Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Terça-feira da terceira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Fiquei feliz por encontrar uma “sala silenciosa” em um aeroporto e, ao entrar, encontrei um homem falando ao telefone. Olhamos um para o outro (em silêncio), até que ele disse “você quer ficar quieto aqui?”

Sendo uma pessoa sensível, ele deve ter lido minha mente, porque, sem mais delongas, gentilmente saiu para continuar sua conversa do lado de fora. Estive lá por cerca de uma hora sozinho, e ninguém mais entrou. Como em retiros de meditação, às vezes, esquecemos facilmente que o silêncio significa silêncio, não apenas privacidade, não é simplesmente ter o nosso próprio espaço. Na verdade, o silêncio é uma das salas mais públicas e, ao mesmo tempo, íntimas, na qual podemos entrar. O quarto interno onde estamos na mais profunda solidão e , no entanto, imersos no fundamento absoluto do ser.

O silêncio tem muitas camadas. João, o Solitário, citou quatro delas: a língua, todo o corpo, a mente e o espírito, que é o silêncio do silêncio. Isso ele descreve como ser capaz de permanecer quieto e silencioso, movido apenas pelo silêncio em si, não por qualquer pensamento, nem mesmo o pensamento mais sutil sobre o silêncio.

Às vezes, quando meditamos, somos conduzidos a um espaço que parece livre de pensamentos, e agradavelmente calmo – como uma sala silenciosa em um aeroporto barulhento. Entretanto,  pode haver algumas pessoas lá, conversando sobre o que realmente significa a quietude, ou mesmo dizendo que boa ideia é ter um tal espaço. Assim, embora possamos ter alcançado um dos níveis mais profundos de silêncio da mente, evidentemente, (quando você vê, é evidente...) o silêncio ainda não é completo.

O mantra é um caminho fiel que conduz ao máximo silêncio. Ele nos vai  levar por todo o caminho. Mas, à medida que se aproxima o fim, o caminho se torna mais simples, e mais estreito, e não menos amigável e familiar. Torna-se cada vez mais sutil. Eventualmente, o mantra, aquele que diz o mantra e a presença misteriosa em que o dizemos, se tornam um,  e isto é o silêncio do silêncio.

Isto pode parecer algum tipo de sistema de classificação em que a maioria de nós sente que ocupa um dos níveis mais baixos. Isso, no entanto, é uma invenção do ego. O ego que sempre gosta de ser especial, e o primeiro. Esta falsa ideia de desenvolvimento espiritual é, ao longo do tempo, dissolvida pela exposição à fé. O que emerge, em vez disso, é uma consciência - um sentido de humildade – de que vivemos, nos movemos, agimos e falamos no pleno silêncio do espírito. Podemos não saber tanto quanto poderíamos, porque os outros níveis de silêncio ainda não evoluíram o suficiente.

Sabemos, entretanto, que o silêncio da Presença que a tudo sustenta é real e constante. E isso, por sua vez, motiva-nos a retornar e a trabalhar em outros níveis de silêncio dia a dia.

 


Texto original em inglês

Tuesday Lent Week 3

I was pleased to see a ‘quiet room’ in an airport and went in to find a man talking on the phone. We looked at each other (in silence) until he said ‘are you expecting quiet here?’ Being a very sensitive individual he must have read my mind because without further ado he kindly left to continue his conversation outside. I was there for an hour alone and no one else came in. As on meditation retreats sometimes, we easily forget that silence means silence not merely privacy, just having our own space. In fact silence is one of the most public and simultaneously intimate rooms we can enter. The inner room where we are in deepest solitude yet are immersed in the ground of all being.

Silence has many layers. John the Solitary spoke of four, the tongue, the whole body, the mind and the spirit which is the silence of silence. This he describes as being able to remain still and silent moved only by silence itself, not by any thought, even the most subtle thought about silence.

Sometimes when we meditate we are led into a space that seems thought-free and refreshingly calm – like a quiet room in a noisy airport. But there may be a couple of people in there having a conversation about what quiet really means or even saying what a good idea it is to have such a space. So, although we may have come to one of the deeper levels of silence of mind, evidently (when you see it, it is evident) not full silence yet.

The mantra is a faithful path leading into the fullest silence. It will take us all the way. But as it gets closer to the end the path becomes simpler and narrower, not less but more friendly and familiar. It becomes increasingly subtle. Eventually the mantra, the sayer of the mantra and the mysterious presence in which we say it become one and that is the silence of silence.

This might sound like some kind of grading system and we most of us feel we occupy one of the lowest levels. That is a fabrication of the ego, however. The ego that always likes to be special and first. This false idea of spiritual development dissolves through exposure to faith over time. What emerges instead is an awareness – a humble sense – that we live and move and act and talk in the full silence of the spirit. We may not know it as fully as we can because the other levels of silence have not yet evolved sufficiently.

But we know nonetheless that the silence of the all-sustaining Presence is real and constant. That in turn gives us motivation to go back and work on the other levels of silence day by day.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.