Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Sábado da segunda semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

João, o Solitário (o mesmo), dizia que o nível que se segue ao silêncio é aquele de todo o corpo. Experienciamos primeiramente esse tipo de silêncio através da imobilidade física. A instrução inicial acerca da meditação nos diz para sentar, com as costas eretas, com conforto e atenção, e imóvel.

Os estágios iniciais da meditação em algumas tradições podem ser extremamente dolorosos em função da solicitação de resistência na manutenção de uma postura de pernas cruzadas que é fisicamente exigente. Em algumas culturas, talvez, isso possa ajudar, mas a maioria descobre que isso representa uma distração desnecessária. Melhor será combinar um estado de alerta e conforto desde o início. Isso te permitirá alcançar a imobilidade física mais facilmente e com menos distração. A auto-postura do ego gosta de brincar. De início você poderá experimentar uma onda de auto-consciência, seja sentindo-se muito esperto por mostrar-se como um meditante, seja sentindo-se envergonhado e tolo. São apenas mais pensamentos que precisam ser abandonados.

No entanto, antes que se passem muitos microssegundos, você sentirá uma coceira, ou começará a ter espasmos, ou mesmo,  e essa é uma das fugas favoritas da imobilidade, sentirá a necessidade de limpar a garganta. Isso lhe anuncia, e aos outros, que você ainda1 está na terra, e ainda é o mesmo e velho você. A distração mental se manifesta em espasmos físicos ou emissão de sons. Todavia, a quietude física mostra à mente que ela também pode e deveria se aquietar. A quietude nos confere maior consciência corpórea e nos deixa mais à vontade em nossos corpos. Tanto se você for um assíduo frequentador de academia, quanto se você for um aficionado do sofá, a sua meditação terá um efeito incarnacional benéfico. O relacionamento entre o corpo e a mente se tornará mais amigável.

John Main dizia que o auto-refreamento que vem com a imobilidade física poderá ser o nosso primeiro passo para transcender o desejo. Quer coçar a sua orelha esquerda? Que alívio. Mas, em poucos segundos será a sua orelha direita quem pede atenção. Sente a necessidade de limpar a garganta? Será que isso é realmente necessário? Trabalhando aquele adorável e sonoro espirro? Incentive-o ou abandone-o? O caminho para a iluminação ou o próprio mistério cósmico pode ser revelado em pequenas decisões como essas.

A quietude (o silêncio de todo o corpo) tem a mesma importância, seja quando você medita a sós, seja quando você medita com os outros. A meditação comunitária traz à tona a útil dimensão do altruísmo. Acompanhado por outras pessoas ao seu redor, quanto mais fisicamente silente você estiver, tanto mais você estará ajudando o trabalho de silêncio delas, e mais o próprio silêncio se torna comunitário. Ele é compartilhado e, portanto, se torna uma poderosa energia que desenvolve comunidade. A emissão de ruídos durante a meditação é individualista, e sugere um nível inferior de percepção. A experiência do silêncio no grupo que medita, por sua vez, reforçará você e reforçará a sua disciplina quando você estiver meditando por conta própria.

Certa vez falava acerca do silêncio físico a um grupo numeroso e, durante a meditação uma pobre mulher quase explodiu depois de lutar para reprimir uma tosse, chocando-me, e a todos os demais. Felizmente ela sobreviveu e, subsequentemente eu liguei esse elemento importante da meditação com a virtude universal da discrição. 

 

1N.T.: Aqui o trocadilho lúdico do inglês se perde na tradução. Na língua inglesa o termo still tanto pode significar “imóvel” ou “quieto”, quanto “ainda”.

 


Texto original em inglês

Saturday Lent Week Two

John the Solitary (the same one) said the next level of silence is that of the whole body. This kind of silence is experienced firstly through physical stillness. The initial instruction about meditation tells us to sit down, back upright, comfortable and alert - and to sit still.

In some traditions the initial stages of meditation can be excruciatingly painful as you are required to endure a physically demanding cross-legged posture. Maybe, in some cultures, that helps but most find it unnecessarily distracting. Better to combine comfort and alertness from the beginning. That will allow you to come to a physical stillness more easily and with less distraction. The self-posturing ego likes to play games. At first you may have a rush of self-consciousness, either feeling rather smart about looking like a meditator or feeling embarrassed and silly. They are just more thoughts to let go of.

Before many microseconds have passed, however, you will feel like scratching or start twitching, or - a favourite escape from stillness - clear your throat. This announces to yourself and others that you are still on earth and still the same old you. Mental distraction manifests in physical twitching or sound-making. But physical stillness shows the mind that it too can and should become still. Stillness makes us more bodily aware and more at home in our bodies. Whether you are a fanatical gym-person or a couch-potato your meditation will have a beneficial incarnational effect. The relationship between body and mind will become more friendly.

John Main said that the self-restraint involved in physical stillness might be our first step in transcending desire. Want to scratch your left ear? Nice relief. But in a few seconds it’s your right ear demanding attention. Feel like clearing your throat? Do you really need to? Working up to a lovely big sneeze? Encourage it or let it go? In such small decisions the path of enlightenment and the cosmic mystery itself may stand revealed.

Stillness (silence of the whole body) is as important when you meditate alone or with others. Communal meditation brings the useful dimension of altruism into play. With others round you, the more physically silent you are the more you help others in their work of silence and the more the silence itself becomes communal. It is shared and therefore becomes a powerful energy in developing community. Making noise during meditation is individualistic, suggesting a lower level of awareness. The experience of silence in the group meditating will in turn strengthen you and your discipline when you meditate on your own.

I once spoke about this physical silence to a large group and during the meditation a poor woman almost exploded after struggling to suppress a cough shocking me and everyone else. Fortunately she survived and subsequently I have linked this important element of meditation to the universal virtue of discretion.

 

João o Solitário – o famoso – disse que há níveis de silêncio. Nossa própria prática diária da meditação gradualmente irá revelá-los. Não adianta imaginá-los ou antecipá-los, mas o pequeno esboço que ele dá pode nos ser útil e nos ajudar a perseverar sempre que nos sentirmos desencorajados ou que podemos estar estacionados. É sempre bom ser lembrado que há mais por vir.
 
O primeiro tipo de silêncio é o da língua. São Tiago aborda esse assunto quando ele exorta seus primeiros companheiros-cristãos a vigiar seus discursos. A língua é como um leme, diz ele, muito pequeno, mas com uma grande influência sobre o rumo que estamos tomando. É mais do que óbvio que nós devemos controlar nossa fala quando dizemos alguma coisa com veemência, meramente ofensiva ou maliciosa seja direta ou escondida no humor. É bem difícil, porque gostaríamos de arrancar nossos sentimentos de raiva de nosso peito. Mas as palavras ditas com raiva e com a intenção de machucar (pois a outra pessoa as merece) caem na mesma armadilha de qualquer violência. Nunca alcança o que promete e sempre piora a coisa.
 
Há, no entanto outro tipo de restrição da fala. A maioria dos nossos enunciados é irracional, não significam o que dizem; muitas vezes seu significado principal é para preencher o constrangimento do silêncio e é geralmente bastante trivial. Não quero dizer que devemos sempre falar sobre realidades sublimes; mas nós sempre devemos comunicar algo útil, significativo ou efetivo. Tagarelice é o equivalente verbal de promiscuidade. Controlar a língua, saber quando começar a falar e quando parar é como ser casto.
 
Quando sentamos para meditar a etapa primeira e óbvia é parar de falar, sem mover nossos lábios ou língua enquanto dizemos o mantra. Com as crianças às vezes dizemos o mantra em voz alta algumas vezes com a diminuição de volume e eles logo descobrem que podem recitá-la interiormente e silenciosamente. Isso é um grande alívio, porque muitas vezes não percebemos como nossa maneira de falar pode ser indisciplinada e superficial ou quantas vezes nós resvalamos para a fofoca. Descansar a língua liberta a mente para que ela se mova em direção ao coração.
 
Mas primeiro temos que lidar com o que está perturbando o outro nível, onde o silêncio tem algo mais a nos ensinar.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.