Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Sexta-feira da terceira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Recentemente, um prato de biscoitos me foi servido enquanto tomava café com um amigo. Ele não sabia que esse vício Inglês era o que eu havia determinado dominar durante a Quaresma.

Na verdade, como muitos vícios, não era um hábito muito agradável (ou saudável). Parar de comer biscoitos não é uma coisa muito difícil e também não é a parte mais importante da minha observância quaresmal.

Achei interessante, no entanto, notar que eu estava tentado - mas não por causa dos biscoitos. Na verdade eu estava gostando do pequeno ascetismo envolvido. O propósito de qualquer exercício espiritual é que se deve sentir-se melhor e 'perceber Deus’ mais intensamente. Todo mundo, pessoalmente ou coletivamente, se sente melhor quando cortam o desperdício e a extravagância. Coletivamente, sócio-economicamente, o ascetismo da austeridade deveria naturalmente ser igualmente e proporcionalmente compartilhada – o que os nossos governos claramente não acreditam. Pessoalmente, as exigências de verdade e justiça são mais fáceis de respeitar. 

Assim, não foram os biscoitos açucarados que me tentaram, mas o sentimento de recusar algo oferecido por um amigo. Parei de fumar assim que vesti o hábito monástico - isto foi após vários meses de repetidos fracassos humilhantes. Então  passei pelos sintomas de abstinência. Um dia, notei uma última medida desesperada da química desejando corromper a minha mente, a fim de manter- me viciado. Eu tive um sentimento de traição breve, mas muito forte - que eu estava traindo minha velha amiga nicotina. O sentimento era tão acentuado como em um sonho que mais tarde se vê ser absurdo. Tendo visto que ele era absurdo, eu sabia que estava livre.

Existem falsos amigos - como tradutores e qualquer um aprendendo uma nova língua bem sabem. Em línguas latinas 'eventualmente' significa ‘possivelmente no final (isso pode ser o resultado...) '. Em Inglês, no entanto, significa um resultado previsto definitivo. A diferença de significado pode resultar em diferenças importantes no planejamento e na prática.  

Clareza é sempre melhor do que confusão - a menos que você queira esconder ou enganar. E clareza é um resultado natural de autocontrole, de observância fiel, de desprendimento dos jogos complicados que a mente pode jogar quando formas físicas ou outras formas de desejo são fortes. O autoconhecimento é o grande divisor de águas. É, no entanto, um jogador que perturba nosso crescimento pessoal. Nós não permanecemos como nós somos uma vez que um avanço no autoconhecimento tenha sido alcançado.

O processo exige que tenhamos um verdadeiro centro de gravidade. Precisamos estar ancorados - para ter o que Shakespeare falando sobre o amor quis dizer por um símbolo desde sempre estabelecido que ‘não se altera quando alteração encontra’. O meditante vem a compreender que isso também descreve o mantra e por isso nos ajuda a entender por que o ascetismo do mantra é uma obra de amor.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.