Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Quinta-feira da Quarta Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Lucas, 2, 41-51: “Por que vocês estavam me procurando? Não sabiam que devo permanecer na casa de meu Pai?” Mas eles não entenderam o que Ele estava dizendo.

Numa tarde, fui passear de bicicleta com meu jovem afilhado. Ele estava relutando em terminar o passeio, adiantou-se e sumiu numa curva muito à frente. Seguiram-se uns dos piores trinta minutos da minha vida.

Toda sirene de ambulância ou de polícia que eu ouvia, me enchia de terror e eu via as piores coisas em todo mundo que passava. Tentei controlar meus medos, mas continuavam me invadindo. De repente, ele apareceu todo sorridente me perguntando por onde eu tinha andado e por que o deixara esperando. Meu alívio foi tamanho que só consegui fingir estar zangado.

É uma história muito humana sobre nossa preocupação com os jovens sob nossos cuidados esta que São Lucas nos conta no Evangelho de hoje. Maria e José passaram um dia inteiro achando que seu filho Jesu, de doze anos, estava na companhia um do outro. Voltaram correndo à procura dele e o encontraram no Templo discorrendo sobre Deus com os mestres de lá. Eles o repreenderam por causa da ansiedade que lhes causara e ele lhes respondeu com estas palavras, que soam ligeiramente fora deste planeta, e que eles não compreenderam. É um exemplo de como um incidente real pode se tornar teológico na memória e na retransmissão, mais carregado de significado do que se poderia supor. Todos nós fazemos isso ao criar relatos curtos de fatos aleatórios de nossas vidas.

Subdividimos a experiência em começos, meios e fins e tiramos lições destas partes. Enchemos nossas gavetas mentais com estas histórias, sempre acrescentando detalhes ou as atualizando de acordo com o que percebemos que vai agradar a quem nos ouve. Os irlandeses vivem disso. Nosso cotidiano, porém, se caracteriza pelo imprevisto e por conclusões incompletas. É a isso que se chama caos, palavra que não gostamos de usar a respeito de nossas vidas. Mas andamos numa linha muito tênue entre o cosmos (ordem) e o caos, e a maior parte da ordem que colocamos nas coisas tende a se desequilibrar rapidamente.

Mesmo quando encontramos a chave para entender os significados, como os pobres pais de Jesus, não compreendemos. Mas ele voltou e viveu com eles, o que, naquelas alturas, era o suficiente. Na autodisciplina da Quaresma que afia nossa consciência do dia a dia, adquirimos vislumbres mais profundos e agudos da impermanência da vida e isso, estranhamente, nos tranquiliza.


Com amor
Laurence

 


 

Texto original em inglês

Thursday 4th Week Lent

Luke 2:41-51 “Why were you looking for me? Did you not know that I must be in my Father’s house?” But they did not understand what he said to them.

One afternoon I went bike riding with my young godson. He was reluctant to end the trip and zoomed off ahead of me around a bend in the path. When I turned the corner he had disappeared. There followed one of the worst half hours of my life. Every ambulance or police siren filled me with horror and I saw the worst in every one passing by. I tried to control my fears but they kept flooding in. Eventually he turned up smiling broadly and asking me where I had been and why I had kept him waiting. My relief was so great I could only pretend to be angry.

It’s a very human story about our concern for the young in our care and one that St Luke tells in today’s gospel. Mary and Joseph both thought for a whole day that the twelve-year-old Jesus was in the other’s company. They rushed back to look for him and found him in the Temple discussing God with the teachers there. They rebuked him for the anxiety he had caused and he answered with these slightly extra-terrestrial sounding words that they did not understand. It’s an example of how a real incident becomes theologised in the remembering and retelling and made to convey more than you would first think it could. We all do this too as we make neatly cut stories out of the randomness of our lives.

We slice up experience into beginnings, middles and ends and draw lessons from the slices. We stock our mental shelves with these stories, often adding to or refreshing them according to what we sense our listeners would like. The Irish make a living from this. Reality at the cutting edge, however, is characterised by frayed ends and incomplete conclusions. Chaos is another word for it, one that we don’t like to use about our lives. But we walk a very thin line between cosmos (order) and chaos and most of the order we put into things has a tendency to unravel very quickly.

Even when we get the key to understanding its meaning, like Jesus’ poor parents, we don’t understand it. But he went back and lived with them anyway which, for the time, was evidently enough. In the self-discipline of Lent that sharpens our daily awareness we get deeper and more piercing glimpses into this provisionality of life and strangely we even find it reassuring.

With love

Laurence

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.