Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quinta-Feira da primeira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

No ensinamento espiritual nós estamos acostumados a ouvir que o desejo, todo desejo, deve ser transcendido. Nós podemos aceitar isso pois faz algum sentido. Mas nós também adiamos o fatídico dia quando transcenderemos o desejo e cairemos, sem desejo, no chão, como um pedaço de pano usado ou um saco vazio. "Senhor, faça-me casto," rezou Santo Agostinho, "mas não agora."

Porém, se nós exercitamos mesmo que uma pequena prática de auto-negação para a Quaresma, nós estaremos em uma posição para entender melhor este ensinamento sobre desejo. Se nós somos consumidos pelo consumismo da nossa cultura, assumindo desatentamente que todos os desejos devem ser saciados, ao menos se eles forem legalizados, nós podemos ainda não estar prontos para entender o que a tradição espiritual realmente ensina sobre desejo. Nós ainda iremos sentir que a meditação supostamente deve satisfazer todos nossos desejos e nós deveríamos verificar a garantia quando ela falha em fazer isso.

Um escritor místico do século V, conhecido como Pseudo-Dionísio, descreveu Deus como o objeto do desejo ardente (ele usou a palavra eros) que está presente em todas as coisas, de voltar para a sua fonte (que é Deus). Ele acrescentou que Deus é também este mesmo desejo ardente. Isso não nos dá uma abordagem melhor e mais desejável da idéia de transcender o desejo? Isso sugere que, ao invés de simplesmente rejeitar todo desejo caso ele nos traga prazer ou satisfação, nós devemos examinar o que é que realmente desejamos e por que.

Os desejos que devemos abandonar são aqueles que são versões piratas da coisa real. Nós também devemos evitar falsas sublimações do eros divino. O desejo que é de fato embrenhado nas estruturas mais profundas de nosso ser é um desejo ardente benigno. Não é do tipo que leva à exploração, possessão e luxúria que busca auto-satisfação descontrolada a todo custo. É transcendente e ao mesmo tempo profundamente interior. Ele passa facilmente do conhecimento ao não-saber.

Nós precisamos ser capazes de identificar o complexo de falsos desejos que realmente bloqueiam nosso verdadeio desejo por Deus (ou seja, por plenitude de amor) e também nos impede de enxergar que o desejo por Deus é o desejo de Deus (por nós). Se este discernimento pudesse ser reduzido a uma fórmula ou uma definição nós não precisaríamos meditar ou, de fato, sermos humanos.
Na verdade é o tipo de percepção que se origina do silêncio profundo e então viaja por todos os cantos do nosso ser, transformando tudo o que deixamos para trás quando fizemos a jornada em direção ao silêncio.

 


 

Texto original em inglês

Thursday Week 1

In spiritual teaching we are used to hearing that desire, all desire, needs to be transcended. We may accept this as it makes some sense. But we also postpone the fateful day when we will happen transcend it and fall, desireless to the ground like a limp rag or an empty bag. ‘Lord make me chaste,’ prayed St Augustine, ‘but not yet.’ 

If, however, we have undertaken even a very little practice for Lent of self-denial we will be in a position to understand better this teaching on desire. If we are consumed by the consumerism of our culture, mindlessly assuming that all desires should be fulfilled, at least if they are legal, we may not yet be ready to understand what the spiritual tradition actually teaches on desire. We will still feel that meditation is meant to fulfill all our desires and we should check the warranty when it fails to.

A 5th century mystical writer, the pseudo-Dionysius, described God as the object of the yearning (he used the word eros), that is present in all things, to return to their source (which is God). He added that God is also that very yearning. Doesn’t this give us a better and more desirable approach to the idea of transcending desire. It suggests that rather than quashing all desire simply in case it brings us pleasure or satisfaction, we should examine what it is we truly desire and why.

The desires we need to drop are those which are pirated versions of the real thing. We also have to shun false sublimations of the divine eros. The desire that is in fact built into the deepest structures of our self is a benign yearning. It is not the kind that leads to exploitation, possessiveness and the lust that chases frenzied self-satisfaction at any cost. It is transcendent and yet deeply interior. It passes easily from knowing to unknowing.

We need to be able to spot the complex of false desires that actually block our real desire for God (that is, for fullness of love) and also prevent us from seeing that the desire for God is God’s desire (for us). If this discernment could be rendered as a formula or a definition we would not need to meditate or indeed to be human. 

In fact it is the kind of insight that arises from deep silence and then travels through all realms of our being, transforming everything that we let go of as we made the journey into silence.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.