Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Segunda-feira da Quinta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Soren Kierkegaard acreditava que chega um momento crítico na vida em que “a grande questão a ser compreendida passa a ser, cada vez mais, que existe algo que não pode ser compreendido”.

Alguns séculos antes dele, A Nuvem do Não Saber destilou a tradição mística cristã ao dizer que “pelo amor podemos conhecê-lo; pelo pensamento, nunca”. Este é, aparentemente, um ponto difícil de ser captado para muitos ocidentais guiados pelo hemisfério esquerdo do cérebro. Contudo, a vida nos apresenta continuamente algumas portas de entrada para o mistério que nossos esquemas, modelos da realidade, ideologias e explicações para as coisas simplesmente se desfazem diante da realidade que enfrentamos.

Este encontro com o mistério da realidade é também um encontro com a realidade inescapável do mistério. Nossas mentes comuns vacilam e não conseguem computar algumas coisas. Mas não podem negar que essas coisas existem e que são poderosas forças de transformação.

A morte de alguém que amamos, apaixonar-se, sofrer um desgosto ou fazer uma descoberta criativa são coisas que podem desencadear eventos que, por sua vez, exigem de nós compreender verdadeiramente que algumas coisas não podem ser compreendidas, mas apenas sabidas, ponderadas e respeitadas. 

Nestes últimos dias da quaresma nós nos preparamos para passar pelo portal do mistério contido nos eventos recordados e comemorados durante a Semana Santa. Quanto mais bem preparados estivermos para lidar com o que não podemos compreender facilmente, mais significativos esses eventos serão para nós este ano. Para preparar-se para isso é necessário, a esta altura, não fazer nada novo, mas fazer o que temos feito ou pretendíamos fazer com um empenho renovado.

 


 

Texto original em inglês

Monday of Lent – Week 5

Soren Kierkegaard thought that there comes a critical moment in life where the ‘point becomes to understand more and more that there is something which cannot be understood.’

A few centuries before him, the Cloud of Unknowing distilled the Christian mystical tradition in saying that ‘by love we can know him, by thought never’. This is an apparently hard point to grasp for many western, left-brain biased people. Yet life continually presents us with entry points to mystery where our blue-prints, models of reality, ideologies and explanations for things simply crumble before the reality we are facing.

This encounter with the mystery of reality is also an encounter with the inescapable reality of mystery. Our ordinary minds falter and fail to compute some things. But they cannot deny that these things exist and that they are powerful forces of transformation.

The death of someone we love, falling in love, suffering a disappointment or a breakthrough in creative thinking may initiate a chain of events requiring us truly to understand that some things cannot be understood, just known, pondered and respected.

In these last days of Lent we get ready for the portal of mystery contained within the events re-called and commemorated during Holy Week. The better prepared we are for handling what we cannot easily understand the more significant these events will be for us this year. To prepare for this it is necessary, at this stage, not to undertake anything new but to do what we have been doing or intended to do with new resolve.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.