Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarto Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quarto domingo da Quaresma 2016

O Evangelho de hoje (Lucas, 15, 11-3 e 11-32) é a história não tão óbvia do Filho Pródigo, ou melhor, dos Dois Irmãos. Como Marta e Maria na história sobre contemplação e ação, estes dois irmãos parecem afastados e em conflito, mas são também inseparáveis.

O que está em jogo aqui não é uma escolha entre eles, mas o aprimoramento de seus relacionamentos fraternos. Eles representam todos os aspectos de nosso eu. Como num mundo onírico, o ensinamento das parábolas de Jesus parece tratar apenas de dualidades. Na realidade, são ensinamentos não-dualistas, em que opostos se conciliam, exatamente como ocorre nos níveis mais profundos da própria consciência.

O irmão mais novo sofre de impaciência e urgência pelo prazer. É um aspecto natural da juventude, que também sofre com o medo de não conseguir acomodar no tempo de uma vida todas as experiências maravilhosas que parecem possíveis. Isso leva ao excesso, à imprudência, à exaustão do espírito criador. Corra demais e você acabará na pocilga dos desejos não realizados.

Até que, aparentemente, ele cai em si. Mas o que ele concebe é apenas uma fórmula de pedido de perdão e auto-preservação que, ele  espera, convença seu pai. O pai, porém, fica tão exultante por recuperar o flho perdido que se esquece de repreendê-lo. A falsa humildade do rapaz vai de encontro ao característico excesso cometido pelo pai: o da extravagência do amor incondicional.

É a última vez que ouvimos falar do jovem. Ele deixa de ser um personagem interessante até cair em si de verdade e enxergar como seu pai realmente é.

Entra em cena o irmão mais velho, que sofre do problema oposto. Não leva uma vida desregrada nem com impaciência, mas com retidão de caráter e afeto reprimido. Ele não parece ter amor ou ódio, apenas retidão, auto-obsessão e ciúmes. Faça sua escolha entre os dois, escolha o seu veneno. Ambos falham terrivelmente em perceber com que pai maravilhoso foram abençoados. Não ouvimos falar mais nada sobre o irmão depois que o pai lhe explica o quanto ele é aceito e valorizado.

Cai o pano e nos resta completar a história com nossa próproia interpretação, absorvendo seus significados implícitos, adentrando o mundo onírico e descobrindo ali nossos “eus” verdadeiros (NR: our true selves). Só quando os dois irmãos se unirem e quando Marta e Maria se tornarem amigas de novo, nosso eu será verdadeiro novamente.

Como podem os dois irmãos serem tão maus observadores e auto-obsessivos? Não percebem a total ausência de sentimento autocentrado do pai, condenando-se a uma prisão de sofrimento auto-inflingido. Quando enxergarão (se é que vão enxergar algum dia) aquele oceano de amor ansioso por inundar seus corações ressequidos?

Certa vez, o Dalai Lama disse que, se ele pudesse fazer uma única pergunta a Jesus, ele perguntaria “qual é a natureza do Pai?”. Jesus, provavelmente, responderia “Eu ouvi uma vez a história de um pai que tinha dois filhos…”

 


Texto original em inglês

 Fourth Sunday of Lent

Today’s gospel (Luke 15:1-3,11-32) is the not so obvious story of the Prodigal Son or, better, of the Two Brothers. Like Martha and Mary in the story about contemplation and action, these two syblings seem estranged and conflicted but are also inseparable. What is at stake is not a choice between them but the need to improve their relationship. They are all aspects of our self. As in the world of a dream, the teaching parables of Jesus only seem to occupy a dualistic realm. In fact they are non-dual, opposites are reconciled, as in all the deeper levels of consciousness itself. 

The younger brother suffers from impatience and a craving for pleasure. It is a natural aspect of youth, which also suffers from the fear that it will not be possible to pack into life all the overwhelming experience that is seen to be possible. This leads to excess and imprudence and to exhaustion of the spirit of creativity. Go too far and you will end up in the pigsty of unsatisfied desires.

It seems that he comes to his senses. But actually he merely conceives a formula of apology and self-preservation that he hopes will win his father around. His father however is so blissed out by recovering his lost son that he forgets to rebuke him. The boy’s false humility falls flat against the father’s own peculiar kind of excess – the extravagance of an unconditional love. That’s the last we hear of this young profligate. He ceases to be an interesting character until he might actually come to his senses and see what his father is truly like.

Enter his elder brother, who suffers from the opposite set of problems. Not loose living and impatience but self-righteousness and affective constipation. He seems to have neither love nor hate in him, merely uptightness, self-obsession and jealousy. Take your pick between them, choose your poison. They both fail abjectly to realise what an amazing dad they are blessed with. We don’t hear any more about this brother either after the father has explained to him how accepted and valued he is. 

Now the curtain falls on the story and we are left to complete it with our own interpretation by absorbing its implicit meaning and entering into the dream-world and finding our true selves there. Only when the two brothers are united, and Martha and Mary become friends again, can our self again be true.

How could both brothers be so unobservant and so self-obsessed? Unaware of the total lack of self-centredness in the father they seem condemned to a prison of self-inflicted woundedness. When, if ever, will they see what an ocean of love is seeking to flood their shrivelled hearts?

The Dalai Lama said once that, if he could ask Jesus one question, it would be ‘what is the nature of the Father?’ Jesus will probably reply, ‘I heard this story once about a father who had two sons..’

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.