós mesmos. Por isto Jesus nos alerta contra qualquer tipo de encenação nas demonstrações religiosas. Mais fácil falar do que fazer; mas a meditação torna isto possível porque também ela é uma espécie de deserto de simplicidade radical e transparência. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarto Domingo da Quaresma –“ Laetare” (14/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sábado da terceira semana da Quaresma (13/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira da terceira semana da Quaresma (12/03/10) O Reino dos Céus não é apenas um lugar, mas um modo de estar apaixonado pela realidade. Jesus disse que é como um homem que tropeça em um tesouro enterrado em um campo. Mas, ele acrescentou, é também como um mercador procurando pérolas magníficas. Sorte e projeto. Graça e fé. Disciplina e liberdade. Prudência e espontaneidade. Aparentemente opostos, mas em realidade dois lados da mesma moeda que gira eternamente na quietude, aqui e agora, lá e sempre. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira da terceira semana da Quaresma (11/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarta-feira da terceira semana da Quaresma (10/03/10) Um velho homem com um olhar cada vez mais distante olha para você e diz que seu trabalho acabou, mas ele quer aprender a meditar. Uma criança com total confiança olha diretamente para você e depois fecha os olhos para meditar. Entre os dois e abraçando ambos está o espírito da Quaresma. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terça-feira da terceira semana da Quaresma (09/03/10) Neste estágio da Quaresma, já deveria estar mais claro quais os aspectos de nós mesmos que precisamos mudar para nos abrirmos, para deixarmos que o espírito trabalhe. Esse trabalho leva mais do que quarenta dias, mas a Quaresma pode fazer com que os focalizemos e até mesmo por nos tornarmos conscientes deles, já estamos produzindo mudanças. Um desses aspectos diz respeito ao perdão. Podemos "seguir adiante" de modo muito superficial, a partir de um momento de mágoa, de traição ou de perda. Sob a superfície, podemos permanecer apegados à raiva ou à tristeza. O perdão é mais do que conferir absolvição. Trata-se de entregar. A cura e a reconciliação estão na entrega, não uma vez, mas, como Jesus nos disse: "setenta vezes sete", ou seja, continuamente. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da terceira semana da Quaresma (08/03/10) A mãe de um garoto de dez anos foi surpreendida pela intensidade da disciplina do menino na Quaresma. Ele abriu mão do chocolate e quando ele recusou um “cookie” de chocolate, que ela cozinhou para ele e para as irmãs, ela ficou preocupada achando que ele estava levando o propósito muito a sério. Ela disse a ele que Deus não ficaria zangado se ele comesse um no domingo, dia em que é permitido suspender a disciplina. Também disse a ele para não ser muito intenso em relação a tudo isso e nem amedrontado de quebrar o compromisso e ter problemas. Ele olhou para ela meio surpreso e disse: eu sei que Deus não me puniria, mas isto é o que ele escolheu fazer e quis levar o seu propósito até o fim. Ela se sentiu tranqüila e talvez um pouco gratificada. Ele tinha acabado de fazer uma descoberta, a qual muitos de nós nunca fizemos ou de que facilmente nos esquecemos; que na disciplina, livremente escolhida, nós aumentamos o autoconhecimento e a auto- aceitação. A recompensa é uma expansão do coração e da mente e uma nova noção de nós mesmos em Deus. E isto compensa de longe o sacrifício de ficar sem “cookies”, mesmo aos domingos. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terceiro Domingo da Quaresma (07/03/10) As montanhas fascinam até mesmo aqueles que não gostam de alturas. Nas tradições religiosas, as montanhas se tornam lugares sagrados – de Horeb a Ularulu. Ao subir a cordilheira do Himalaia você pode ter um momento “blakeano” [de William Blake, o poeta] e ver brevemente os picos das montanhas como ondas, sólidas apenas em aparência, mas em realidade como todo o resto do universo, como energia que flui. Os cumes das montanhas são o ponto de encontro entre terra e céu, onde o que é visível e tangível toca e desaparece no etéreo e no transparente. Talvez Moisés no Horeb tenha tido uma experiência similar quando se aproximou da sarça ardente e o grande EU SOU se dirigiu a ele. Mas o sagrado se torna facilmente territorial, como a profana “Terra Santa” demonstrou. Na nova isenção da mente de Cristo nós não mais identificamos adoração com lugares sagrados (“esta montanha ou Jerusalém”, como disse Jesus à mulher no poço). A adoração agora é “no espírito e na verdade”. De súbito, nossa base para derramar sangue ou agir de modo injusto em nome da religião foi arrancada de nós. Caímos no mistério do Deus vivo e não na nossa imagem de Deus. Nossas práticas espirituais da Quaresma deveriam aperfeiçoar esse modo de ver. Se nos tornarmos apegadas a elas por elas próprias, ou se desistirmos delas porque nos entendíamos, ou se não conseguirmos recomeçá-las no momento certo, elas naturalmente não poderão mais ter mais esse potencial. Laurence Freeman OSB .........................................................................................................................
Sábado da segunda semana da Quaresma (06/03/10) A oração é deixar os pensamentos de lado – assim nos ensina a sabedoria dos antigos mestres da oração. Se isto significasse "apagar" a mente ou um estado geral de inconsciência, poderíamos encontrar outras maneiras de fazê-lo. Os “pensamentos” a que eles se referem têm dois níveis. Primeiro a pantomima aleatória da mente - fragmentos de memória, flashes de fantasia, auto-acusação, auto-glorificação, devaneio ou resolução de problemas. Tudo isso pertence ao estado natural da atividade mental, como as ondas na superfície do mar. O segundo significado de "pensamentos" se refere aos estados latentes de negatividade. Estes variam de luxúria e ira ao orgulho e ganância. É o que os monge do deserto chamam de “paixões”. Pensamentos aleatórios deixados livres e indisciplinados vagueiam no espaço desordenado de nossa mente. Eles podem desencadear uma única ou uma combinação destas paixões. Então, deixar de lado os pensamentos significa tanto controlar a atividade cerebral aleatória quanto, se necessário, lutar contra a força das paixões. Não há muita vida espiritual sem estar preparado para isso. O mantra é projetado para fazer este trabalho porque o trabalho deve ser simples, profundo e sincero. Você não abandona os pensamentos pensando sobre eles. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira da segunda semana da Quaresma (05/03/10) Todos nós temos tarefas que gostamos e algumas outras que tentamos evitar. Muitas vezes essas preferências e aversões são bobas, totalmente subjetivas e irracionais, e por isso não gostamos de torná-las públicas. Um bom jardineiro talvez ame preparar o solo para a semente, mas sempre tenta evitar o plantio. Um bom cozinheiro pode amar cozinhar, mas talvez odeie fazer a apresentação do prato. Um assistente de escritório pode gostar de tirar xerox e odiar grampear as cópias. Talvez isso se deva ao fato de não nos sentirmos aptos para alguma tarefa especifica ou por termos tido alguma experiência desagradável que, mesmo acontecendo uma única vez, deixou uma marca negativa. Apesar disso, na maioria das vezes, nós aceitamos fazer coisas que não gostamos somente porque essas coisas precisam ser feitas e a integridade de todo o trabalho depende delas. Em algumas ocasiões nossos momentos de oração podem ser assim também. Existe sempre alguma outra coisa que poderíamos estar fazendo a qual proporcionaria resultados não só mais rápidos como também mensuráveis. O sentimento de medo, que é elemento básico da oração na maior parte do tempo - e que só é transformado pela alquimia da fé - pode nos fazer vacilar em relação à disciplina. A quaresma não é especificamente um tempo para fazermos coisas que não gostamos. Isso seria muito negativo. Antes, é um tempo para abraçarmos a integridade do “agora da vida” e para reconhecermos que algumas coisas são necessárias, mesmo que elas sejam inconvenientes ou que estejamos inclinados a postergá-las. Surpreendentemente, nós com muita freqüência aprendemos a amar aquilo que uma vez tentamos evitar. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira da segunda semana da Quaresma (04/03/10) ......................................................................................................................... Quarta-feira da segunda semana da Quaresma (03/03/10) Os temas revelados durante os rituais de três dias de Páscoa, não são menos do que os principais elementos do sentido da vida. No mundo antigo “os mistérios de Elêusis” eram cerimônias de iniciação, para o culto de Deméter e Perséfone, que prometiam algum tipo de divinização aos que participassem. Eram ritos secretos com raízes na pré-história da religião. Sócrates se recusou a participar porque a ele não seria permitido falar sobre o conhecimento que ali adquirisse. (era expressamente proibido aos participantes falar sobre a cerimônia ou os rituais). Como em todo ritual religioso sério, a preparação dos participantes se fazia necessária. A Quaresma é nossa preparação e a Páscoa é o nosso mistério. Um dos temas do Mistério Pascal é o da traição. Jesus foi traído não somente por Judas, mas de certa forma por todos aqueles aos quais ele tentou ensinar. Isto não e incomum. Mas a maneira de Jesus lidar com a traição foi extraordinária. O tema da traição é mais profundo do que parece. É claro que, aprender a lidar com a traição ou com esperanças frustradas – sem nos tornarmos paranóicos e reconhecer nossa própria culpa - faz parte da maturidade. Deveríamos estar atentos a isto. E esse período de atenção da quaresma pode nos ajudar. A meditação nos mostra como a própria mente pode nos trair. Mas mais ainda, nós deveríamos estar nos preparando para o grande tema: o mistério pleno que ate mesmo a maior traição é redimida. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Terça-feira da segunda semana da Quaresma (02/03/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da segunda semana da Quaresma (01/03/10) ......................................................................................................................... Segundo Domingo da Quaresma (28/02/10) .........................................................................................................................
Sábado da primeira semana da Quaresma (27/02/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Sexta-feira da primeira semana da Quaresma (26/02/10) Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quinta-feira da primeira semana da Quaresma (25/02/10) Eu estava observando uma grande árvore madura sendo removida por um grupo de trabalhadores. Eles haviam cavado uma trincheira larga e profunda em torno de suas raízes. Provavelmente algumas raízes foram cortadas ou feridas, mas havia algumas intactas, suficientes para garantir a sua sobrevida. Dava a impressão de se estar no meio de uma operação, o paciente passivo, vulnerável e despido de toda dignidade. Os homens estavam suspendendo com suportes que se cruzavam sob a árvore ao se prepararem para deslocar aquele objeto milagroso da criação para a caçamba do veículo. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Quarta-feira da primeira semana da Quaresma (24/02/10) ......................................................................................................................... Terça-feira da primeira semana da Quaresma (23/02/10) Jesus diz claramente aos seus seguidores para não fazerem alarde de sua autodisciplina – na realidade, devem esconder o fato de estarem jejuando. Este aviso nos faz lembrar como é fácil nos tornarmos rainhas do drama até mesmo na vida espiritual. A relação entre o que realmente sentimos e o que demonstramos que estamos sentindo é normalmente obscura. Apertamos os dentes porque estamos zangados ou para mostrar que estamos? Esse é um um problema que não incomoda o tigre que persegue sua presa. Mas nós nos preocupamos com a verdade e com a integridade, precisamente porque muito facilmente perdemos o fio da meada e sentimos que nos perdemos de nós mesmos ao fazer isso. A sensação de que não estamos sendo nós mesmos é profundamente perturbadora e nos deixa infelizes. Auto-dramatizar pode ser uma etapa na descoberta do nosso eu verdadeiro - (e, portanto, de Deus), mas não é o final da partida. Na meditação, nos despojamos do dramatismo externo e ainda que durante algum tempo tenhamos que testemunhar a interminável representação de um papel e o constante rebobinar de fitas emocionais e reações do ego, sabemos no fundo que não estamos jogando nenhum jogo. Na meditação, não há simulacros. Talvez seja por isso que sentimos que a meditação nos muda profundamente, ainda que “nada aconteça.’’ Talvez também seja por isso que meditar sozinho de manhã e de noite – como a maioria de nós precisa fazer – e meditar com outros – como em um grupo semanal – sejam práticas mutuamente instrutivas. Se o ego está aquietado pelo silêncio, quando estamos com outras pessoas, elas não são um público para quem interpretamos, mas uma comunidade com quem rezamos e com quem nos reunimos. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Segunda-feira da primeira semana da Quaresma (22/02/10) Um dos Padres do Deserto disse que o dom do auto-conhecimento é mais valioso do que o poder de fazer milagres. Ainda que sejamos meio céticos quanto aos milagres hoje – mesmo vivendo na era do milagre tecnológico – também meio que esperamos por um evento extraordinário ou uma intervenção que mude tudo para nós. Ganhar na loteria, o surgimento de um par perfeito, o trabalho certo. Talvez para as pessoas modernas o entretenimento em uma escala de massas tenha substituído a preocupação dos nossos ancestrais com milagres. Mas o auto-conhecimento não é sobre uma fantasia. Ele nos muda e muda a nossa percepção da realidade do dentro para fora. É irreversível e representa na realidade o que chamamos de “crescimento”. Também não é sobre passividade. O auto-conhecimento não acontece simplesmente. Precisamos desejá-lo e desejar desejá-lo e depois trabalhar para tanto. A meditação é uma afirmação disso, um compromisso pessoal com essa dimensão espiritual da realidade. A Quaresma existe para ajudar-nos a atualizar esse compromisso e a estar abertos para a graça que completa o trabalho que precisamos fazer. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Primeiro Domingo da Quaresma (21/10/10) ......................................................................................................................... Sábado após quarta-feira de Cinzas (20/02/10) ......................................................................................................................... Sexta-feira após quarta-feira de Cinzas (19/02/10) ......................................................................................................................... Quinta-feira após quarta-feira de Cinzas (18/02/10) Então ele disse a todos: “Se alguém quiser ser meu discípulo, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz diariamente e siga-me. Porque quem quiser salvar a sua vida irá perdê-la; mas quem sacrificar a sua vida por meu amor, irá salvá-la. De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se e causar a sua própria ruína?” (Lc 9) Na Quaresma, trabalhamos com a plenitude da mente e a interioridade, com bons pensamentos e compaixão para os outros, para tornarmo-nos mais familiarizados com este paradoxo central da existência humana. Através da renúncia nós atingimos uma grande integração. O todo é atingido mais diretamente pela renúncia. O ego é profundamente pulverizado ao entrar neste paradoxo. “Seguramente o todo deve vir pela aquisição e pela garantia do que temos?”, ele questiona. No coração deste conhecimento está o mistério da morte. Nosso medo de morrer paralisa nossa iniciativa de tornarmo-nos mais plenamente vivos. Começamos a nos libertar desta ignorância endêmica através do entendimento da graça do perdão. A disciplina da Quaresma se torna facilmente egocêntrica se não for temperada por esta graça – que começa e cresce somente quando é primeiramente aplicada a nós mesmos. Para aceitar e abraçar nossas próprias imperfeições, para amar a nós mesmos como somos e não como se fôssemos um ídolo formado pelo perfeccionismo – devemos perdoar a nós mesmos. Uma vez que o fazemos, a graça flui mais facilmente para todos os nossos relacionamentos e daí para diante, profundamente, em nossa vida. O bálsamo curativo da reconciliação restaura nossa mente ferida para a força e claridade necessárias para renunciar a nós mesmos, para focar a luz da consciência fora de nós mesmo. Para o amor. Nós então enxergamos melhor a diferença entre desejo e necessidade, fantasia e realidade. Deslocamo-nos para a obediência à grande lei de renúncia ao invés de lutar contra ela com uma falsa idéia de sacrifício. A meditação desperta e aplica esse conhecimento puramente e na menor e mais simples parte de nossa existência. É o que é meditação. E a verdade experimentada mais profundamente do que o pensamento em meditação gradualmente torna-se mais do que uma idéia. Torna-se um modo de vida, uma forma de viver plenamente. Laurence Freeman .........................................................................................................................
Quarta-Feira de Cinzas (17/02/10) O mundo cristão começa hoje seus quarenta dias de preparação para os Mistérios da Páscoa, ecoando muitas passagens da Bíblia e do Alcorão, tais como o número de dias que Jesus passou no deserto antes de começar sua vida pública, e os quarenta anos do Êxodo. De um ponto de vista simbólico, significa um período de tempo estimativo ou numeroso. Trata-se do número médio de semanas da gestação. Como meditantes, podemos encarar a prática a que nos entregamos duas vezes ao dia, durante a Quaresma, como uma feliz oportunidade de aprofundamento e esclarecimento e, como um reinício da peregrinação ao centro do coração. Poderíamos também adicionar outro período de meditação, quando possível, ou mesmo um período mais curto de imobilidade silente lá pela metade do dia. Para os principiantes, este é um estratagema útil para fazer com que o ego se empenhe em uma prática que sempre representa uma disciplina desafiadora, especialmente no início. A determinação de um período para nos dedicarmos à prática, nos confere um objetivo de curto prazo que poderá produz ir um hábito bom que será apreendido para toda a vida. A Quaresma é um período para refletirmos, através da escritura e de outras leituras, sobre o significado da vida, como jornada espiritual. Cada um deveria escolher cuidadosamente o que ler: tomar por exemplo um dos evangelhos para ler durante toda a Quaresma, de modo a se familiarizar com ele e com um dos textos chave da tradição de meditação que seguimos: como por exemplo o livro de John Main “O Caminho do Não Conhecimento”. Assim, em vez de encará-lo como um período em que nos privamos daquilo de que gostamos, ainda que um pouco de auto refreamento também não nos faria mal, poderemos encará-lo como um período para a apreciação de um rico cabedal de ferramentas espirituais que temos à nossa disposição para nos manter alertas e zelosos na arte espiritual. Se você recebeu as cinzas em sua fronte hoje e ouviu as palavras “lembra-te que és pó”, o lembrete de nossa mortalidade pode aguçar nossa apreciação e desfrute do dom precioso da vida e da consciência humana. Laurence Freeman OSB ......................................................................................................................... Os textos estão sendo gentilmente traduzidos por nossos amigos: Marcelo Melgares e Márcia Orantas (RS), Edith Vargas (RJ), Monica Alvarez (RJ), Carlos Eduardo Miranda (RJ), Alessandro Akil (RJ) e Evangelina Oliveira (RJ). |
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