Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sábado da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quando nos deparamos com aquelas trevas em nós mesmos, espessas e sem amor, tornamo-nos estranhos para nós mesmos.

Isso é ainda pior do que aqueles períodos em que as trevas, assim como uma densa massa de névoa, nos envolvem exteriormente na forma de doenças repentinas ou de cruéis acidentes. O sentimento de auto alienação se desenvolve assim como uma terrível descoberta interior, tal como se estivéssemos em um filme de terror descobrimos nos porões de nosso próprio lar uma energia estranha e inexplicavelmente hostil.

Quando uma pessoa jovem e saudável recebe o diagnóstico de uma doença potencialmente fatal o mundo se lhe transforma, em questão de segundos. Antes mesmo de o médico pronunciar as palavras fatídicas, seu olhar de simpatia, um repentino contato visual, trai a mensagem que está prestes a ser dada. A pessoa de possibilidades ilimitadas acaba de se tornar um paciente, um objeto de pesquisa, de testes  e de observações e, algumas vezes, um objeto de piedade inadequada. De repente, aparece um perímetro de defesas em volta dela. A sensação do si mesmo se altera radicalmente. Ela procura agarrar a mão de seu cônjuge, ou da pessoa amada, de modo a se reassegurar que ainda está aqui, algo de seu mundo permanece, e que o que lhe foi tirado ainda não é a totalidade.

Isso é ainda pior quando o confronto com a estranheza se origina interiormente. Mais do que descobrir a própria sombra que, no passado, você já conhecia ou havia vislumbrado brevemente. Isto é meramente nosso outro lado, a biografia não oficial, o eu que não se adequa aos detalhes pessoais da persona pública. O cônjuge fiel que é atraído à infidelidade. O prelado eclesiástico com cobiça por dinheiro. A dona de casa dependente de jogo, que vai ao cassino depois de deixar as crianças na escola. Sombras podem ser mais ou menos escuras. Por vezes são apenas cômicas.

Todavia, elas precisam ser observadas e reconhecidas, e o período da Quaresma deveria ter-nos conferido oportunidades de fazê-lo. Na Quaresma o auto-controle e a negação de nossos desejos deveriam ter criado um espaço iluminado para que a sombra se apresentasse. Não há sombra se não houver luz. Não há sombra sem que haja um objeto que bloqueie a luz.

Todavia, a própria treva que encontramos em nós mesmos é um mistério mais profundo que alcança o medo mais primitivo. Sozinhos, somos guerreiros fracos. Normalmente, damos meia volta e corremos. Precisamos de um líder de luz, que possa engolir as trevas e soprar luz.

 


 

Texto original em inglês

Saturday Lent Week 4

When we find that thick, loveless darkness in ourselves we become strangers to ourselves. It is even worse than those times when the darkness, like a dense fog-bank, rolls over us from outside in the form of cruel accidents or sudden illness. The feeling of self-alienation wells up as a terrible discovery from within, as if in a horror movie we discover a strange, inexplicably hostile force living in the cellar of our own home.

When a healthy young person is diagnosed with a potentially life-threatening illness the world changes for them in seconds. Even before the doctor utters the fateful words her look of sympathy, a flash of eye-contact betrays the message about to come. The person of boundless possibility has now become a patient, an object of research, testing and observation, sometimes also an object of awkward pity. A defence ring around them has suddenly come into being. The sense of self is radically altered. They grasp for the hand of their spouse or loved one to reassure themselves that they are still here, something of their world has remained, and that the assault on them has not yet been total.

It is even worse when the confrontation with strangeness comes from within. It is more than finding one’s shadow which, in the past, you already knew or briefly  glimpsed. This is merely the other side of us, the unofficial biography, the self that does not comply with the personal details of the public self. The faithful spouse drawn into infidelity. The ecclesiastical prelate with a lust for money. The housewife with a gambling problem who goes to the casino after dropping the children at school. Shadows can be more or less dark. Sometimes they are merely laughable. 

But they need to be noticed and acknowledged and the time of Lent should have given us opportunities to do so. Lenten self-control and saying no to our desires should have made a light-filled space for the shadow to show itself. No shadow without light. No shadow without an object blocking the light.

But the darkness itself, encountered within ourselves, is a deeper mystery and touches into the most primal fear. By ourselves we are weak warriors. Normally we turn and run. We need a leader of light who can swallow the dark and breathe out light.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.