Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Domingo da Paixão

D. Laurence Freeman

Sem paixão não há compaixão. Da mesma maneira é preciso que haja Eros no conjunto para que também haja o Ágape. Se não houver força de atração, não há nada que nos propulsione à transcendência.

A paixão pode libertar-se desta fórmula e tornar-se autônoma – servindo apenas ao seu apetite e interesse próprios. Ela transmuta-se numa força selvagem na nossa psique, que causa devastação no mundo a nossa volta. Nós, repetidamente, alternamos entre o desejo e a exaustão, até que procuremos um novo objeto de desejo. Qualquer vício nos ensina logo o tormento a que nos leva. Como isso acontece é uma complicada estória. Mas o modo de sair disso é simples: permitir-se ser amado.

Pode parecer que você não precisa de paixão para deixar-se amar. A paixão está toda no amor e na procura pelo objeto de desejo. Mas a Paixão de Cristo, que inicia hoje a Semana Santa, nos conduz a um ponto mais concentrado da verdade onde está a dualidade de amar e ser amado, a fonte dualística de todo egotismo, é dissolvida.

Com a dissolução da auto centralização, advém a dispersão do karma. As Escrituras veem isso tanto no coletivo como no pessoal. A estória que estamos começando hoje novamente a recontar é inesgotável e universal devido a isso.

Todo sacerdote se apresenta a cada dia para realizar suas funções e oferecer com frequência os mesmos sacrifícios, que são incapazes de eliminar os pecados. Ele, ao contrário, depois de ter oferecido um sacrifício único pelos pecados sentou-se para sempre à direita de Deus. (Hb 10, 11-12)

Este é um modo religioso e bíblico de expressar isso. O ponto entretanto é universal: em Jesus uma repetição cíclica é rompida e o karma é transcendido. Nós não temos mais que tentar obter medicamentos que ofereçam “alívio temporário”. Este remédio realmente opera uma cura.
Deveríamos estar céticos sobre isto ao ouvirmos uma primeira vez.

Os Evangelhos, entretanto, contam apenas uma estória humana e deixam que nós encontremos o significado. Isso transforma ceticismo em fé. Isso acontece no momento em que a estória passa a existir em nós.

E afastou-se deles mais ou menos a um tiro de pedra e, dobrando os joelhos, orava: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice! Contudo, não a minha vontade, mas a tua seja feita!” Apareceu-lhe um anjo do céu, que o confortava. E, cheio de angustia, orava com mais insistência ainda, e o suor se lhe tornou semelhante a espessas gotas de sangue, que caíam por terra. (Lc 22, 41-44)

Isso não é um conto de fadas. Para qualquer pessoa madura encontra ressonância em nossa própria experiência. Solitude, angústia, medo, sintomas físicos, o inesperado anjo da misericórdia. Mas no coração disso tudo está o amor que ele sentiu sustentando-o, que conferiu-lhe a capacidade de amar àqueles que, naquele instante, ele ainda não conhecia conscientemente.

 



Texto original em inglês

Passion Sunday
By Laurence Freeman, OSB 

Without passion there’s no compassion. In the same way there has to be eros in the mixture if there is to be agape as well. If there’s no force of attraction there’s nothing to propel us into transcendence.

Passion can however break loose of this formula and become autonomous – just serving its own appetite and self-interest. It morphs into a rogue force in our psyche that causes devastation in the world around us. We bounce wildly from desire to exhaustion before we start looking for another object to desire. Any addiction soon teaches us the misery this involves. How this happens is a complex story. But the way out of it is simple: to allow yourself to be loved.

It might seem you don’t need passion to let yourself be loved. Passion is all in loving and seeking the object of desire. But the Passion of Jesus that begins Holy Week today takes us to a more concentrated point of truth where this duality between loving and being loved, the dualistic source of all egotism, is dissolved.

With the dissolution of self-centredness comes the dispersal of karma. The Scriptures look at this collectively as well as personally. The story we are starting to re-tell again today is so inexhaustible and universal because of this.

All the priests stand at their duties every day, offering over and over again the same sacrifices which are quite incapable of taking sins away. He, on the other hand, has offered one single sacrifice for sins, and then taken his place forever, at the right hand of God. (Heb 10:15)

That’s a religious and biblical way of expressing it. The point however is universal: in Jesus a cyclical repetition is snapped and karma is transcended. We do not need to seek ‘temporary relief’ medication any more. This medicine really works a cure.

We should be sceptical about this at first hearing.

The gospels however just tell a human story and leave it to us to make sense of it. This turns scepticism into faith. This happens as the story becomes us.


Then he withdrew from them, about a stone’s throw away, and knelt down and prayed. ‘Father,’ he said ‘if you are willing, take this cup away from me. Nevertheless, let your will be done, not mine.’ Then an angel appeared to him, coming from heaven to give him strength. In his anguish he prayed even more earnestly, and his sweat fell to the ground like great drops of blood. (Lk 22:41ff)


This is no fairy tale. For any mature person it resonates with our own experience. Aloneness, anguish, fear, physical symptoms, the unexpected angel of mercy. But at the heart of it is the love he felt holding him, which empowered him to love those he did not even, at that instant, consciously know.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.