Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Quarta-feira de Cinzas

D. Laurence Freeman

Quarta-feira de Cinzas - Quaresma 2016

Hoje, muitos de nós receberemos as cinzas – os restos incinerados dos ramos do ano passado – que serão [colocadas em nossas cabeças ou] aplicadas em nossa testa, da mesma forma que muitas pessoas dos tempos bíblicos “cobriam suas cabeças com cinzas” em tempos de luto ou de crise.

Para as crianças pode ser uma experiência do sagrado interessante, a descoberta de um simbolismo novo e o enriquecimento do vocabulário de sua vida espiritual. Para os cristãos mais adultos, trata-se de um ritual familiar que leva de volta para casa, um pouco mais consciente a cada ano, a memória da mortalidade: “Lembra-te de que és pó e para o pó hás de voltar” (Gn 3,19). Para a maioria das pessoas em nosso tempo secularizado, trata-se somente de somente mais um resíduo incompreensível de um mundo religioso arcaico.

De um modo ou de outro, gostamos de marcar períodos e tempos especiais – são, claro, feitos pelo homem. A Quaresma somente começou a ser observada no Século IV. Ainda que nosso ano não seja mais do que uma plataforma composta de dias de semana, fins de semana, viagens de negócio e férias, a sua bidimensionalidade logo nos torna desejosos por “algo mais” que corresponde ao nosso complexo senso religioso. Muitos de nós podemos nos virar sem religião, mas não podemos escapar dessa nostalgia. Uma vez sentida, busca por expressão.

Então apreciemos as cinzas. Lembro-me quando criança costumávamos nos sentir orgulhosos e especiais ao conservar nossas cinzas de maneira clara e ostensiva na rua ou no metrô. Procurávamos a nossa volta por outros com a mesma marca, sentindo-nos como membros de um clube secreto ou ao menos exclusivo. Ouvimos as palavras de Jesus durante a celebração sobre o jejum (tomar alimento somente uma vez ao dia também faz parte das recomendações para a Quarta-feira de Cinzas): “quando jejuardes, ungi a cabeça e lava o rosto para que o teu jejum não seja percebido pelos outros, mas somente por teu Pai que está no segredo” (Mt 6,16). Como crianças, porém, aprender a religião pela prática, podemos nos sentir bem ao expor nosso ascetismo. Sentíamo-nos diferentes e talvez um pouco melhores.

A Quaresma é uma oportunidade cujo significado temos que reconhecer antes de ser provada como útil para nós. Obviamente não significa chamar atenção para nós mesmos. Não significa auto infligir-se de dor ou sofrimento tanto quanto a formação e treino de um atleta pode machucar. A Quaresma é sobre melhorar a forma e a agilidade da nossa vida espiritual, cuja meta é alcançada por medidas de moderação cuidadosa, autodomínio e, com um pouco de criatividade, por esforçar-se mais e mais rumo à esfera da consciência.

Caso ainda não tenha decidido o que “fazer” durante a Quaresma, talvez possa considerar uma prática com triplo desdobramento: 1) Abster-se ou reduzir alguma forma de consumo, seja comida, bebida ou vício digital; 2) Melhorar ou incrementar sua prática de meditação durante a manhã ou à noite ou acrescentar uma outra no meio do dia; 3) Comprometer-se a um melhor ritmo de vida e substituir uma distração desnecessária (muitos de nós conservamos muitas) por uma atividade mais criativa estimulante, seja física, uma leitura ou música.

O “mistério” que Jesus recomenda desafia nossa cultura de auto revelação (exposta pelo nosso culto à privacidade e às senhas). Não se refere à segredo, de fato, mas à interioridade e respeitando o fato de que a maioria dos frutos de nossa Quaresma serão sentidos de dentro. Que seja bom e que seja interessante.

 



Texto original em inglês

Ash Wednesday

By Laurence Freeman OSB

Today many of us will have ashes – the burnt remains of last year’s palms – smeared onto our foreheads, just as many biblical figures in times of mourning or crisis ‘covered their heads with ashes’. For children it is sacred fun, discovering new symbolism and enriching the vocabulary of their spiritual life. For older Christians it is a familiar ritual which brings home a little more sharply each year the reminder of mortality: ‘Remember, O Human, that you are dust and unto dust you will return.’ For most people in our secularised world it is only another incomprehensible remnant of an archaic religious world.

One way or another we like to mark special times and seasons. They are, of course, man-made. (Lent only began to be observed in the 4th century). But if our year is nothing but a flat landscape of weekdays, week-ends, business travel and vacations its two-dimensionality soon makes us yearn for the ‘something more’ that is our hard-wired religious sense. We many get by without religion but we cannot escape this yearning. And once felt, it seeks expression.

So enjoy the ashes. I remember as children we used to feel proud and special to keep our ashes ostentatiously displayed on the street or the tube. We looked around for others with the same mark and felt members of a secret or at least exclusive club. We had heard the words of Jesus during the service about fasting (having only one meal is also part of the Ash Wednesday requirement): ‘when you fast anoint your head and wash your face so that your fasting may not be seen by others but by your Father who is in secret. (Mt 6:16)’ As children, however, learning religion by playing at it, it felt good to flaunt our asceticism. It made us feel different and maybe even a bit better.

Lent is an opportunity whose meaning we have to recognise before it can prove useful to us. Obviously it doesn’t mean drawing attention to ourselves. It does not mean deliberate self-induced pain or hardship any more than an athlete’s training is done to hurt. Lent is about improving our spiritual fitness and agility which is achieved by measures of chosen moderation, self-restraint and, with a little innovation, pushing further into the realm of consciousness.

If you haven’t decided what to ‘do for Lent’ yet, you might consider doing a three-fold practice: 1) giving up or reducing some form of consumption either food, drink or digital addiction 2) making your morning and evening meditation practice better or adding a midday stop 3) commit to a better rhythm of life and substitute an unnecessary distraction (of which most of us have several) for a creative and refreshing activity, whether physical, reading or musical.

The ‘secrecy’ Jesus advises challenges our culture of self-revelation (exposed by our cult of privacy and passwords). It refers not to secrecy, really, but to interiority and respecting the fact that most of the fruits of our coming Lent will be felt from within. May it be happy and even fun.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.