Leitura da Semana

Acesse mais leituras e mensagens de D. John Main e D. Laurence Freeman:

Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Segundo Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Segundo domingo da Quaresma 2017

Estamos participando de um estudo clínico observando a influência da meditação num grupo de médicos e enfermeiros que trabalham no setor de emergência estressante de um grande hospital. Na última sessão, de manhã cedo, fiquei impressionado ao saber que alguns dos presentes tinham acabado de encerrar um turno de 13 horas, iniciado às 8 da noite anterior.

Um dos pontos de interesse deste estudo é o alto índice – cerca de 60 por cento – de esgotamento entre os integrantes da equipe médica. São pessoas de temperamento forte e resilientes. Eles compartilham uma motivação intensa, profunda (perigosamente profunda) de ajudar àqueles que necessitam. Mas me perguntei se eles participarem da sessão de quatro horas imediatamente após uma noite inteira de medicina de emergência iria reduzir ou aumentar o risco ocupacional de esgotamento. Eles sentiam, claramente, que iria ajudá-los. Apesar do desafio da meditação diária que eles estavam encarando em seu cotidiano altamente exigente, com o trabalho e a família impelindo-os a se doarem ainda mais, eles encararam o curso como uma excelente oportunidade e estavam determinados a aproveitar o máximo.

Eles ouviram um chamado e iniciaram uma peregrinação. Este é o tema das leituras do Êxodo da Quaresma que descrevem o mito inextinguível dos israelitas conduzidos para fora do Egito, vagando pelo deserto durante 40 anos, se preparando para a terra prometida onde corre leite e mel. A história oficial não mostra evidências dessa escravidão e fuga, mas o mito está para sempre cravado na cultura e na imaginação das tradições Judaica e Cristã.

Na primeira leitura de hoje, lemos sobre Abraão ouvindo o chamado de “sai da tua terra, da tua família e da casa de teu pai, e vai para a terra que eu vou te mostrar”. Para ele e para os monges irlandeses, que acreditavam que não poderiam ser monges em seu próprio país e viveram vidas de exílio auto-imposto, o desafio de deixar o lar familiar e partir rumo ao desconhecido está profundamente arraigado na psique. Compete com nossa necessidade de casa, segurança e família, assim como nosso desejo de repouso ou morte se entrelaça com eros, nossa avidez pela vida.

São Paulo descreve as contradições interiores com as quais lutou, dividido entre as privações e a rejeição a que ele se expôs e a paz e a alegria liberadas dentro dele através de sua descoberta do Cristo. Ele fala disto como uma graça concedida ‘antes do princípio dos tempos’. Nós existíamos na imaginação divina antes do Big Bang trazer tempo e espaço, paz e esgotamento, lar e vaguear pela existência.

Assim, dia a dia fazemos nossa peregrinação, mesmo que seja de casa para o trabalho, deixando o lar e a família, explorando o mundo estranho dos outros e encontrando suas necessidades com nossos recursos limitados. Ou nos esgotamos ou somos transfigurados. A diferença está no fato de termos permanecido imóveis pelo momento necessário para sermos tocados pela graça que existe antes do tempo.

 

Quaresma 2017

Estas leituras diárias, escritas por Laurence Freeman, um monge beneditino e diretor da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, servem como ajuda para termos uma melhor Quaresma. Este é um tempo definido de preparação para a Páscoa, durante o qual uma atenção especial é dada para a oração, maior generosidade  com os outros e o auto-controle.

É um costume abrir mão de algo, ou restringir o uso de alguma coisa durante a Quaresma mas também fazer algo adicional que beneficiará a sua espiritualidade e o tornará mais simples.  A leitura destas reflexões proverá coragem para que se torne a meditação uma prática diária ou, se já é, que se aprofunde a prática, preparando-se para os momentos de meditação com mais cuidado. As meditações da manhã e da noite se tornam então os centros espirituais de seu dia. Esta é a tradição, um modo muito simples de meditação, que nós ensinamos: 

Sente-se com a coluna ereta em quietude. 

Feche seus olhos levemente. 

Fique na posição sentada relaxadamente, mas alerta. 

Silenciosa e interiormente, comece a repetir uma oração de uma única palavra.

Recomendamos a palavra oração "Maranatha". 

Recite-a como quatro sílabas de igual duração.

Ouça-a enquanto a vai repetindo com suavidade, mas continuamente. 

Não pense ou imagine nada - mesmo que seja de ordem espiritual. 

Se vierem pensamentos ou imagens, considere-os apenas como distrações no período da meditação, e então volte apenas a repetir a sua palavra. 

Medite a cada manhã e a cada fim de tarde por cerca de vinte a trinta minutos.

Meditar com outros, em um grupo semanal, ajuda bastante a desenvolver a prática em sua vida diária.

 


 

Texto original em inglês

Second Sunday of Lent

We are presently participating in a clinical trial observing the influence of meditation on a group of doctors and nurses working in a very stressful emergency department of a large hospital. At the last session, in the early morning, I was impressed to learn that some of those present had just come off a thirteen hour shift that started at 8pm the night before. 

One of the interests of the study is the high rate – up to sixty per cent – of burnout among the medical staff. Temperamentally they are strong and resilient people. They share an intense, deep (dangerously deep) motivation to help others in need. But I wondered if their coming to the four hour session immediately after a full night of emergency medicine was going to reduce or add to the occupational danger of burnout. Clearly they felt it was going to help them. Despite the challenge of daily meditation that they faced in their over- demanding lives, with work and family pulling them to give ever more, they saw the course as a wonderful opportunity and they were determined to make the most of it.

They had felt a call and they had started a pilgrimage. This is the theme of the Exodus readings of Lent that describe the imperishable myth of the Israelites led out of Egypt and wandering for forty years in the desert, getting ready for the promised land where milk and honey flowed. Recorded history shows no evidence of such an enslavement and escape but the myth is forever embedded in the culture and imagination of the Jewish and Christian traditions.

In the first of the readings for today we read of Abram hearing the call to ‘leave your country, family and father’s house.. for the land I will show you.’ For him as for the Irish monks, who believed they couldn’t be a monk in their own country and lived lives of self-imposed exile, the challenge to leave the family home and set out into the unknown is deeply embedded in the psyche. It competes with our need for home, security and familiarity, just as our desire for rest or death tangles with eros, our lust for life.

St Paul describes the interior contradictions he struggled with, torn between the hardships and rejection he exposed himself to and the peace and joy released in him through his discovery of Christ. He speaks of this as a grace granted ‘before the beginning of time’. We existed in the divine imagination before the Big Bang brought time and space, peace and burnout, home and wandering into existence.

The gospel today is about the Transfiguration. In The Good Heart, where the Dalai Lama comments on this passage he refers to the Tibetan idea of the rainbow body, which explains how the physical body is transfigured in those who have achieved the highest enlightenment and yet remain in this world to continue to help those in need. 

So day by day we make our pilgrimage, even if it is a commute, leaving home and family, exploring the strange world of others and encountering their needs with our limited resources. We either burn out or we are transfigured. The difference lies in whether we have been still for the one moment necessary to be touched by the grace existing before time.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.