Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-feira da segunda semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Eu pensei que eu estava me tornando um resmungão quando comecei a perceber o quão alta é a música nos restaurantes. Quando eu peço ao garçom para abaixar o volume, geralmente recebo um olhar que indaga se sou deste planeta.

Mas então descubro que muitos outros, jovens e velhos, também percebem o volume alto e sentem a mesma coisa. Os espaços públicos são cada vez mais projetados para impedir a comunicação pessoal e saturar toda a conversa por conteúdos produzidos pela mídia.

Para muitas pessoas, em um mundo super estimulado e barulhento, o silêncio é estranho e assustador, o sinal de alguma coisa errada, um espectro da morte. A espiral acelera. Quanto mais barulhentos somos, mais barulhentos precisamos ser para evitar o grande platô de silêncio que parece inabitável e intransponível. Cada vez mais, o silêncio nos incomoda.

Existem diferentes tipos de silêncio e diferentes níveis. O tipo negativo é aquele que recusa a comunicação. Isso é criado quando a raiva ou a hostilidade levantam barreiras entre nós e os outros, destruindo a confiança e a curiosidade natural humana sobre os outros que é a base do relacionamento. Eu não vou conversar com você porque você me amedronta com a raiva ou o medo que você gera em mim. Existe um outro tipo de silêncio negativo gerado pelo isolamento crônico, cada vez mais comum nos dias de hoje, que faz você parecer como um fantasma para mim, alguma coisa de outra dimensão, de nenhum interesse por não ter nenhuma relevância. Então eu vou aumentar o volume do meu fone de ouvido e continuar na música ou no vídeo que não coloca nenhuma ameaça porque eu tenho total controle sobre eles e eles bloqueiam os fatores alheios a mim no mundo.

O verdadeiro silêncio é poderoso. Ele pode sobreviver ao barulho, à distração e ao isolamento porque ele é o trabalho da atenção, na verdade, do amor, carregando os frutos da conectividade humana ao invés da digital. O sorriso humano transmitido e trocado no silêncio atravessa distâncias astronômicas de isolamento e alienação, desconfiança e medo, em microsegundos. A prova que podemos co-existir em um silêncio amigável e vencer o seu nervosismo ou a vergonha inicial abre o coração para um tipo único de intimidade, livre de todo desejo e medo.

Não há nada tão parecido com Deus como o silêncio, disse Mesiter Eckhart.

As práticas da Quaresma e o estado de ânimo que devemos cultivar durante este período de treinamento espiritual nos predispõe a reconquistar o significado e o contentamento do silêncio. No início, pode envolver estar menos imerso na mídia. Um jejum digital. Mas é essencialmente sobre desenvolver a qualidade da atenção que levamos a cada momento, a claridade de enxergar e criar uma relação com o que está a nossa frente. Se você medita seriamente, isso é inevitável. A meditação aumenta a percepção porque fortalece o comprimento de onda, a rede, do silêncio.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.