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Sexta-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

A arte de viver que tentamos renovar, ou até descobrir pela primeira vez na Quaresma, é viver da fonte. A fonte da consciência flui na existência visível tão naturalmente quanto a água borbulha quando sobe à superfície, ou quando um bebê recém-nascido aparece. Quanto mais próximos estivermos da fonte, mais inocentes somos. Inevitavelmente, porém, a água adquire alguma turvidez, impureza ou mesmo toxicidade depois que flui por um tempo. É triste que tenha que ser assim, mas é uma das maneiras de nos tornarmos verdadeiramente mais conscientes. Assim, podemos dizer que a impureza, a perda da inocência é inevitável e tem uma finalidade. Ela nos conscientiza do efeito da “distância” entre nós e a fonte e de como nosso relacionamento com esta última é realmente.

Precisamos colocar a palavra “distância” entre aspas para não correr o risco de levar a metáfora muito ao pé da letra. Se não tivermos cuidado (se não prestarmos atenção), podemos facilmente cair naquela sensação de que não temos contato com a fonte do ser. Que estamos perdidos, alienados, separados. Aí sentimos a nostalgia de uma pureza primitiva e da inocência do ser. Experiência, idade, tempo parecem um triste declínio que obscurece até mesmo todos aqueles benefícios e delícias reais que a vida nos traz. Se essa sensação não for desafiada, pode nos levar a uma velhice amarga. Esse desespero pode derrubar até os jovens.

A verdade é que a todo o momento somos levados pela corrente da existência que flui da fonte do ser. Mesmo quando obstruída, ela forçará uma saída e fluirá outra vez. O Ser (como o Pai no conceito cristão de Deus) permanece sempre invisível, uma fonte escondida. A Existência (como o Filho) é a expressão visível do ser. O Filho une a fonte ao outro lado da vida, ao objetivo, ao oceano do ser que se dá a conhecer em primeiro lugar através daquela fonte que borbulha num canto do campo. A unidade entre a fonte e o objetivo é o Espírito da completude. 

A corrente visível do ser na vida diária mistura misteriosamente a pureza e a impureza, a alegria e o sofrimento, a inocência e a culpa, a paz e o estresse, o amor e o medo. Na Quaresma, através da renúncia, do desapego e de um maior tempo dedicado à oração, aprendemos a ver e aceitar esta mistura que é a existência humana, e até mesmo a nos alegrarmos com ela. Não somos anjos, graças a Deus. Não somos respostas exatas a questões matemáticas. Não somos modelos mecânicos. Através de nosso crescimento no autoconhecimento, vemos que a impureza é útil porque nos capacita melhor a provar o frescor da fonte.

O Reino está muito próximo, disse Jesus. A sabedoria dos tempos é que a sensação de distância, por mais real que pareça e por mais nefasta que seja para nosso desempenho psicológico neste mundo, trata-se, na verdade, de uma ilusão. 

A meditação nos convence a não nos identificarmos com as impurezas, com os resíduos que a corrente da vida acumula à medida que se transforma num rio. O inglês tem uma maravilhosa variedade de palavras para descrever os diferentes tamanhos e manifestações do fluxo da fonte (tradutores, me desculpem e façam uma lista de palavras da sua própria língua aqui): ribeirão, córrego, riacho, rio, nascente, curso de água, regato, veio... O silêncio, felizmente, não precisa de tradução, pois nem é conceitual nem está ligado às imagens que as palavras incorporam. A meditação purifica nossa mente pela experiência sempre nova de descobrir que somos a fonte, o córrego e o rio. Temos esta maravilhosa unidade que faz de nós seres essencialmente espirituais. Na realidade, mesmo quando somos os mais impuros dos seres, ainda somos divinamente renovados.

 


 

Texto original em inglês

Friday Lent Week Three

The art of living that we try to refresh, or even discover for the first time, in Lent is to live from the source. The spring of consciousness flows into visible existence as naturally as water bubbles up from the ground or a new born baby appears. The closer we are to the source the more innocent we know we are. Inevitably, though, the water acquires a certain cloudiness, impurity or even toxicity after it has been flowing for some time. It is sad it has to be like this, but it is one of the ways that we actually become more conscious. So, we might say, impurity, loss of innocence is both inevitable and has a purpose. It makes us conscious of the effect of the ‘distance’ between us and the source and what our relationship to the source really is.

We have to put ‘distance’ in inverted commas or else we take the metaphor too literally. If we’re not careful (attentive), we can easily fall into feeling that we are out of touch with the spring of being. That we are lost, alienated, separated. We become nostalgic for a primal purity and innocence of being. Experience, age, time, feel like a sad decline that overshadows even all the real benefits and delights that life brings. Unchallenged, it would lead into a bitter old age. This despair can strike down even the young.

The truth is that every moment we are carried along on the stream of existence that flows from the spring of being. Even when blocked it will force its way through and flow again. Being (like the Father in the Christian idea of God) remains always invisible, a hidden source. Existence (like the Son) is the visible expression of being. It unites the source to the other end of life, the goal, the ocean of being that first becomes knowable in the little spring bubbling up in a corner of  a field. The unity of the source and the goal is the Spirit of wholeness. 

The visible stream of being in daily life mysteriously mingles purity with impurity, joy with suffering, innocence and guilt, peace with stress, love with fear. In Lent, through giving up, letting go and making more time to pray, we learn to see and accept and actually rejoice in this mixed up mixture that is human existence. We are not angels, thank God. We are not exact answers to mathematical questions. We are not mechanical models. Through our growth in self-knowledge, we see that impurity is useful because it makes us better able to taste the freshness of the spring.

The Kingdom is very close to you, Jesus said. The wisdom of the ages is that the sense of distance, however real it feels and however crippling it can be for our psychological performance in the world, is in fact illusion. 

Meditation convinces us not to identify ourselves with the impurities, the flotsam and jetsam that the stream of life accumulates as it becomes a river. We have a  wonderful variety of words to describe the different sizes and manifestations of the flow of the spring: words like  brook, stream, rivulet, river, ruisseau, courant, fleuve – sorry translators, please add words from your own language to the list... Silence, fortunately, does not need translation, because it is neither conceptual nor linked to the pictures that words embody. Meditation purifies our minds by the always fresh experience of discovering that we are the source as well as the stream and the river. We have this wonderful oneness which makes us essential spiritual beings. In fact, even when we are most impure we are still divinely fresh.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.