Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Terça-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman

Começamos o retiro da Semana Santa na Ilha de Bere. Em parte, isso explica meu atraso na entrega desta reflexão diária – pelo que peço desculpas à maravilhosa equipe de tradutores da nossa comunidade, que compartilham esses textos em dez línguas.

Gostei do fato de que muitos dos leitores destas reflexões diárias usaram parte de seu tempo para enviar-me suas observações. Isso me recordou que somos todos parte de uma conversa. A palavra “conversa” geralmente evoca o sentido de “falar juntos”, mas este é um significado tardio - do século 16, acho. Seu significado original é sugerido pelo voto de São Bento de “conversatio morum”, mudança nos valores e no nosso modo de vida.

Fundamentalmente, conversar é “virar-se para” algo juntos, levando nossa atenção para um ponto comum, e “viver juntos” naquele modo de olhar e ver. (Olhar nem sempre é ver. Mas temos de olhar primeiro, antes de poder realmente ver).

Nesta semana santa estamos em conversa uns com os outros, e também com a grande história dos últimos dias de Jesus. As escrituras cristãs, entretanto, não são sutras ou upanishads. As grandes reflexões intelectuais e teológicas da fé em torno da pessoa de Jesus vieram mais tarde.

O âmago da conversa dessa semana é uma história. Pode ser estranho pensar porque os evangelhos - as escrituras centrais do cristianismo - dão uma atenção aparentemente desproporcional ao fim de sua vida. No entanto, quando recordamos os últimos dias da vida de alguém que amamos entendemos o porquê: o sentido da vida e do amor torna-se mais claro quanto mais vulnerável e frágil está. A meditação nos ensina isso, se deixarmos que ela nos torne pobres.

 


 

Texto original em inglês

Tuesday of Holy Week

We have started the Holy Week retreat on Bere Island. This partly explains my lateness in delivering this daily reflection – for which I apologise to the wonderful team of translators in our community who are sharing them in ten languages.

I have appreciated many readers of these daily reflection for taking the time to send me their comments. This has reminded me that we are all part of a conversation. The word ‘conversation’ usually evokes the sense of speaking together but this is a late meaning – from the 16th century I think. Its original meaning is suggested by St Benedict’s vow of ‘conversatio morum’, change in values and our way of life.

Conversation is primarily about ‘turning towards’ something together, training our attention on a common point and ‘living together’ in that way of looking and seeing. (To look at is not always to see. But you have to look first before you can truly see what is).

This holy week we are in conversation with each other and also with the great story of the last days of Jesus. The Christian scriptures however are not sutras or upanishads. The great intellectual and theological reflections of the faith I around the person of Jesus came later.

The heart of the conversation of this week is a story. It may be puzzling why the gospels, the core scriptures of Christianity, seems to give such disproportionate attention to the end of his life. Yet, when we recall the last days of life of someone we have loved, we understand why: the meaning of life and love becomes clearest when it is most vulnerable and fragile. Meditation teaches us this if we let it make us poor.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.