Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Segunda-feira da terceira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Deve haver uma pequena chave no cérebro que controla nosso autoconhecimento. Será que é aquilo que chamamos de mente? É a fonte tanto de nossa mais alta dignidade humana, do nosso potencial para uma consciência e transcendência mais elevadas, quanto da nossa maior infelicidade, do nosso auto-isolamento.

A autoconsciência nos mostra como somos diferentes. Mas também pode nos enganar sutilmente e nos fazer acreditar que somos irremediavelmente separados.

Certas pessoas têm muito pouca autoconsciência. Consequentemente, podem estar vivendo num estado quase vegetativo. Ou podem estar sempre ocupadas demais exteriormente e freneticamente focadas num objetivo para encontrar algum espaço para a consciência. Uma jovem estudante me disse uma vez que a meditação a tinha surpreendido mais e mudado sua vida mais permanentemente ao mostrar que ela tinha uma vida interior. Ela pronunciou as palavras “vida interior” com muito cuidado. Na primeira vez que nos sentamos para meditar, descobrimos que somos vegetais ou loucos. Em todo caso, a jornada do autoconhecimento, mais importante do que a capacidade de fazer milagres, começou. A chave da autoconsciência foi ligada.

Para algumas pessoas – muito poucas, eu acho – pode haver, em suas primeiras meditações, uma iluminação repentina. Como elas não sabem nem mesmo o que esperar, elas inesperadamente conseguem enxergar com clareza e o Reino se mostra para elas como se as nuvens no alto do monte Fuji se dissipassem calmamente. O efeito disso pode ser a confirmação do motivo pelo qual se aproximaram da meditação, para começo de conversa. Mesmo quando as nuvens voltam e ocultam a paisagem, elas alcançcaram uma consciência que as modificou para sempre. O autoconhecimento nunca nos deixa inalterados. Nunca conseguimos esquecê-lo completamente.

Mas o que quer que aconteça, agora temos o trabalho diário do segundo nível de silêncio. Como um músico, um pai, um jardineiro, um poeta, encontramos um trabalho que devemos aprender a amar porque é uma expressão do nosso eu mais verdadeiro. É quase como se o trabalho nos amasse. De qualquer forma, encontraremos amor no trabalho. 

Assim que conseguirmos ver que a meditação é simples, mas não é fácil, descobriremos o quanto a nossa mente é barulhenta e instável. Aquilo que parece ser nossa incapacidade em repetir o mantra nos ensina a humildade (que equivale à autoconsciência). A disciplina de continuamente deixar de lado nossos pensamentos, como qualquer aprendizagem séria, nos ensinará a disciplina, que é o caminho estreito em direção à liberdade interior. Com o tempo, o nível das distrações vai diminuindo e, até antes que isso aconteça, começaremos a dar a elas menos importância, mesmo quando elas nos absorvem e sequestram. Elas se tornam como um ruído de fundo, como conversas alta e incoerentes vindas da sala ao lado. 

Entretanto, o silêncio da mente não vem apenas quando abandonamos os pensamentos, palavras e as imagens das quais eles derivam. Vem com a fidelidade do trabalho da atenção, repetido como um ato de amor, levando a mente sempre de volta a um único ponto. Esse ponto não é uma palavra, imagem ou pensamento. Assim que ele se transforma num deles nós ficamos complicados de novo. Abandonar pensamento-palavra-imagem, que funcionam como uma cristalização da mente, restaura a simplicidade. O silêncio da mente aprofunda-se cada vez que fazemos isso. A autoconsciência fica cada vez mais clara. O autoconhecimento nos transforma mais. E aquela concentração agora aparece em nosso discurso, nossas atividades e relacionamentos. Ela começa a ser conhecida não apenas como um fenômeno mental, mas como um portal espiritual. Quanto menor o ponto, maior a imensidão que descortina.

 


Texto original em inglês

Monday Lent Week 3

There must be a little screw in the brain which controls our self-awareness. Is it what we call the mind? It is the source both of our greatest human dignity, our potential for higher consciousness and transcendence but also for our worst misery, our self-encapsulation. Self-awareness shows us how we are different. But it can also subtly deceive us into believing that we are ultimately separate.

Some people have very little self-awareness. As a result, they may be living in a rather vegetative state. Or they may be too externally busy and frantically goal-oriented to have space to be aware. A young woman student told me once that meditation had surprised her most and changed her most permanently by showing her that she had an inner life. She formed the words ‘inner life’ very carefully. The first time we sit to meditate we will find out if we are vegetables or madmen. Anyway, the journey of self-knowledge, more important than the ability to work miracles, has begun. The screw of self-awareness is turning.

For some people, very few I think, there may be, in their first meditations, a sudden illumination. Because they didn’t know even what to hope for, quite unexpectedly, they see it and the kingdom displays itself to them like the clouds sitting on top of Mount Fuji calmly clearing. The effect of this may be to confirm why they had approached meditation at all. Even when the clouds settle back and the view is lost they have an awareness that has forever changed them. Self-knowledge never leaves us unchanged. We never completely forget it.

But whatever happens, there is now the daily work of the second level of silence. Like a musician, a parent, a gardener, a poet, we have found a work we must learn to love because it is an expression of who we most truly are. It is almost as if the work loves us. Anyway we will find love in the work. 

As soon as we see that meditation is simple but not easy, we discover how noisy and unstable the mind is. The failure, as it feels, to say the mantra teaches us humility (equals self-awareness). The discipline of continuously laying aside our thoughts, like any serious learning, will teach us discipline which is the narrow path to interior freedom. Over time the level of distractions will reduce and, before that, we will give them less importance even when they do absorb and hijack us. They become like background noise, incoherent loud conversation from the adjoining room. 

However, silence of the mind does not come only by letting go of thoughts, words and the images from which they derive. It comes through the faithful act of attention, repeated like an act of love, returning the mind to a single point. That point is not a thought word or image. As soon as it forms into one of these we have become complicated again. Dropping the thought-word-image, that is like a  crystallisation of the mind, restores simplicity. Silence of mind deepens each time we do this. Self-awareness further clarifies. Self-knowledge changes us more. And the single-pointedness now appears in our speech, activity and relationships. It is beginning to be known not only as a mental phenomenon but as a spiritual portal. The smaller the point, the greater the immensity it opens to.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.