Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sábado da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Eu estava mostrando a uma senhora uma casa que ela já conhecera muito bem tempos atrás. Quando chegamos a um determinado quarto, que me pareceu comum, ela parou e olhou para dentro dele com um sentimento evidentemente profundo. Eu a deixei refletir sobre ele e quando ela percebeu que mostrara seus sentimentos, se desculpou. E daí começou a explicar, ficou um pouco embaraçada, mas eventualmente me contou que tinha sido ali, naquele quarto, que seu primeiro filho havia sido concebido. Para ela não era um quarto comum. Para mim foi um momento de perceber algo especial dentro do comum, de outro ponto de vista, para mim não usual.

Não há nada especial a respeito do dia 25 de março a não ser que é o dia (no tempo da escritura) que Jesus foi concebido. Nós reconhecemos isso na Festa da Anunciação quando Gabriel veio visitar Maria e ela deu seu consentimento para ser coberta pela sombra do Espírito Santo. Nove meses exatamente até o Dia do Natal. Quem está pensando no Natal nessa época do ano a não ser os departamentos de marketing?

Os dias reais das nossas concepções geralmente passam despercebidos e talvez (não tenho certeza) não possam ser calculados com exatidão. Ainda assim eles são momentos inegavelmente importantes de nossa jornada a partir do Ser/Mente de Deus, onde existimos desde a eternidade, até sermos  existência terrena e temporal.

O significado, assim como a verdade, emerge. Ele não explode simplesmente caindo em nosso colo totalmente desenvolvido e rotulado. Uma parte de nós tende a querer respostas e pontos fixos e enxerga o significado meramente como uma explicação das coisas. Mas a mente interior profunda sabe que o significado está nas conexões; e quanto mais entrelaçada e abrangente a rede de conexões, maior a experiência do significado. Isso leva tempo. Numa escola de administração, à medida que os alunos se aproximam da formatura e procuram por trabalho, eles se ocupam mantendo suas redes. Isso se torna uma prioridade cada vez mais importante para eles e pode se tornar muito estressante se eles sentirem que não estão fazendo suficientes conexões úteis para iniciar sua nova carreira. Muitas vezes sinto que eles estão se esforçando demais.

Uma rede de conexões significativas não pode ser construída em um encontro ou dois. A confiança - é como conhecer alguém além do charme (ou o contrário) de sua máscara. Precisa crescer e amadurecer. O crescimento não é um processo conceitual, mas, orgânico, depende do meio ambiente e dos atos de Deus também conhecidos como acidentes. Todo relacionamento, mesmo o mais fugaz, nos abre para todo um universo paralelo de conexões potenciais que melhor encontramos com um toque suave. Tentar agarrá-lo rapidamente demais é danificar a conexão e criar desconfiança. Muito de qualquer intimidade que sobrevive e cresce depende do desprendimento e da sabedoria da distância ideal.

A Quaresma é caracterizada pelo mesmo aspecto comum que fez dos Israelitas nômades periodicamente tão idólatras. Trata-se de uma lição diária na arte de viver do interior para o exterior, debaixo da aparência superficial das coisas. A Meditação – que é realmente a Quaresma e a Páscoa combinadas – também nos ensina a não menosprezar o significado da meia hora de silêncio na qual nada de especial acontece. Como disse John Main, isso é realmente preferível. ‘Na meditação’, ele disse, ‘nada acontece e, se acontecer, ignore’. Há obviamente um paradoxo e uma piada significativa escondida nesse comentário esclarecedor.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week Three

I was showing a woman around a house that she had once known well. When we came to an ordinary bedroom she stopped and looked at it with evidently deep feeling. I let her ponder it and when she realised she had shown her feelings she apologised. Then she began to explain, became a little embarrassed but eventually told me it was the room where her first child had been conceived. For her it was not an ordinary room. For me it was a moment to see something special in the ordinary, from another, and for me unusual point of view. 

There’s nothing special about the 25th March except that it is the day (in scriptural time) when Jesus was conceived. We recognise this in the Feast of the Annunciation when Gabriel came to visit Mary and she gave her consent to being over-shadowed by the Holy Spirit. Nine months exactly to Christmas Day. Who is thinking about Christmas at this time of the year except marketing departments? 

The days of our actual conception usually pass unremarked and perhaps (I’m not sure) cannot be exactly calculated. Yet they are undeniably important moments in our journey from the Being-mind of God, where we exist from eternity, into being terrestrial and temporal existences.

Meaning, like truth, emerges. It doesn’t just explode and land fully developed and labelled on our lap. One part of us does tend towards wanting fixed points and answers and sees meaning merely as an explanation of things. But the deeper mind knows that meaning is about connections; and the more interwoven and comprehensive the network of connections, the greater the experience of meaning. This takes time.  At a business school, as the students approach graduation and look for jobs, they are busy networking. This becomes an increasingly important priority for them and it can become very stressful if they feel they aren’t making enough useful connections to launch their new career. Often I feel they are trying too hard.

A network of meaning-full connections cannot be built on one or two encounters. Trust  - is like knowing someone beyond the charm (or otherwise) of their persona. It has to grow and mature. Growth is not a conceptual but organic process, dependent on the environment and the acts of God also known as accidents. Every relationship, even the most fleeting, opens us to a whole parallel universe of potential connections, which we best meet with a light touch. To try and grasp it too quickly is to damage the connection and create mistrust. So much of any intimacy that survives and grows relies upon detachment and the wisdom of the optimum distance.

Lent is characterised by the same ordinariness that made the wandering Israelites periodically so idolatrous. It is a daily lesson in the art of living from the centre outwards, from below the surface appearance of things. Meditation – which is really Lent and Easter combined – also teaches us not to dismiss the significance of a half-hour of silence in which nothing particular happens. As John Main said this actually is preferable. ‘In meditation,’ he said, ‘nothing happens and, if it does, ignore it.’ There is obviously both a paradox and a meaningful joke hidden in this enlightening remark.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.