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Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarto Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quarto domingo da Quaresma 2017

O evangelho de hoje (João, 9) é sobre um homem nascido cego. Como a história da mulher samaritana da semana passada, é contada em muitos níveis de significado, que vão se revelando uns aos outros. Apesar da aparência óbvia da história, ela possui profundidades sheakesperianas e, como nossa experiência da vida, revela o quanto a realidade é multifacetada.

Os discípulos perguntam a Jesus quem era responsável pela condição do homem: seus pais ou ele mesmo? É difícil ver, a partir desta pergunta, como era difícil culpar se não houvesse a herança de um carma. De qualquer maneira, Jesus dispensa este enfoque ao dizer que o sofrimento do homem está fundamentado em como Deus se revela através da cura. Isso talvez não responda todas as nossas perguntas racionais, mas nos dá um rumo definitivo. Em outras palavras, olhe para frente, e não para o retrovisor, mas para as conexões que revelam significado. E então, mais para ilustrar um ponto de vista do que para atuar como um atarefado médico do setor de emergência, Jesus cura o homem (quebrando, assim, regras oficiais, por trabalhar num sábado).

Jesus volta a se perder na multidão, mal dando tempo ao homem de vê-lo. Mas as pessoas e as autoridades ouvem falar do incidente. Alguns céticos não se convencem de que se trata do mesmo indivíduo que eles conheciam como o homem cego que andava por ali. Os pais dele são arrastados para a polêmica e, com medo de se envolver, declaram não conhecê-lo e deixam o filho se virar sozinho – que é o primeiro vislumbre da solidão em que o homem está sendo imerso. Ao ser questionado, o homem mantêm sua versão sobre ter sido curado e rapidamente é taxado de desordeiro, rejeitado como alguém “nascido no pecado”. Se você nos responder assim (eles dizem), ser deficiente é seu único erro e você não merece ser curado. Ele foi excomungado. Um bom exemplo de como, muitas vezes, pessoas religiosas não aceitam o poder de Deus se metendo em seus assuntos. Mas Jesus ouve o que está acontecendo e sai à procura do homem.

O próximo nível de significado e intimidade na história se inicia, como frequentemente ocorre com este “curador” da humanidade, com uma pergunta. Jesus pergunta se ele acredita (sua fé) no Filho de Deus. O homem responde, com honestidade, bem, eu poderia, se eu soubesse quem é ele. Então, exatamente como fez com a mulher samaritana, Jesus simplesmente se identifica. Você está olhando para ele. O homem espontaneamente se abre para fé e se rende espiritualmente. 

Nestes poucos movimento, passamos de uma cura para uma libertação. O homem fez, rapidamente, a travessia de um lugar de aflição por meio de um teste de seu caráter e a experiência dolorosa da exclusão e da rejeição para uma relação de fé transformadora de sua existência.

À medida em que a experiência do silêncio e da presença se aprofunda com o passar do tempo, que possamos ver a jornada da meditação nos conduzir nesta mesma trajetória, embora, provavelmente, não tão depressa.

 

Quaresma 2017

Estas leituras diárias, escritas por Laurence Freeman, um monge beneditino e diretor da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, servem como ajuda para termos uma melhor Quaresma. Este é um tempo definido de preparação para a Páscoa, durante o qual uma atenção especial é dada para a oração, maior generosidade  com os outros e o auto-controle.

É um costume abrir mão de algo, ou restringir o uso de alguma coisa durante a Quaresma mas também fazer algo adicional que beneficiará a sua espiritualidade e o tornará mais simples.  A leitura destas reflexões proverá coragem para que se torne a meditação uma prática diária ou, se já é, que se aprofunde a prática, preparando-se para os momentos de meditação com mais cuidado. As meditações da manhã e da noite se tornam então os centros espirituais de seu dia. Esta é a tradição, um modo muito simples de meditação, que nós ensinamos: 

Sente-se com a coluna ereta em quietude. 

Feche seus olhos levemente. 

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta. 

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha". 

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente. 

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual. 

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra. 

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.

Meditar com outros, em um grupo semanal, ajuda bastante a desenvolver a prática em sua vida diária.

 


 

Texto original em inglês

Fourth Sunday of Lent

Today’s gospel (Jn 9) is about the healing of a man born blind. Like the story of the Samaritan woman last week, it is told on many levels of meaning opening on to each other. Despite the apparent obviousness of the story it has Shakespearian depths and, like our experience of life, reveals how multi-faceted reality is.

The disciples ask Jesus who was responsible for the man’s condition – his parents or himself? It’s hard to see from this question how either was to blame without having inherited karma. Anyway Jesus dismisses this approach by saying the meaning of the man’s suffering is found in the way God is revealed through healing.  This may not answer all our rational questions, but it gives us a definitive direction. In other words, look ahead, not in the rear-view mirror, for the connections that yield meaning. Then, as if to illustrate a point, rather like a busy Emergency Department doctor, Jesus heals him (thereby breaking the union rules by working on the Sabbath). 

Jesus merges back into the crowd, hardly giving the man time to see him. However the people and then the authorities hear of the event. Some sceptics are not convinced it is the same individual they knew as the blind man who was hanging around the place. The parents are dragged into the controversy and, for fear of getting involved, disclaim any knowledge and leave their son to fend for himself – the first glimpse of the solitude which the man is being plunged into. Under questioning, the man holds his ground about the healing and is quickly condemned as a troublemaker, dismissed as someone ‘born in sin’. If you answer us like that (they are saying),being handicapped was your own fault and you don’t deserve to be healed. He was excommunicated. A good example of how often religious people don’t welcome the power of God meddling in their affairs. But Jesus hears of this and seeks him out. 

The next level of meaning and intimacy in the story begins, as often with this healer of humanity, with a question. Jesus asks if he believes (has faith) in the Son of God. The man honestly replies, well I might if I knew who he was. Then, just as he did with the Samaritan woman, who was another outcast, Jesus simply identifies himself. You’re looking at him. The man spontaneously opened to faith, believed and bowed down in spirit.

In these few moves we have passed from a cure to a healing. The man crossed rapidly from a place of affliction through a testing of his character and the painful experience of exclusion and rejection into a life-transforming relationship of faith.  

As the experience of silence and presence deepens over time, we might see the journey of meditation as taking us along the same trajectory, though probably less quickly.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.