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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Terça-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Por falar em estranhos...

Existe um grupo no Facebook para pessoas que, viajando em transporte público, apaixonaram-se por estranhos.

Eles mencionam uma fantasia completa, e não apenas uma curiosidade sobre alguém que parece vagamente atraente. Muitos começam a sonhar com uma vida juntos, uma família; outros, sem dúvida, pensam em ligações mais ardentes. Mas tal episódio parece mesmo um sentimento de apaixonar-se. Enquanto a paixão dura, comanda a imaginação e os sentimentos, e há uma sensação dolorosa de separação e perda, quando a pessoa com quem você imaginou passar sua vida desce em sua parada sem olhar para você.

Ao ouvir isso, recordei uma tendência para esse tipo de fantasia que eu costumava ter quando jovem, no metrô de Londres. (Desde que comecei a meditar, geralmente uso o tempo no trem para meditar: é mais produtivo e gera menos agitação.) Os objetos externos, no espaço público de tais fantasias, são, naturalmente, estranhos; mas algo a respeito deles ecoa tão fortemente em nós, que parece que os conhecemos - ou quase - e um relacionamento íntimo parece uma possibilidade real.

Parte dessa reação é realmente intuitiva. Somos geralmente muito rápidos em categorizar estranhos que encontramos: a psicologia de revistas diz que em sete segundos formamos uma primeira impressão, e ela tende a consolidar-se. Mas, para além da intuição que temos sobre as pessoas, decorrente de sua linguagem corporal, aparência, tom de voz e contato visual, a maior parte da síndrome do amor no transporte público é pura fantasia. Não podemos controlar por quem nos sentimos atraídos, mas podemos escolher se vamos fantasiar sobre eles.

Isso provavelmente não acontece com quem acabou de apaixonar-se por alguém que já era uma pessoa real em sua vida. Se isso acontece muitas vezes com uma pessoa que está em um relacionamento sério, pode sugerir um problema, uma necessidade de escapar. A fantasia acontece para preencher um vazio. É uma indulgência desculpável mas, ainda assim, perigosa. Podemos não saber que o vazio está lá, ou podemos ter aprendido a negá-lo. Ver um estranho atraente pode desencadear simultaneamente a consciência de que algo falta em nossa vida, e oferecer uma fantasia para preencher esse sentimento de falta.

Até que seja feito um contato real, não podemos chamar isso de “bondade de estranhos” uma vez está só na nossa cabeça, e gira em torno de nosso próprio desejo de realização. Ainda não há nenhum dom de si mesmo, nenhum elemento do amor sacrificial. Enquanto nos preparamos para a profunda contemplação da pessoa de Jesus na Semana Santa, talvez fosse melhor usar o tempo para refletir sobre ele, em vez de observar seus companheiros de viagem. Ele é, em muitos aspectos, um estranho para nós. No entanto, ele é aquele que oferece a oportunidade de uma intimidade maior do que poderíamos imaginar.

 


 

 

Texto original em inglês

Talking about strangers..

There exists a Facebook group for people who fall in love with strangers while travelling on public transport. They report not just an idle curiosity about someone who looks vaguely attractive but a full-blown fantasy. Many start dreaming of a life together with a family, others no doubt think of steamier hookups. But falling in love is what it feels like. While the passion lasts it takes over the imagination and feelings and there is a painful sense of separation and loss when the person you were going to spend your life with gets off at their stop without looking at you.

Hearing of this, I was reminded of a youthful tendency to this kind of fantasy that I used to have while travelling on the London Tube. (Since starting to meditate I mostly use the time on the train to meditate which is more productive and less agitating.) The external, public-space objects of such fantasy are, of course, strangers; but something about them resonates so powerfully with us that we feel we know them – or almost know them – and an intimate relationship seems a real possibility.

Something of this response is genuinely intuitive. We are usually very quick to categorise strangers that we meet: tabloid psychology says it takes seven seconds to form the first (and that becomes a lasting) impression. But apart from the intuition we have about people communicated by their body-language, appearance, tone of voice and eye-contact, most of the falling in love syndrome on public transport is sheer fantasy. We cannot control whom we feel attracted to but we can choose if we fantasise about them.

It probably wouldn’t happen to someone who had just fallen in love with a person who was already a real person in their life. If it happens too much to someone in a longterm relationship it might suggest an issue, a need to escape. Fantasy rushes in to fill a void. It is a forgiveable indulgence but a dangerous one nonetheless. We may not know the void is there or we may have learned how to deny it. Seeing an attractive stranger might simultaneously trigger the awareness of something missing in our life and offer a fantasy to fill that sense of lack.

Until real contact is made we cannot call this the ‘kindness of strangers’ because it is only in our head and revolves around our own craving for fulfilment. There is yet no gift of self, no element of sacrificial love. As we prepare for Holy Week’s deep contemplation of the person of Jesus it might be a better use of time, instead of scanning your fellow-passengers, to reflect on him. He is in many ways a stranger to us. Yet he is one who offers the chance of a fuller intimacy than we could imagine.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.