Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-feira da Terceira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Um meditante chinês muito velho me disse uma vez, que mesmo nesta fase tardia de sua vida, era às vezes acossado pelo que chamava de ‘pensamentos medonhos’. Vinham de seu passado, mas ainda eram muito poderosos no presente. Poderiam referir-se a sua saúde, sua culpa por coisas que tinha feito de errado, bem como ao medo de falhar, de rejeição ou exposição. Surgiriam, mas, já que ele estava meditando, eram muito menos capazes de dominá-lo.

Lembrei-me de uma experiência que tive durante algum tempo na época de adolescente, quando costumava acordar, pela manhã, inicialmente revigorado e com a mente clara. Mas, após um segundo ou dois de conscientemente lembrar quem era, onde estava e o que tinha que fazer naquele dia, sentia um nó apertado, pesado, escuro, crescer em meu peito. Não era bem uma dor física, mas até poderia se tornar, fácil. Tinha que ignorar, sair da cama e, em seguida, bem rapidamente, meus afazeres empurravam esse nó de medo de volta ao seu esconderijo.

O velho meditante contou-me como seus velhos pensamentos medonhos periodicamente irrompiam de seus esconderijos, durante a meditação. Ele dizia o mantra o mais fielmente que podia, do princípio ao fim dessas tormentas, sentindo que não estava tendo uma ‘boa meditação’, mas também sabendo que estava fazendo exatamente o que tinha que fazer. Sabia que esses medos eram ilusórios; mas mesmo assim perturbadores, e temia o efeito do medo sobre si, caso ficasse incontrolável. Após a meditação, havia recuperado sua liberdade e uma frase frequentemente se formava em sua mente: ‘É muito bom voltar à realidade’.

A Samaritana no poço pode ter sentido isso, após ter enfrentado o medo e a raiva que projetou em Jesus e no resto do mundo, no início do seu encontro com ele. No final da história, ela readquiriu seu lugar na comunidade da aldeia e recuperou a liberdade interior, desinteressadamente oferecendo aos outros algo de bom que a tinha tocado e que ela sabia que poderia compartilhar. Jesus chamou isto de corrente de água viva que brota do interior.

Alguns dias atrás, em Bonnevaux, eu estava caminhando pelo terreno com alguns visitantes. Visitamos as duas fontes, cada uma num extremo da propriedade, que acho lugares muito sagrados e puros. Em cada uma delas, o chão ao redor foi aberto para expor o fluxo de água limpa que flui de algum lugar secreto e misterioso no fundo da terra. Talvez tenha sido feito por monges do século XII que lá foram construir seu mosteiro, mas também possivelmente por habitantes locais bem mais antigos, não registrados. Fontes são intemporais. Sempre presentes, constantes e novas. Elas curam as feridas do passado.

Na língua portuguesa, ‘fonte’ é o mesmo que ‘origem’.

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week Three

A very old Chinese meditator told me once that even at this late phase of his life he was sometimes beset by what he called ‘fearful thoughts’. They came from his past but still felt very powerful in the present. They might concern his health, his guilt for things he had done wrong, the fear of failure, rejection or exposure. They would surge up but, since he had been meditating, they were far less capable of overwhelming him. 

I was reminded of an experience I had for a while as an adolescent, when I would often wake up in the morning initially fresh and clear-minded. But within a second or two of consciously remembering who and where I was and what I had to do that day, I would feel a tight, heavy, dark knot grow in my chest. Not quite a physical pain, yet, but it could easily have become one. I had to ignore it, get out of bed and then quite quickly, my activity pushed this knot of fear back into its hiding hole. 

The old meditator told me how his old fearful thoughts periodically rushed out of their hiding places during meditation. He would say the mantra as faithfully as he could through these storms, feeling he was not having a ‘good meditation’, but also knowing that he was doing just what he had to do. He knew that these fears were illusory; but they were nonetheless disturbing and he feared the effect of the fear on him should it become unmanageable. After the meditation he had regained his freedom and a sentence would often form in his mind: ‘It’s so good to return to reality’.

The Samaritan woman at the well might have felt that after she had confronted the fear and anger that she projected onto Jesus and the rest of the world at the beginning of her encounter with him. At the end of the story she has regained her place in the community of the village and has re-sourced the inner freedom selflessly to give others something good that had touched her and that she knew she could share. Jesus had called it a stream of living water welling up from within.

A few days ago at Bonnevaux I was walking through the grounds with some visitors. We visited the two springs, each at either end of the property, which I find very holy and pure places. At each of them, the ground around has been opened up to expose the stream of clean water flowing from some secret and mysterious place deep in the earth. Maybe this was done by the twelfth century monks who came they to build their monastery there, but probably also by much earlier, unrecorded dwellers on the land. Springs are timeless. Ever-present, constant and new. They heal the wounds of the past.

The French for ‘spring’ is ‘source’.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.