Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

No livro O Dalai Lama Fala de Jesus, o Dalai Lama comentou sobre as Bem-Aventuranças de Jesus ("Bem-aventurados os...") a partir de uma perspectiva Budista. Eu me lembro do seu olhar de concentração conforme ele as lia, talvez pela primeira vez, e explorava o seu significado. O seu primeiro, para mim surpreendente, comentário foi de que elas expressavam a lei de causa e efeito.

Isso é útil. Alguns Cristãos pensam na felicidade (uma característica do reino dos ceús) somente como algo que é dado por Deus como uma recompensa por ser virtuoso. Além disso, eles geralmente identificam a virtude principalmente com a auto-negação ao invés de, como Platão a via, o preenchimento do potencial humano. Se a felicidade não é um produto do estilo de vida que adquirimos ao tentar possuí-la, também não é algo que ganhamos meramente devido ao nosso comportamento moral ou à observância religiosa. A coisa sutil sobre a felicidade é que é um resultado natural de alguma coisa, parte de um processo de causa e efeito, mas, quando ela é derramada sobre nós, se parece com uma absoluta e incondicional dádiva.   

As Bem-Aventuranças relacionam a felicidade com um estado de benção e capturam esta qualidade delicada em verdades paradoxais que são ao mesmo tempo surpreendentes e óbvias. Como a primeira, na qual "Felizes os pobres (ou pobres em espírito), porque deles é o Reino do Céu." O que pobres ou pobreza de espírito significa? O que seria o Reino do Céu? Estas e outras questões provocadas por um ensinamento espiritual com a profundeza das Bem-Aventuranças trazem implícitas todos os valores e o significado de nossas vidas. Elas merecem ser degustadas, ponderadas e discutidas regularmente. Tente digerir uma das Bem-Aventuranças depois de cada meditação na caminhada até a Semana Santa.

Com a primeira, você deve enxergar que você já está praticando ela. O objetivo do mantra é tornar você o mais pobre possível. É muito mais difícil dizê-lo quando você pensa que está dizendo para enriquecer a si mesmo. Mas quando você enxerga que o significado é deprivar a si mesmo de suas possessões se torna mais fácil -- o esforço que você precisa fazer para dizê-lo se torna melhor afinado à sua simplicidade essencial. A possessividade começa com o pensamento "isso é meu". Este pensamento é perigoso como uma serpente. Ele desliza em tudo, se esconde bem e pode atacar com seu veneno em um instante. Nós achamos ter certeza de que não somos particularmente possessivos até que algo nos ameaça e então defendemos nosso direito de posse e controle até a última gota.  

A pobreza (de espírito) compreende deixar de lado nossos pensamentos, todos os pensamentos, porque "isso é meu" invade e ocupa todos eles. Todo pensamento é purificado na meditação. O resultado disso é a capacidade de aproveitar o que a possessividade destrói. Quando nós começamos a aproveitar o que é, sem nos agarrarmos às coisas e sem planos secretos de possuí-las, nós já deslizamos aqui e agora para o Reino do Céu. 

 


 

Texto original em inglês

Thursday Lent Week 5

In The Good Heart The Dalai Lama commented on the Beatitudes of Jesus (‘Happy are ..’) from a Buddhist perspective. I remember his look of concentration as he read them, perhaps for the first time, and explored their meaning. His first, to me surprising, comment was that they expressed the law of cause and effect.

This is helpful. Some Christians think of happiness (a feature of heaven) only as something that is given by God as a reward for being virtuous. They will often also identify virtue primarily with self-denial rather than, as Plato saw it, as the fulfilment of human potential. If happiness is not a lifestyle product we acquire by seeking to possess it, nor is it something that we earn merely by moral behaviour or religious observance. The subtle thing about happiness is that it is a natural result of something, part of a cause-effect process but, when it pours over us, it feels like sheer, unconditional gift.

The Beatitudes link happiness with blessedness and capture this subtle quality in paradoxical truths that are both surprising and obvious. Like the first one, that “Happy are the poor (or the poor in spirit) for theirs is the kingdom of heaven.” What does poor or poverty of spirit mean? And what on earth is the kingdom of heaven? These and the other questions provoked by a spiritual teaching of the depth of the Beatitudes implicate all the values and meaning of our lives. They deserve to be chewed, pondered and discussed regularly. Try swallowing one of the Beatitudes after each meditation in the run-up to Holy Week.

With the first, you have only to see that you have just been practicing it. The mantra is intended to make you as poor as possible. It is much harder to say when you think you are saying it to enrich yourself. But when you see it is about divesting yourself of your possessions it becomes easier – the effort you need to say it becomes better attuned to its essential simplicity. Possessiveness begins with the thought ‘this is mine’. This is such a snake-like thought. It slithers into everything, hides itself well and can strike out with its poison in a flash. We can feel sure that we are not particularly possessive until something threatens us and then we defend our right to ownership and control to the last drop.

Poverty (of spirit) entails laying aside our thoughts, all thoughts because ‘this is mine’ invades and occupies them all. All thought is fumigated in meditation. The result of this is the capacity to enjoy which possessiveness destroys. When we start enjoying what is, without clinging to it and without covert plans to own it, we have already slipped here and now into the kingdom of heaven.

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.