Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinto Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quinto Domingo da Quaresma 2016

O Evangelho de hoje, sobre uma mulher flagrada em adultério e prestes a ser apedrejada até a morte, mostra-nos como o mestre de luz pode ser encontrado. Se verdadeiramente o encontramos e reconhecemos – e que sentido tem encontrar o que procuramos, mas não reconhecer? – irremediavelmente, nos enamoraremos.

Uma outra leitura da Missa de hoje, de Filipenses, descreve esse humilhante e exaltado estado de amor: “Por ele, perdi tudo e tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo como minha justiça aquela que vem da Lei, mas aquela pela fé em Cristo.” É devastadoramente fascinante descobrir que o centro de seu mundo não está mais em você mesmo. Por vezes acontece de você se recolher à familiar acomodação autocentrada,  mas então, você se move novamente em direção à queda livre do amor. Em muitos casos, estar centrado no outro, e o êxtase que vem com isso, não é verdadeiro. Ele se extingue. Podemos deixar de amar alguém e encontrar um amor mais forte. Este é o ponto em que encontramos pela primeira vez o Romeu de Shakespeare. Ao final, se tivermos sorte, nos entregamos ao amor não com qualquer deleite que o amor nos dará mas com o próprio amor.

Reconheceremos este momento porque o amor parecerá afastar-se de nós, dando-nos espaço. Como Jesus que, quando desafiado pela hostilidade mesquinha de seus questionadores, ignora a armadilha deles, olha para o outro lado e inclina-se para escrever com seu dedo na areia. A pergunta deles cai no espaço entre eles. Deveriam eles obedecer a Lei e apedrejá-la: a diluída mensagem dele de misericórdia será exposta como uma fraude. Ou, deveria ele perdoá-la e assim, excluir a si mesmo de sua tradição: um frio exílio. Ele não apenas escreve, mas reescreve a pergunta.

Em uma entrevista coletiva, o Papa Francisco foi questionado acerca de sacerdotes homossexuais, por jornalistas que estavam interessados em uma manchete e não em um ensinamento. Ele lhes deu o que buscavam: “Quem sou eu para julgar?”. Liberais ficaram satisfeitos e conservadores ofendidos, ambos talvez  por razões equivocadas. Jesus também abdicou do papel de julgar que quiseram atribuir a ele. Juízes são um mal necessário em toda sociedade humana. Eles parecem todo-poderosos, mas na realidade estão confinados aos estreitos recintos dos precedentes do passado e da minúcias do presente. Jesus ‘não veio para julgar, mas para salvar’.

O que ele escreveu no chão? Por que Buda, quando desafiado, tocou o chão e disse que a terra era testemunha da autoridade de sua iluminação?  A resposta de Jesus mostra que o amor não demanda nada mais que o direito terreno de ser misericordioso, de curar e de libertar. Quem, afinal, pode deixar de se enamorar por isso?

 


 

Texto original em inglês

Fifth Sunday of Lent

Today’s gospel, about the woman caught in adultery and about to be stoned to death, shows us how the teacher of light is to be found. If we really find and recognise him – and what’s the point in finding what we are looking for but not recognising it? – we will fall helplessly in love. 

Another reading of the mass today, from Philippians describes this humiliating and exalted state of love: ‘I look on everything as so much rubbish if only I can have Christ and be given a place in him. I am no longer trying for perfection by my own efforts’. It is devastatingly wonderful to discover that the centre of your world is no longer in yourself. At times you may scramble back to the familiar ledge of self-centredness but then you roll off again into the free fall of love. In many cases this other-centredness, and the ecstasy it brings, is not the real thing. It fades. We can fall out of love and find a stronger love. This is the point we first meet Shakespeare’s Romeo. Eventually, if we are lucky, we fall into love not with any delight that love will give us but with love itself.

We will recognise this moment because love will seem to turn away from us, giving us space. As Jesus, when challenged by the small-minded hostility of his questioners, ignores their trap, looks away and bends down to write on the ground with his finger. Their question falls in the space between them. Should they keep the Law and stone her - - his diluted message of mercy will be exposed as a sham. Or should he pardon her and exclude himself from his tradition – a cold exile. He not only writes but re-writes the question.

At a press conference Pope Francis was asked by journalists, looking not for a teacher but a headline, about gay priests. He gave them one: ‘who am I to judge?’ This delighted liberals and outraged conservatives – perhaps both for the wrong reasons. Jesus too declined the role of judge they wanted to thrust on him. Judges are necessary evils in all human society. They seem all-powerful but are actually confined to the narrow precincts of past precedent and present hair-splitting. Jesus ‘came not to judge but heal’. 

What did he write on the ground? Why, when challenged, did the Buddha touch the ground and say that the earth was the witness to the authority of his enlightenment?  Jesus’ response shows that love claims nothing except the earthly right to be merciful, to heal and to set free. Who, in the end, can resist falling in love with that?

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.