Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Qualquer pessoa ou qualquer comunidade que não sinta uma relação com os mortos perdeu a sua alma. Mas os mortos se tornaram estranhos para nós.

Isso não importa quando envolve aqueles que morreram em batalhas antigas ou até mesmo contemporâneos cujas mortes nós ficamos sabendo pelo noticiário. 

É doloroso quando envolve aqueles que amamos ou para quem entregamos nossos corações. Que eles tenham que repentinamente mover-se para além dos caminhos da amizade e da intimidade que estávamos acostumados até o seu último respiro é devastador. Muito pior do que uma pessoa por quem nos apaixonamos no trem ir embora sem olhar para nós. Os mortos que nós amamos saem do trem no qual sentamos intimamente juntos por anos e não olham para trás. 

Nós vivenciamos a experiência da bondade de estranhos vinda do reino dos mortos? É bom pensar que sim. Mas podemos ter certeza que não são nossas necessidades criando a sensação de um vínculo de amor mais forte que a morte operando por todas as dimensões da realidade agora nos separando? Sem fazer esta pergunta nós nunca poderíamos ter certeza que o leite da bondade humana pode fluir de um lado para o outro através da fronteira da morte. Existem algumas coisas sobre as quais nós temos que permanecer incertos para que possamos vivenciá-las. 

A bondade dos mortos distanciados com relação a nós é percebida em um estado de incerteza. Isso resulta do desapego da prova racional e baseada em evidência. A comunicação com os mortos baseada nos sentidos, mensagens ou objetos que se movem é menos autêntica do que aquela percebida nas intuições do silêncio e da ausência de pensamentos do coração. 

Ela é percebida quando nós que estamos vivos alcançamos um nível de silêncio  suficientemente profundo.  Neste silêncio, onde as dimensões do espaço e do tempo são envoltas, a grande comunicação dos santos existe. Aqueles que estão lá -- e que podem dizer que todos não estão lá -- estão livres dos tipos de individualismo que nos uniram e nos separaram nesta vida. Individualismo é o que nos torna personagens reconhecíveis nas grandes estórias da vida. Mas se a continuação da vida na próxima dimensão fosse apenas um outro episódio de uma série de TV ou um capítulo no livro existiria apenas um "anti-clímax" a ser aguardado. A estranheza dos mortos deve (possivelmente) se dever ao fato de que estão vivos de uma forma diferente. 

Ser você mesmo e estar em união é uma coisa difícil de se imaginar e ainda mais difícil de se alcançar. Mas é o desejo mais profundo do nosso coração, por uma bondade que escapa a teia da fantasia e é verificada por uma experiência inquestionável da realidade. Talvez encontrar o estranho que é abundantemente bom conosco e para quem desejamos oferecer a nós mesmos é o sentido da vida após a morte. E talvez nós nos aproximamos disso quando passamos além da morte ao nos livramos da influência gravitacional do ego com suas forças de desejo e medo. Então nossa aceitação do estranho se torna encontrar nosso verdadeiro "eu" (self) no outro. 

Isso é algo que pode acontecer em qualquer hora do dia ou da noite, em qualquer lugar, com qualquer um, em qualquer período de nossas vidas. Incluindo 5a f na quarta semana da Quaresma. 

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.