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Quarta-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Caso pudéssemos ver e compreender como começa a ilusão teríamos uma grande vantagem na campanha pela realidade. De certo modo, parece-se a uma campanha eleitoral, um longo processo de persuasão, com altos e baixos nas pesquisas de opinião, muitos argumentos enganadores e alguns truques sujos; finalmente, nosso último encontro com a mortalidade é o dia da eleição quando caem as fichas e somos aquilo que nos tornamos.

Diádoco de Foticeia foi um monge grego do quinto século que passou tempo suficiente sentado no trabalho do silêncio, e também observando sua mente no dia-a-dia, de modo a ver como surge a ilusão. Por mais diferentes que sejam nossas atuais condições de vida, e as maneiras como elas moldam a consciência moderna, a mente opera basicamente da mesma maneira. Ele fala para nós. Sua grande obra tem por título “Cem Capítulos sobre o Conhecimento”. São textos formados por curtos parágrafos, discernimentos da sabedoria destilados em gemas da verdade que precisam ser ruminados através de muita releitura. (Você não lê um livro, você o relê). A cada leitura se fortalece o sabor, a fruição e o valor que nutre. Diádoco começa por afirmar a irredutível benignidade da realidade, que inclui a esfera humana, porque Deus não faz nada que não seja bom. Então, o que dá errado? Por que nem tudo é sempre bom? Por onde a serpente penetra o Jardim do Éden?

Pela porta lateral da fantasia.

Quando alguém, no desejo de seu coração, concebe e dá forma àquilo que não existe na realidade, então, aquilo que ele deseja começa a existir.

Aquilo começa com o desejo.  E o desejo surge da percepção de que algo faz falta, na interminável carência humana por algo mais. Isto é um dom porque enseja a mudança e a evolução, para uma uma crescente consciência, mas possui um perigo concomitante. Por melhor que tenhamos sido amados e educados há algo mais de que carecemos. Imagine quão mais complexas seriam nossas necessidades e os desejos delas resultantes, se tivéssemos sido expulsos de nosso lar em Alepo (Síria), sofrendo abusos na longa jornada na direção do Ocidente, rejeitados como escória à chegada nas fronteiras onde mendigávamos por um lar de paz e um recomeço, e a esperança se transformasse em desespero na medida em que se despedaça a ilusão. O desejo está sempre conectado à necessidade. Na melhor das hipóteses o desejo espelha a necessidade. Não desejamos aquilo que não pensamos necessitar, mas, frequentemente desejamos algo que nos é impossível alcançar.

A imaginação faz com que a mente consciente conheça a necessidade. Formamos uma imagem que perseguimos como um desejo, esperança, ambição ou meta. Agostinho pensava que toda a jornada espiritual se refere ao santo desejo. João da Cruz pensava que precisamos nos livrar de todo desejo, mesmo de nosso desejo por Deus. Ambos estão certos, dependendo de como entendemos o desejo em relação à necessidade e à fantasia.

A imaginação está atada ao desejo. Para o bem, se o desejo estiver diretamente conectado àquilo de que necessitamos. Para o mal, se escapar ao controle e desenvolver virtual vida própria. Isso acontece facilmente nos casos de dor aguda, e especialmente quando sofremos a sós sem a assistência do amor humano para consolar nossa solidão. A fantasia aparece nas masmorras do sofrimento solitário.  Difere da imaginação criativa porque sua visão não é a de um potencial verdadeiro que possa ser concretizado. Ao contrário, ela experiencia uma gravidez psicológica. Os sintomas estão presentes, mas, a vida verdadeira não.

Necessária é a prece. Ela existe, não para dizer a Deus quão divino Ele é, nem para nos dar um palanque para a dramatização de nossos desejos. Existe para nos ajudar a ver a distinção vital entre a necessidade e o desejo, a realidade e a ilusão. Nossa vida depende da clareza dessa visão.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent Week One

If we could see and understand how illusion starts we would have a great advantage in the campaign for reality. It is, in some ways, like an election campaign, a long process of persuasion, with ups and downs in the polls, many misleading arguments and some dirty tricks; finally, our last encounter with mortality is the day of the election when the chips fall and we are what we have become.

Diadochus of Photike was a fifth century Greek monk who had sat long enough in the work of silence, and also watched his mind in daily life for long enough, to see how illusion arises. However different our conditions of life today and the way they shape modern consciousness, the mind itself works in the same basic way. He speaks to us. His great work is called ‘On Spiritual Knowledge and Discrimination: One Hundred Texts’. The texts are short paragraphs, wisdom insights distilled into gems of truth that need to be savoured through many re-readings. (You don’t read a book, you re-read it). With each reading the flavor, enjoyment and nutritional value grow stronger. Diadochus begins by affirming the irreducible goodness of reality including the human realm, because God makes nothing that is not good. So what goes wrong? Why isn’t everything always good? Where does the serpent creep into the Garden of Eden? 

Through the side-door of fantasy.

When in the desire of his heart someone conceives and gives form to what in reality has no existence, then what he desires begins to exist. (3)

It begins with desire. And desire arises from the awareness of something lacking, in the endless human longing for something more. This is a gift because it allows for evolution and change, for a raising of consciousness, but it has a concomitant danger. However well we have been loved and raised, we still feel that there is something more we need. Imagine how much more complex our needs and the desires they generate if we are thrown out of our home in Aleppo, abused on our long trek westwards, rejected as scum at the borders where we arrive to beg for a peaceful home and a new start, and hope turns to despair as the illusion is shattered. Desire is always linked to need. In the best of scenarios, desire mirrors need. We don’t desire what we don’t think we need but we often desire what it is impossible to achieve. 

Imagination makes the need known to the conscious mind. We form an image that we pursue as a desire, hope, ambition or goal. Augustine thought that the spiritual journey is all about holy desire. John of the Cross thought we need to let go of all desire even our desire for God. Both are right, depending on how we understand desire in relation to need and fantasy.

Imagination is bound to desire. For good if desire is directly linked to what we need. For ill if it spins out of control and develops a virtual life of its own. This easily happens where there  is severe pain and especially when we have suffered alone without the ministry of human love to console our loneliness. Fantasy arises in the dungeon of lonely suffering. It differs from creative imagination because what it ‘sees’ is not a real potential that can be made to happen. Instead, it experiences a phantom pregnancy. The symptoms are there but the actual new life is not.

Prayer is necessary. It exists, not to tell God how divine He is, nor to give us a platform for dramatising our desires. It exists to help us see this vital distinction between need and desire, reality and illusion. On the clarity of that seeing our life depends.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.