Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sexta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Há uma passagem bastante sombria no Livro bíblico da Sabedoria que exprime a atitude cínica, destrutiva de um homem que perdeu a esperança. “Curta é a nossa vida, e cheia de tristezas; para a morte não há remédio algum; não há notícia de ninguém que tenha voltado da região dos mortos.” (Sab 2,1)

Através desse coração desesperadamente triste e amargo advém a crueldade – o desejo de ferir e derrubar o homem virtuoso, especialmente o virtuoso que tem esperança e acredita na vida.

No filme ‘A Queda: As Últimas Horas de Hitler’ nos é mostrado os últimos dias de Hitler encolhido de medo em sua casamata em Berlim, enraivecido pela inevitabilidade da derrota total, culpando o mundo. Ele está determinado em derrubar tantos quantos possa mesmo que sejam inocentes e mesmo que seja inútil tal sacrifício. No entanto nós também vemos nele momentos pungentes de dor humana, o sentido de abandono e a mais profunda solidão acompanhando sua queda total na escuridão onde é impossível não sentirmos empatia. Para alguns críticos do filme isso é ser indulgente com o monstro, evitando a representação do puro mal, fazendo o inumano parecer humano.

No entanto quando nós lemos, muitas vezes, a respeito de um adolescente americano enlouquecido num tiroteio violento na sua escola, nós não nos confrontamos com o mesmo mistério de iniquidade descrito no Livro da Sabedoria ou na história dos tiranos? Nós nos sentimos traumatizados pelos ataques, pela perda de vidas inocentes, pelo luto dos pais. Mas a razão inexprimível para tal crueldade, a tristeza infinita e a falta de amor nos trás para o fio da navalha do autoconhecimento humano, a borda do penhasco que divide a justiça da misericórdia.

Em breve, ao revivermos a Paixão de Cristo, nós iremos mergulhar nessa questão obscura do pecado e da graça. Teremos que ser guiados por uma linha posterior daquela passagem da Sabedoria: ‘Eles desconhecem os segredos de Deus’. (Sab.2,22) Há experiências que são densas pela escuridão, onde a ausência de compaixão e sabedoria é aterradora. Não obstante, esses são lugares que nos levam a um Deus de misericórdia além da nossa imaginação social.

 



Friday Lent Week 4

 

There is a rather dark passage from the biblical Book of Wisdom that expresses the cynical, destructive attitude of a man who has lost hope.  “Our life is short and dreary, nor is there any relief when man’s end comes, nor is anyone known who can give release from Hades”. (Wis 2:1) Out of this desperately sad and bitter heart comes cruelty – the desire to hurt and bring down the virtuous man, especially the virtuous who has hope and promise in life.

In the film ‘Downfall’ we are shown the last days of Hitler cringing in his bunker in Berlin, raging at the inevitability of total defeat, blaming the world. He is set on  bringing down as many others however innocent and however useless their sacrifice might be. Yet we see in him also searing moments of human pain, the sense of abandonment and utter loneliness accompanying his descent to total  darkness where it is impossible not to feel empathy. For some critics of the film this was indulging the monster, avoiding the depiction of pure evil, making the inhumane look human.

Yet when we read, all too often, of a deranged American teenager on a shooting rampage in his high school don’t we confront the same mystery of iniquity described in the Book of Wisdom or in the history of tyrants? We feel traumatised by the attacks, the loss of innocent lives, the grieving parents. But the inexpressible reason for such cruelty, the abysmal sadness and lack of love brings us to the razor edge of human self-understanding, the cliff edge dividing justice from mercy.

Soon, in re-living the Passion of Christ, we will be plunged into this dark question of sin and grace. We will have to be guided by a later line from that passage of Wisdom: ‘They do not know the hidden things of God’. There are experiences which are thick with darkness, where the absence of compassion and wisdom is terrifying. Yet these are places which lead us to a God of mercy beyond our social imagination.

 

 

 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.