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Segunda-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

A imaginação cristã viu o relato bíblico do Êxodo - os quarenta anos que os israelitas passaram vagando no deserto com Moisés como seu GPS - como um símbolo da Quaresma. A intervalos regulares, eles se rebelavam. Primeiro, eles queriam a comida que tinham deixado para trás e acharam a dieta do deserto insuportavelmente sem graça. E quando Moisés desapareceu no alto montanha, na nuvem do não-saber, para falar com Deus e receber os Dez Mandamentos, eles se sentiram abandonados e solitários.

Embora se queixassem sem parar do seu destino, e culpassem Moisés por tudo, quando ele se afastou, ficaram sem líder e confusos. Sua bússola interna perdeu a direção. Aarão, um dos líderes falsos que estão sempre à mão quando o povo fica inquieto, levou-os na direção errada. (Aqueles a favor e os contrários no cisma do Brexit, na Grã-Bretanha, discordariam em como aplicar essa história à sua situação atual). Talvez Aarão achasse que tinha que agir de algum modo, e que não tinha o carisma de Moisés para manter as pessoas firmes. Qualquer que tenha sido a razão, ele fez a coisa terrível que os israelitas sempre foram propensos a fazer quando as coisas ficavam ruins para eles. Ele os voltou para deuses falsos. Ele lhes pediu que entregassem suas joias de ouro para serem derretidas e e transformadas em um bezerro de ouro. Isto sugere o quanto estamos dispostos a sacrificar pelo falso consolo oferecido pela ilusão.

Tendo feito o novo ídolo, eles começaram a adorá-lo, mas logo a adoração se transformou em folia. Isto dá um bom espetáculo na televisão se os censores permitirem. Talvez mostre que o que realmente queremos, quando estamos desesperados, não é um deus, mas um meio de entretenimento. Nossa própria cultura é menos sobre a idolatria, apesar de tornar absolutas muitas coisas tolas, e criar celebridade como alternativa à santidade. É mais sobre entreter-nos continuamente com o que nos estimula, excita ou distrai. Ficamos acordados até tarde da noite, devorando entretenimento. Não podemos fazer uma curta viagem de trem sem assistir a um filme e sem dispensar um lanche. E, naturalmente, alimentamos nossas crianças com uma dieta de distração animada, disponível em vários dispositivos eletrônicos.

Isso é compreensível e também perdoável. A sabedoria necessária para a sobrevivência é que temos que perdoar a nós mesmos nossa própria estupidez. Simone Weil disse que o consolo é o único recurso daqueles que estão aflitos. E perder a direção, sentir-se abandonado, ter perdido nossos bons líderes e sentir que até mesmo Deus nos deixou é estar duramente afligido. O único problema é que esse tipo de consolo é ilusão e a ilusão destrói mesmo os alicerces do nosso sentido do si-mesmo. Ao tentar escapar da escuridão, abre-se o abismo. Ela leva à desordem da psique e ao caos na comunidade.

De vez em quando, de tempos em tempos, todos achamos que a fidelidade é cansativa. A menos que sejamos encorajados e inspirados por alguma fonte autêntica, esses momentos de fraqueza levam-nos  a desejar a variedade em si mesma. Ficamos impacientes. Perdemos a esperança de que a fidelidade ao caminho que estamos seguindo produza a riqueza e o prazer, que, em outras ocasiões, acreditamos que acontecerão. Esta fraqueza da natureza humana é também uma fonte de força. Mas é uma falha de projeto em tudo o que fazemos, e que precisa de paciência, fidelidade e compromisso, seja do dizer o mantra ao casamento, ao acompanhar um projeto até sua conclusão, ou  esperar Moisés descer da montanha e voltar.

 


 

Texto original em inglês

Monday Lent Week Three

The Christian imagination saw the biblical account of the Exodus – the forty years that the Israelites spent wandering in the desert with Moses as their GPS – as a symbol of Lent. Quite regularly, they would rebel. First they craved the food they had left behind and found their desert diet unbearably boring. Then, when Moses disappeared up the mountain into the cloud of unknowing to speak with God and receive the Ten Commandments, they felt abandoned and lonely.

Although they complained endlessly about their fate and blamed Moses for everything, when he went away they were leaderless and confused. Their inner compass lost direction. Aaron, one of the false leaders who are always at hand when the people get restless, took them in the wrong direction. (Leavers and Remainers in the Brexit schism in Britain would disagree on how to apply this story to their present situation). Maybe Aaron felt he had to do something and that he didn’t have Moses’s charisma to keep the people steady. For whatever reason he did the terrible thing that the Israelites were always prone to do when things got bad for them. He turned them towards false gods. He asked them to hand over their gold jewellery to melt down and fashion as a golden calf. This suggests how much we are prepared to sacrifice for the false consolation offered by illusion. 

Having made the new idol they began worshipping it but soon the worship turned into revelry. This makes for good television if the censors permit. Perhaps it shows that what we really want when we are desperate is not a god but entertainment. Our own culture is less about idolatry, although we absolutise many foolish things and create celebrity as an alternative to sanctity. It is more about entertaining ourselves continuously with whatever stimulates, titillates or distracts us. We stay up late at night gorging on entertainment. We cannot make a short train journey without watching a film and having a snack. And of course we feed our children a diet of animated distraction delivered by various electronic devices.

This is understandable and also forgivable. The wisdom necessary for survival is that we have to forgive ourselves for our own stupidities. Simone Weil said that consolation is the only resort of those who are afflicted. And to lose direction, to feel abandoned, to have lost our good leaders and to feel that even God has left us is to be sorely afflicted.  The only problem is that this kind of consolation is illusion and illusion eats away at the very foundations of our sense of self. In trying to escape the darkness, it t opens the abyss. It leads to disorder of the psyche and to chaos in the community.

Every so often, from time to time, we all find fidelity boring. Unless we are encouraged and inspired from some authentic source, these moments of weakness lead us to crave variety for its own sake. We become impatient. We lose hope that fidelity to the path we are following will produce the richness and delight that, at other times, we believe it will. This weakness in human nature is also a source of strength.  But it is a design fault in everything we do that needs patience, fidelity and commitment, from saying the mantra to marriage, from seeing a project through to completion to waiting for Moses to come back down the mountain.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.