Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sexta-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

No livro O Dalai Lama Fala de Jesus, o Dalai Lama comentou sobre as Bem-Aventuranças de Jesus ("Bem-aventurados os...") a partir de uma perspectiva Budista. Eu me lembro do seu olhar de concentração conforme ele as lia, talvez pela primeira vez, e explorava o seu significado. O seu primeiro, para mim surpreendente, comentário foi de que elas expressavam a lei de causa e efeito.

Elas decidem como responderemos a cada evento, a cada reviravolta e mudança inesperada.  Mas como a felicidade é um resultado sutil ao invés de um gol desejado, assim a sabedoria das bem-aventuranças está escondida num paradoxo, até mesmo num absurdo aparente.

Como, ‘Felizes os que choram porque serão consolados’. Para lamentar, temos que renunciar à negação. Na presença de perda ou desapontamento nossa primeira resposta é ‘oh, não’. Mentalmente nós acionamos o botão da pausa, para parar o que está acontecendo e para que possamos rebobinar. Mesmo quando fomos esmagados por algo doloroso e já começamos a lidar com o fato permanece em nós uma resistência à força da realidade que nos atingiu. Como uma pessoa invadida por um poder hostil nós não temos escolha, mas nos render. Porém secretamente nós resistimos e negamos.

Lamentar é encarar a parte mais difícil da verdade sem tentar alterar a realidade com a nossa imaginação. Isto é também o que nós fazemos na meditação quando deixamos ir todas as cenas surpreendentes e os jogos de fantasia. Como resultado nós nos tornamos menos fantásticos e mais criativamente imaginativos. Mas há um aspecto de luto na meditação por esse motivo.

Um jovem aprendendo a meditar contou-me que ele estava encontrando muita dificuldade em seguir adiante. Ele se considerava sortudo se ele conseguisse meditar por dez minutos de cada vez. Ele não podia relacionar-se aos outros em seu grupo que cantavam os louvores da meditação e descreviam seus benefícios. Mesmo assim ele não tinha desistido e não pretendia fazê-lo. Em seguida ele casualmente acrescentou que tinha chorado durante a maior parte de suas sessões de meditação. Como outros com esse ‘dom das lágrimas’, como os padres do deserto chamavam, ele não se sentiu triste ou com dor. Foi somente um transbordamento – do quê? Talvez do passado esquecido exigindo seus direitos de ser integrado no presente.

Lamentar não é essencialmente triste. É a recusa da falsa consolação. É o grande ato de aceitar o que é o mais difícil de ser aceito. Tão logo seja aceito é integrado. É reconhecido como parte da história que somos nós.  Isso por si só é imensamente reconfortante.

(Procure por isso na história da Paixão onde vemos Jesus lamentando antes de morrer enquanto seus companheiros não podem aceitar o que está acontecendo.)

 


 

Texto original em inglês

Friday of Lent – Week 5

It is hard to imagine the Beatitudes as a feature in the Lifestyle section of a Sunday edition of the New York Times. Yet they are in a sense a life-style choice because they express seminal truths that determine our way of life. They decide how we respond to every event, every unexpected twist and turn. But as happiness is a subtle result rather than a desired goal, so the wisdom of the beatitudes is hidden in paradox, even apparent nonsense.

Like, ‘Happy are those who mourn for they shall be comforted’. To mourn we have to renounce denial. In the face of loss or disappointment our first response is ‘Oh, no’. We mentally look for the pause button, to stop what is happening so that we can rewind. Even when we have been overwhelmed by something painful and have started to deal with it there remains in us a resistance to the force of reality that has struck us. Like a people invaded by a hostile power we have no choice but to surrender. But secretly we resist and deny.

To mourn is to face the hardest part of the truth without trying to alter reality with our imagination. This is also what we do in meditation by letting go of all the amazing scenes and games of fantasy. As a result we become less fantastical and more creatively imaginative. But there is a mourning aspect to meditation for this reason.

A young man learning to meditate told me once that he was finding it very hard going. He was lucky if he could do ten minutes at a time. He couldn’t relate at all to the others in his group who were singing the praises of meditation and describing its benefits. Yet he hadn’t given up and did not intend to. Then he casually added that he wept during most of his meditation sessions. Like others with this ‘gift of tears’, as the Desert monks called it, he did not feel sad or in pain. It was simply an overflow – of what? Perhaps the forgotten past claiming its right to be integrated into the present.

Mourning is not essentially sad. It is the refusal of false consolation. It is the great act of acceptance of what is hardest to accept. As soon as it is accepted it is integrated. It is acknowledged as part of the story that we are. That in itself is immensely comforting.

(Look for this in the Passion story where we see Jesus mourning before he dies while his companions cannot accept what is happening.)

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.