Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sábado da terceira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Em nossa cultura o termo “contemplativo” conquistou grande medida de crédito. Ele soa “não religioso”, ainda que se refira a profunda experiência interior livre das amarras dos conceitos e da imaginação. D’Aquino disse que a contemplação é a simples fruição da verdade.

O termo, porém, encerra um sentido muito específico e arraigado. A contemplação tanto é imaterial quanto totalmente física. “Templum” se refere ao espaço na terra sob os céus no qual o sacerdote, ou o áugure, observava e procurava cuidadosamente por sinais significativos de mudanças no meio ambiente ou em animais de sacrifício. A partir desses sinais ele seria capaz de ver as maneiras pelas quais as coisas se movem, e predizer ou se preparar para o que quer que acontecesse. Originalmente o termo “templo” não significava um edifício, a sólida corporificação do espiritual, mas, um espaço a céu aberto onde toma forma algo incomensurável e intangível.

Para o meditante, no entanto, com nosso treinamento contemplativo diário, esse espaço aberto em que se funde o céu e a terra, é interior, está no templo do coração. A mudanças das quais podemos aprender podem ser sutis, imperceptíveis ali; mas no reino exterior elas se tornam presentes e observáveis.

“Con”(-templação) sugere que esse trabalho seja o fruto de um esforço conjunto. Por mais vazio que esse espaço possa parecer, por mais solitário que se apresente, de fato, não estamos sós. O espaço vazio, a pobreza de espírito, da meditação extravasa o potencial e ilumina a intimidade. O espírito da contemplação se perde sempre que construímos coisas demais no espaço aberto. A intimidade demanda amplo espaço no qual possa tomar lugar a união.

A Quaresma é um período destinado a remover as construções desnecessárias do templum do coração. A princípio é difícil perder, abandonar, desconstruir e reconquistar a amplidão interior. Todavia, uma vez que tenhamos sentido o sabor disso, não queremos que pare.

 

 



Texto original em inglês

Saturday Lent Week 3

The word ‘contemplative’ has acquired a great measure of trust in our culture. It sounds ‘not-religious’ and yet refers to deep inner experience free from the clinging associations of concepts and imagination. Aquinas said contemplation is the simple enjoyment of the truth.

The word, however, contains a very specific, grounded sense. Contemplation is both immaterial and totally physical. ‘Templum’  refers to the space on the earth under the sky where the priest or augur looked and watched carefully for meaningful signs of change in the environment or in the animals of sacrifice. From these signs he would be able to see the ways things are moving and to predict or be prepared for whatever came. Temple originally meant not a building, a solid embodiment of the spiritual, but the open space where something immeasurable and intangible is taking shape.

For the meditator however, with our daily contemplative training, this open space merging earth and sky is within, in the temple of the heart. The changes from which we learn may be subtle, imperceptible there; but in the external realm they become present and observable.

‘Con’ (-templation) suggests that this work is the fruit of a joint effort. However empty the space may seem, however solitary it feels, we are in fact not alone. The empty space, the poverty of spirit, of meditation is bursting with potential and shimmering with intimacy. The spirit of contemplation is lost when we build too many things in the open space. Intimacy requires a spaciousness where union can take place.

Lent is a season for clearing out the unnecessary constructions in the templum of the heart. It is hard at first to lose, to let go, to deconstruct and become interiorly spacious again. But once we have got a taste for it, we don’t want it to stop.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.