Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-feira da Primeira Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

A ilusão pode ser, no início da sua existência, muito inspiradora. Como um candidato que promete tudo, de graça, um desses falsos messias que cruzamos regularmente hoje em dia, ou uma cintilante celebridade, cujo sucesso reluzente invejamos e imaginativamente fazemos nosso, a ilusão dá alívio temporário à dor associada com nossas necessidades não satisfeitas ou desejos frustrados. Mas sempre, no final, ela explode. 

O processo de desilusão é doloroso, na proporção do tempo e da profundidade que nos permitimos ser seduzidos. Quanto maior a multidão em nosso entorno embarcando na mesma ilusão, tanto mais provável é que sejamos sugados ao fundo no vórtice destrutivo.

Fortalecemos a existência falsa da ilusão focalizando-a e nos comportando como se fosse real. O irreal pode então desta forma tornar-se muito poderoso, e até mesmo assumir uma vida autônoma, que afeta pessoas coletivamente. As tiranias começam com a fantasia desafiadora dos fatos alternativos.

Diádoco afirma que resistimos a esse crescimento da ilusão, que acabaria por engolir toda a liberdade, simplesmente prestando atenção à ‘lembrança de Deus’. Simone Weil disse algo semelhante: em face de um mal que você não pode derrotar, preste atenção ao bem. Certamente, quando nossa percepção da realidade está tão obscurecida pela ilusão que não temos certeza do que é verdadeiro ou falso, isso fica difícil de compreender. Significa mais do que pensar sobre o que pode (ou não) ser bom. Na meditação prestamos atenção ao bem, primeiramente à nossa própria bondade, afastando a atenção dos pensamentos e imagens, bem como largando todos os julgamentos. Ao dizer o mantra, prestamos atenção pura - não a qualquer coisa que pensamos ou trazemos à existência por desejo e imaginação - mas ao silêncio do ser, do que realmente é. Na existência (que significa tudo o que sai do ser e se torna visível), há sempre o perigo da falsidade. No ser (que significa contemplação) a simplicidade radical da atenção pura filtra o irreal e o descarta.

Diádoco diz que podemos fazer isso, contanto que possamos ‘persuadir nossa alma a não ser distraída pelo brilho falso desta vida’. Deixemos a questão realidade-ilusão por um momento. Onde você diria, nesta primeira semana da Quaresma, que este brilho falso se acumula em sua vida?

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week One

When illusion begins to exist it can be, at first, very uplifting. Like a candidate who promises everything for nothing, one of the false messiahs we get through regularly today, or like a glittering celebrity whose sleek success we envy and imaginatively make our own, illusion gives temporary relief from the pain associated with our unmet needs or frustrated desire. But always, in the end, it explodes. The process of disillusionment is painful, according to how long and deeply we have allowed ourselves to be seduced. The bigger the crowd around us buying into the same illusion, the more likely we are to be sucked deep into the destructive vortex.

We strengthen the false existence of illusion by focusing on it and by acting as if it were real. The unreal can then become very powerful in this way and even assume an autonomous life that affects people collectively. Tyrannies begin with the defiant fantasy of alternative facts. 

Diadochus says that we resist this growth of illusion, which would eventually swallow all freedom, simply by paying attention to the ‘remembrance of God’. Simone Weil said something similar: in the face of an evil that you cannot defeat pay attention to the good. Of course, when our perception of reality has been so clouded by illusion that we are not sure what is true or false, this is challenging to understand. It means more than thinking about what might (or not) be good. In meditation we pay attention to the good, firstly to our own goodness, by transferring attention from thoughts and images and by dropping all evaluations. By saying the mantra, we pay pure attention - not to anything we think or bring into existence by desire and imagination - but to the silence of being, of what really is. In existence (meaning everything that steps out of being and becomes visible) there is always the danger of falsehood. In being (meaning contemplation) the radical simplicity of pure attention filters the unreal and disposes of it.

Diadochus says we can do this provided that we can ‘persuade  our soul not to be distracted by the false glitter of this life.’  Let’s leave the reality-illusion question there for a while. Where would you say, in this first week of Lent, that this false glitter accumulates in your life?

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.