Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarta-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Muito se fala sobre felicidade nesses últimos tempos. É verdade que muitas vezes pagamos bem caro pelo conforto e pelas facilidades e não raro a felicidade e paz de consciência acabam sendo parte desse preço.

Frequentemente me sinto triste pelos estudantes cujas vidas parecem estar corroídas tão cedo pelo estresse e pela ansiedade, surtos de pânico e insônia no seu íngreme caminho para o sucesso. Dias de folga escolar, quando se tem tempo para ler por prazer e explorar os próprios problemas e questões sobre a vida e a própria identidade, parecem não mais existir. O mundo acadêmico se tornou motivacionado e os estudantes se ocupam mais da qualificação do que da educação. O nosso mais recente Seminário Meditatio sobre Ciência focou esta questão tão preocupante para nossa cultura moderna.

Não nos surpreende, portanto, que onde haja uma lacuna, sempre aparece um produto para preenchê-la. Muitas vezes a felicidade é apresentada como um produto que podemos adquirir através de um curso que podemos fazer, pela compra de um novo aparelho, arranjando tempo para escalar o Everest ou pela assinatura de mais um pacote de canais de TV. Os cadernos de Jornais sobre estilo de vida estão cheios de conselhos especializados e espiritualidade de consumo, sobre como tirar o melhor proveito da vida. Oferecem modelos invejáveis, cujos sorrisos caros nos atraem a imitá-los.

Por vezes, até mesmo o pobre velho Cristianismo, com menos glamour mas com grande convicção, pode nos sugerir que acreditando em tal coisa, desistindo disto ou daquilo, e claro, indo à igreja, teremos a resposta para reencontrar a felicidade. Em grandes linhas, o produto pode ser melhor, mas normalmente o seu marketing só funciona porque é muito mau. Num mundo de glamour convincente e alto padrão da mídia, a Igreja se destaca ao menos por ser, bem, diferente.

Percebo que as pessoas reagem quando lhes é dito que a meditação não resolve os seus problemas. Se você tem uma dívida ao se sentar para meditar, você ainda estará endividado depois da meditação. Talvez elas estejam vislumbrando uma outra razão para fazer alguma coisa, que não seja a razão pela qual elas tenham sido persuadidas de que era aquela natural. Essa razão convencional é o interesse próprio e a autorrealização.

Como poderíamos fazer o marketing daquela verdade imutável de que a felicidade acontece àqueles que estão expandindo sua consciência para além do ego, e não inflando o ego? O ego inflado que busca a felicidade é a situação mais triste que existe. Como podemos lembrar do óbvio, que a felicidade acontece àqueles que se preocupam com a felicidade dos outros?

Talvez alguns dos meios que escolhemos para tentar colocar em prática nesta Quaresma tenham afinado essa percepção em nós. Nesse caso, eles também auxiliaram em nossa preparação para aquilo que os próximos dias, nos sagrado jogo deste período litúrgico, nos ensinarão sobre o segredo da felicidade.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent Week 5

There is a lot of talk about happiness these days. It is true that we often pay a high price in the first world for our affluence and high levels of comfort and convenience and often happiness and peace of mind is part of the price. 

I often feel sad for students whose lives seem blighted so early by stress and anxiety, panic attacks and insomnia on their steep path to success. The days of scholarly leisure, when one had time to read for pleasure and explore one’s own ordinary problems and questions about life and identity, seem long gone. Academia has become driven and students caught up in qualifications rather than education. Our recent Meditatio Seminar on Science addressed this disturbing question for our modern culture.

Not surprisingly then, where there is a gap a product appears to fill it. Happiness is now often presented as a commodity we can acquire by doing this course, buying that device, taking time to trek Everest or buy a subscription to more cable TV Channels. Lifestyle sections of newspapers brim over with expert advice and consumer spiritualities, on how to get the most out of life. They offer enviable role models whose expensive smiles lure us into imitation.

Sometimes even poor old Christianity, with less glamour but great earnestness, suggests that believing this, giving up that and, of course, coming to church, will be the answer to being happy again. It may have on the whole a better product but usually its marketing only works because it is so bad. In a world of glib glamour and high media standards the church stands out at least for being, well, different.

I notice people look up when they are told that meditation does not solve your problems. If you are in debt before you sit down to meditate you will still be in debt after meditating. Maybe they are glimpsing another reason for doing something other than the reason they have been persuaded is the natural one. That conventional reason is self-interest and self-fulfilment. 

How do we market the timeless truth that happiness comes to those who are expanding their consciousness beyond the ego, not inflating the ego? The inflated ego in pursuit of happiness is the saddest fate of all. How do we remember the obvious, that happiness comes to those who are concerned about the well-being of others?

Maybe some of the skilful means we have been trying during Lent have sharpened this perception for us. If so, they will also have helped prepare us for what the coming days, in the sacred game of the liturgical season, will teach us about the secret of happiness.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.