Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarta-Feira da primeira semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Após descrever sua experiência mística mais importante, sobre quando foi levado ao terceiro céu (“...seja no corpo ou fora dele, eu não sei...” 2 Cor 12, 2), São Paulo então diz que foi dado a ele como que um espinho na carne, para que não se enchesse de orgulho. Era como que um incômodo, presumivelmente, que o lembrava de que estava mesmo no corpo e ainda sujeito a suas limitações e contradições.

 Pedia a Deus que o livrasse desse espinho. Não dizia do que se tratava, para que ficássemos livres a imaginar o que são nossos próprios espinhos. Sem dúvida queria ele ser melhor, mais perfeito, mais eficiente. Ao invés disso, porém, Deus deve ter dito a ele algo que talvez o tivesse desapontado a princípio e então o tenha levado a um insight até mais profundo do que sua experiência mística. Percebeu então que sua própria imperfeição e fraqueza eram cruciais na percepção de como o poder de Deus poderia se manifestar. “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 10). É compreensível que ele tenha querido ver-se livre do espinho, para que fosse forte; mas ao invés disse, descobriu que, com todos os espinhos, seria mais forte por causa de sua fraqueza.

Quando não conseguimos o que queremos, apesar de estarmos certos de que seja a coisa certa e mais natural para nós, podemos confrontar os obstáculos e os impasses que se apresentam diante da nossa vontade e que podem levar anos e anos de teimosia e obstinação. Mesmo em nossa velhice nosso ego se rebela, cheio de ira, auto piedade e de desespero, quando nossos desejos são frustrados. O pior, em grande escala, pode levar à reação lunática da reação suicida de Hitler, diante da inevitável derrota ou ainda à atual Guerra Síria, na qual 11% da população já tinha sido morta e 70% teve que abandonar a sua casa. Em ambos os casos há a recusa em assumir a fragilidade da condição humana. A conclusão perversa do ego é: melhor a morte do que a derrota.

Em nível individual, esta insanidade torna-se ódio de si e se manifesta progressivamente em comportamento autodestrutivo compulsivo. A Quaresma é um tempo para que nos examinemos e identifiquemos qualquer tendência nessa direção. O Silêncio, tranquilidade da mente livre dos pensamentos e simplicidade nas intenções são os melhores caminhos para esse exame. A Meditação mostra qualquer que seja a parte de nós mesmos onde estaríamos escondidos no bunker de nossas negações, protestando futilmente com nossos desejos contra o mundo real.

Somos seres integrados e completos, mas somos feitos de partes funcionais. Muitas vezes essas dimensões diferentes não estão sincronizadas. Então, pode ser que tenhamos grande partes de nós mesmos em condições saudáveis enquanto outras áreas menores estejam lutando com espinhos. Estas podem ficar melhores quando são compreendidas do que seriam quando aliviadas. A “impotência” da Meditação nos dá poder para assumir essa fragilidade como fonte de verdadeira força em nosso encontro com Deus.

 


 

Texto original em inglês

Wednesday Lent Week 1

After describing his highest mystical experience, when he was lifted up to the third heaven (‘whether in the body or out I do not know’,) St Paul then says that he was given a thorn in the flesh to prevent him becoming proud. It was some aggravating thing, presumably, that reminded him that he was very much in the body and subject to its limitations and contradictions.

He asked God to take this thorn away from him. He doesn’t say what it was so we are left to freely imagine what are our own thorns. No doubt he wanted to be better, more perfect, more effective. Instead, though, God told him something that must have disappointed him at first and then thrown him open to an insight even deeper than his mystical experience. He realized that his very imperfection and weakness were the crucible in which the power of God could manifest. ‘When I am weak then I am strong’. He had, understandably, wanted to be thorn-free so that he cold be stronger. But instead he discovered that, thorns and all, he would be stronger because of his weakness.

When we don’t get want we want, despite feeling sure that it is the right and natural thing for, us we confront the block and impasse to our will that sends a two year old into tantrums. Even later in life our ego rebels, angrily, self-pityingly or despairingly, when our desires are frustrated. At the worst, on the large scale, it leads to the lunacy of Hitler’s suicidal reaction to his inevitable defeat or to the present Syrian war in which 11 per cent of the population have already been killed and 70 per cent displaced from their homes. In both cases there is the refusal to embrace the weakness of the human condition. The ego’s perverse conclusion is, better death than defeat.

At the individual level this lunacy becomes self-hatred and manifests in progressively addictive self-destructive behaviour. Lent is a time to scan our selves for any tendency in this direction. Silence, a stillness of mind free from thought and simplicity in intention, is the best way to scan. Meditation shows up any part of us where we are dug into a bunker of denial, protesting our desires futilely against the real world.

We are whole beings. But we are made up of many working parts. Often these different dimensions are not synchronised. And so, we may have large areas of ourselves in healthy condition while several other smaller areas are struggling with thorns. They are better understood than ripped out. The powerlessness of meditation empowers us to embrace this weakness as the source of true strength and our meeting with God.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.