Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Terceiro Domingo da Quaresma

D. Laurence Freeman

Terceiro Domingo da Quaresma 2016

O Evangelho para este terceiro Domingo da Quaresma (que chega à metade) é Lucas 13:1-9. Ele nos dá um vislumbre do Jesus do Oriente-Médio. Cristãos de disposição fraca deveriam pular esta passagem, porque o ensinamento aqui é de linguagem dura. E os não Cristãos devem ler com cuidado porque podem achar que sua linguagem seja intolerante.

Em passagens como essa, eu sempre tenho a sensação (mas obviamente não tenho como comprovar) que a severidade seja responsabilidade de uma falha daqueles que relataram os ensinamentos ou dos tradutores. Tenho certeza de que Jesus não era sempre fácil de ser escutado e de que suas palavras podiam ser dilacerantes, mas a impressão de rejeição, exclusão e punição cruel parece ser estranha a sua personalidade, ainda que fossem comuns no seu tempo e cultura.

Ele diz “se não vos arrependerdes, todos de igual modo perecereis”, referindo-se a vários grupos que haviam sido assassinados pelos romanos ou morreram em desastres naturais. Se entendermos o significado de arrependimento, percebemos o que ele está dizendo. Há morte e calamidade quando o coração permanece fechado para a verdade e endurecido contra os outros. O ser humano pode não sobreviver e se autodestruir se falhamos na mudança, em admitir que somos humanos, falíveis e imperfeitos. Quando a persona pública de perfeição ou a de atratividade se tornar nossa real autoconsciência, teremos perdido nossa alma. Então, nesta passagem, Jesus está apenas colocando um ponto naquilo em que, nas outras, ele descreve graficamente. Ele é um grande mestre que nos atrai a atenção por seu estilo.

E ele também ensinava por parábolas, provérbios simples, elípticos, com um conteúdo de sabedoria adaptável à diversidade das mentes de sua audiência. Esta é sobre uma figueira que não dava frutos e que seria condenada somente por exaurir o solo e ocupar o espaço onde uma boa árvore poderia ser plantada. O proprietário diz ao jardineiro para cortá-la mas o jardineiro pleiteia com sucesso por um ano a mais para ver se poderá ser salva. Afinal, pode-se imaginar o quanto ele já havia trabalhado nesta planta. Na tradição, Jesus é frequentemente descrito como um jardineiro (e chega certa vez a ser confundido com um). Então aqui poderíamos identificar Jesus com o jardineiro ganhando tempo para as formas de vida que ele ama. O proprietário poderia ser visto como o carma, a universal e fria lei de causa e efeito, que não perdoa. Não é, entretanto, o juízo final, uma vez que pode ser anulado e dissolvido pelo poder maior do perdão.

Como quase sempre acontece, não sabemos o final da história – o jardineiro conseguiu salvar a árvore fazendo-a frutífera? Nós não somos informados sobre o que aconteceu pois somos nós que damos um fim à história, desde que possamos entender sua sabedoria e agir de acordo. Na realidade, então, a história é reconfortante. Nós ainda temos tempo (mais três semanas de Quaresma). Ver as consequências de não nos arrependermos, não darmos frutos, não nos desenvolvermos como deveríamos, é perturbador, aterrorizante até. Mas um poder maior que o destino, maior do que o que sentimos merecer, está trabalhando por nós, do nosso lado. Imagine o que o jardineiro estaria dizendo à figueira enquanto colocava adubo ao seu redor e amorosamente a podava.

Então, afinal, talvez o evangelho de hoje não seja tão proibido para menores quanto eu pensara inicialmente.

 


Texto original em inglês

Sunday Lent Week 3

The gospel for this third (mid-way) Sunday  of Lent is Luke 13:1-9. It gives us a glimpse of the middle-eastern Jesus. Christians of a weak disposition should skip this because his teaching here is a hard saying. And non-Christians will have to read it carefully or they will find its either-or language intolerant. With such passages I always feel (but of course can’t prove) that it was those reporting the teaching or a fault in translation that were responsible for this harshness. I’m sure Jesus was not always easy to listen to and that his words could be cutting but the impression of rejection, exclusion and cruel punishment seems to me foreign to his personality though they were common in his time and culture.

He says ‘if you do not repent, you will all perish as they did’, referring to various groups who had been killed by the Romans or died in natural disasters. If we understand the meaning of repentance we can see what he is saying. There is death and disaster when the heart remains closed to the truth and hardened against others. The human person cannot survive and will self-destruct when we fail to turn round, to admit we are human, fallible and imperfect. When the public persona of perfection or attractiveness becomes our actual self-awareness we have lost our soul. So in this Jesus is simply putting a point he makes elsewhere in a graphic way. He is a great teacher and attracts our attention by his style.

And he also taught by parables, simple, elliptical sayings with a measure of wisdom adaptable to the diverse minds of his listeners. This one is about a fig tree that would not bear fruit and is condemned for merely exhausting the soil and taking up a space where a good tree could be planted. The owner tells the gardener to cut it down but the gardener successfully pleads for one more year to see if it can be saved. After all, one imagines, he had put a lot of work into it already. In the tradition Jesus is often described as (and was once mistaken for) a gardener. So here we could identify Jesus with the gardener winning time for the life-forms he loved. The landowner could be seen as karma, the unforgiving, coldly cosmic law, of cause and effect. It is, however, not the final judgement as it can be overruled and dissolved by the higher power of forgiveness.

As usual we don’t know the end of the story – did the gardener save the tree by making it fruitful? We aren’t told what happens next because it is we who give the ending to the story, provided we can understand its wisdom and act on it. Actually then the story is quite comforting. We have more time (three more weeks of Lent). Seeing the consequences of not repenting, not being fruitful, not growing as we should, is disturbing, even terrifying. But a power greater than fate, greater than what we feel we deserve, is working for us, on our side. Imagine what the gardener would be saying to the fig tree as he put more fertiliser around it and trimmed it lovingly.

So after all, maybe today’s gospel isn’t as R-rated as I had thought at first.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.