Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sexta-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

A interioridade, primeiro elemento com o qual Jesus descreve o significado da oração, é um produto raro hoje em dia. Desde a nossa infância somos treinados a ver a vida como uma série de objetivos e realizações exteriores. Podemos ser bem ou mal sucedidos em cada um deles. De qualquer maneira, somos treinados para focar exteriormente na próxima montanha a escalar, no próximo obstáculo a transpor ou oportunidade a aproveitar. Um dia, então, talvez caiamos de uma bicicleta. 

Isso aconteceu com um aluno meu que tinha uma vida muito disciplinada e educação militar. Ele falou sobre esse acontecimento quando voltou a meu curso um ano mais tarde, como convidado para falar com a turma. Ele havia sido atropelado por um caminhão e jogado longe, ferindo o rosto seriamente e sofrendo lesões cerebrais. Quando mostrou suas fotos à classe, foi difícil acreditar que tinha se recuperado tão bem como se recuperou. As lesões ósseas que sofreu foram curadas, mas ele ainda tinha dores de cabeça terríveis. Foi quando ele descobriu que a meditação era a única maneira de estancá-las. Os médicos lhe disseram para não fazer nada e dormir o maior tempo possível, e acrescentaram: “Tente não pensar”. Esse último conselho o intrigou. Como é possível parar de pensar? Então ele se lembrou de que o ponto central da meditação era não pensar, certo?

Sua determinação em melhorar, sua falta de autocomiseração e negatividade nos impressionaram a todos. Mas, mais do que isso, o que impressionou foi sua mudança pessoal depois que essa provação lhe mostrou que a vida não era feita só de objetivos exteriores. Ele descobriu sua vida interior. Descobriu que era o sujeito da escalada de suas montanhas e das oportunidades que queria aproveitar ao máximo.

Meu ex-aluno não foi a primeira pessoa a dizer que uma tragédia, algo que nos dá calafrios só em pensar, tinha lhe ensinado algo ainda mais valioso que o sofrimento que a acompanhava. Com o despertar da dimensão interior da consciência, vieram também o discernimento e a perspectiva. Tudo na vida pôde ser mais bem avaliado e priorizado. A ilusão e a realidade se distinguiram uma da outra muito mais obviamente.

Enfatizando isso, Diádoco, nosso amigo de 16 séculos atrás, descreve as energias características da sabedoria e do conhecimento espiritual. De acordo com ele, ambos são puro dom do Espírito Santo. O conhecimento espiritual vem através da “oração, da profunda quietude e de total desapego”. O conhecimento espiritual nos une a Deus através da experiência, mas não nos leva a falar sobre ele. O que acontece no silêncio fica em silêncio. Portanto, podemos ser conscientemente iluminados pelo conhecimento interior sem precisar expressá-lo exteriormente. Mas a sabedoria pode vir também—mais raramente, diz Diádoco—como graça complementar para articular esse conhecimento, especialmente com a ajuda das Escrituras.

O conhecimento espiritual tem prioridade. Para encontrá-lo, são necessários períodos de quietude e a prática do desapego, que temos a oportunidade de aproveitar durante a Quaresma. Eles nos preparam para esse conhecimento. Como opção, sempre podemos esperar até ter um acidente de bicicleta um dia...

 


 

Texto original em inglês

Friday Lent Week One

Interiority – the first step in how Jesus describes the meaning of prayer – is today quite a rare commodity. From early days we are trained to see life as a series of external goals and achievements. We may succeed or fail in them. Either way, our focus is trained outward to the next mountain we have to climb, hurdle or opportunity. Then, one day, perhaps we get knocked off our bike.

This happened to a student of mine with a very disciplined life and military background. He spoke about it when he came back a year later as a guest speaker to the class. He had been hit by a truck and went flying, hurting his face seriously and suffering brain damage. He showed the class photos of himself and it was hard to believe he had recovered as well as he had. Apart from the bone damage which had been repaired, he still suffered from terrible headaches. He had found that meditation was the only way to stop them. The doctors told him to do nothing, sleep as much as possible and added, ‘try not to think’. This last advice puzzled him. How can you stop thinking? Then he remembered that meditation was all about not thinking, right?

His determination to get better and his lack of self-pity or negativity impressed us all. But even more was the change in him personally, after his ordeal had showed him that life was not only about outward goals. He had discovered his inner life. He knew himself to be the subject of the mountains he wanted to climb and the opportunities he had to make the most of.

He was not the first person to say that a tragedy, that we would all cringe at even imagining, had taught him something more valuable than the suffering that accompanied it. With the awakening of the interior dimension of consciousness came discernment and perspective. Everything in life could then be better valued and prioritized. And illusion and reality stood out from each other much more obviously.

Highlighting this, Diadochus, our friend of sixteen hundred years ago, describes the distinctive energies of wisdom and spiritual knowledge. According to him, both are pure gifts of the Holy Spirit. Spiritual knowledge comes through ‘prayer, deep stillness and complete detachment’. It unites us to God through experience. But it does not lead us to talk about it. What happens in silence stays in silence. So, we can consciously illuminated by interior knowledge without needing to express it outwardly. But wisdom can come, mnore rarely Diadochus says, as a complementary grace to articulate this knowledge especially with the help of scripture.

Spiritual knowledge has priority. To find it, times of stillness and practicing detachment are necessary as we have the opportunity for in Lent. They prepare us for this knowledge. Alternatively, we can always wait to be knocked off our bike.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.