Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Quarta-feira da terceira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

“É estreito o caminho que conduz à Vida e poucos são os que o encontram” (cf. Mt 7,13-14 e Lc 13,24). Assim como o símbolo cristão da pobreza ou a noção budista de vazio, o caminho estreito não soa muito atraente.

Associamos com o aperto, cerceamento de nossa liberdade de movimento e intelectualmente com pontos de vista estreito e cheio de preconceitos. Então o que poderia ser interessante sobre o caminho estreito?

Em primeiro lugar, é realista. Quando estamos tirando uma foto, estreitamos o foco da lente no sujeito com a ajuda do zoom. Podemos nos aproximar mais do objeto ainda que estejamos longe dele. Ainda que estejamos interessados numa perspectiva de panorama, precisamos focar em alguma coisa, mas sabemos que embora possamos ganhar em amplitude de campo visual, acabamos perdendo em senso de intimidade. O caminho estreito é um bom símbolo porque sugere solitude, que significa a peculiaridade de um encontro pessoal, não um isolamento ou solidão. Num caminho estreito com os outros podemos caminhar individualmente, sem perder o senso de comunidade.

A meditação é um caminho estreito – solitário, mas em modo de zoom, focando somente no mantra; mas depois da meditação, quando retornamos aos largos caminhos da vida, podemos aumentar o zoom e todo o contexto torna-se mais claro, ou ao menos o que conseguimos enxergar desse todo. O contexto todo torna-se mais evidente e mais focado por causa do tempo que gastamos em aproximação máxima.

Quando olhamos para uma vista de alcance panorâmico, intuitivamente procuramos por objetos ou ângulos que podemos focar ou organizar, compreender, numa leitura contextual mais ampla. O tempo que gastamos no caminho estreito não está desligado das grandes linhas da vida. De fato, com a prática adequada, não perdemos o foco da atenção dos momentos de meditação ainda que estejamos imersos novamente nas outras atividades e interagindo com elas. Esta habilidade de manter foco duplo – manter-se tranquilo em meio à ação, ser silencioso em meio à comunicação – é o que Jesus se refere como a “única coisa necessária” quando está tentando acalmar a fragmentada Marta.

O caminho estreito conduz à vida bem vivida, o individual leva à comunhão, foco que leva a uma visão mais ampla e panorâmica. E “poucos são os que o encontram”? Isto não significa que somente uns poucos seletos têm a permissão de entrar, mas que não são muitos que dão seu tempo e espaço para descobri-lo. Qualquer um que, assim como Jesus,  o tenha encontrado, lamenta que mais pessoas não o façam.

O tempo da Quaresma é especialmente para isso: aprofundar o nosso conhecimento do caminho estreito.

 


Texto original em inglês

Wednesday Lent Week 3

‘It is a narrow path that leads to life and few they are who find it.’ Like the Christian symbol of poverty of spirit or the Buddhist idea of emptiness, narrowness does not at first sound very appealing. We associate it with constriction, a curtailing of our freedom of movement, and intellectually with narrow-minded, prejudiced points of view. So, what is good about a narrow path?

Firstly, it is realistic. When you are taking a close-up photo you narrow in on the subject, zooming in as close as you can get while keeping in focus. You get nearer to the subject this way even if you are physically far from it. If you are interested in a panorama shot you still have to focus on something but what you gain in breadth of field you lose in the sense of intimacy. A narrow path is a good symbol because it suggests solitude, which means the uniqueness of personal encounter not isolation or loneliness. On a narrow path that you tread with others you may be going single file but nonetheless you feel together.

Meditation is a narrow path – solitary and in zoom mode, focusing wholly on the mantra. But after the meditation, when you return to the broad highways of life, you zoom out and the whole context becomes apparent – or at least as much as you can see of the whole. The bigger picture becomes sharper and better in focus because of the time spent in close-up.

When we look at a large panoramic view we intuitively search for objects or angles that we can focus on and which organise, give meaning, to the broad sweep view. The time we spend on the narrow path is not unrelated to the busy lanes of life. In fact, with enough practice, we do not lose the close-up attention of the times of meditation even when we are re-immersed in activity and interaction. This ability to maintain a dual-focus – to be still in the midst of action, to be silent while communicating – is what Jesus refers to as the ‘one thing necessary’ when he is calming down the fragmented Martha.

The narrow path leads to life lived well, single-file leads to communion, zoom view to cosmic panorama. And ‘few are they who find it’? This doesn’t mean that only a select few are allowed in, but that not many give the space and time in their day to discover it. Anyone, like Jesus, who has found it regrets that not more people do.

That’s what Lent is especially for, deepening our knowledge of the narrow path.

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.