Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
Quaresma 2019 >
Quaresma 2018 >
Quaresma 2017 >
Quaresma 2016 >
Quaresma 2015 >
Quaresma 2014 >
Quaresma 2013 >

Séries de Palestras

Encontre um Grupo de Meditacao Crista

Segunda-feira da Semana Santa

D. Laurence Freeman


Jo 12, 1-11: Pobres, sempre os tereis convosco, enquanto a mim, nem sempre me tereis.

É assim que Jesus joga na nossa cara o significado de desperdiçar um unguento precioso. É embaraçoso. Que maior valor poderia haver em seu sistema de valores do que cuidar dos pobres? Como ele pode colocar a si mesmo e esse gesto simbólico fútil acima daquele valor?

Ele não está abrindo a porta para todos os abusos cometidos contra seus ensinamentos através da história, supostamente cometidos em seu nome: a tortura aos hereges, as Cruzadas, os jogos de poder da igreja, as leis humanas colocadas acima da lei de Deus, a excomunhão dada com um sorriso? E (talvez ainda pior) a diluição do Evangelho numa cerimônia do chá, a domesticação do sacramento numa cerimônia civil, o uso da comunidade para preservar o sistema de classes, o cristianismo reduzido a um arranjo floral?

Suas palavras surpreendentes indicam que estamos embarcando, nestes dias da Semana Santa, em alguma coisa além de todo o valor calculável. Portanto, ou será um absurdo ou a única fonte de todo verdadeiro valor. Não podemos transformar a Paixão de Jesus numa banalidade. Fica próxima demais. Ou ela nos edifica, ou acaba conosco. Talvez, ano após ano, ao entrarmos nesse labirinto simbólico, consigamos chegar só até um determinado ponto para depois voltar atrás. Mas ano após ano avançamos um pouco mais em relação ao ano anterior.

Assim como na nossa meditação. É uma viagem que fazemos aos poucos, integrando tudo que já aprendemos antes de poder abandoná-lo e passar para a fase seguinte. O mundo para o qual a experiência de Jesus nos conduz é um mundo onde os pobres são enriquecidos e os ricos descobrem a liberdade que a pobreza traz. Onde a pobreza capacita para tudo. E tudo significa a total ausência de possessividade. Um papa dando cortes de cabelo, banho, sacos de dormir e excursões ao Vaticano para a população de rua da região da Basílica de S. Pedro é um sacramento digno de estampar manchetes. Mas, ainda assim, somente um sinal.

Uma “experiência de Jesus” pode significar duas coisas: a experiência que Jesus teve pessoalmente e a nossa experiência de sua experiência. Nestes dias nós aprendemos, de maneira tão perturbadora quanto maravilhosa, o que a palavra “cristão” significa. Mas, como disse Rumi: Muitas palavras ainda não foram ditas, mas já é tarde demais; o que quer que se tenha omitido à noite, eu terminarei amanhã.


Com amor
Laurence



Texto original em inglês

Monday of Holy Week
Jn 12-1-11: You always have the poor with you, but you do not always have me.

This is how Jesus pushes in our face the meaning of the wasting of the precious ointment. It's rather embarrassing. What greater value could there be in his system of values than caring for the poor? How can he place himself and this futile symbolic gesture above that value?

Isn't he opening the door to all the abuses of his teaching down history that claimed to be done in his name: the torturing of heretics, the Crusades, the power games of the church, the raising of human laws above the law of God, excommunication pronounced with a smile? And (perhaps even worse) the dilution of the gospel into a tea ceremony, the domestication of sacrament into civil ceremony, the use of community to preserve the class system, Christianity reduced to flower-arrangement?

His surprising words indicate that we are embarking, in these days of Holy Week, into something beyond any calculable value. Therefore it is either nonsense or the only source of all real value. We cannot turn the Passion of Jesus into a platitude. It is too close for comfort. It makes or it breaks us. Perhaps year by year as we enter into this symbolic labyrinth we only get so far before we draw back. But year by year we make a little advance on the previous year.

As with our meditation. It is a journey we make incrementally, integrating all we have learned before we can let it go and be led into the next phase. The world into which the experience of Jesus leads us is a world where the poor are enriched and the rich discover the freedom that poverty gives. Where poverty is the capacity for everything. And everything means total non-possessiveness. The Pope giving haircuts, showers, sleeping bags and tours of the Vatican to the homeless in St Peter's is a newsworthy sacrament of this. But even then only a sign.

By the 'experience of Jesus' we mean two things. The experience that Jesus personally had. And our experience of his experience. In these days we learn, both disturbingly and wonderfully, what the word 'Christian' means. But, as Rumi said, Several words yet remain unsaid, but it is unseasonably late; whatever was omitted in the night I will complete tomorrow.

 

With love

Laurence

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.