Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Sexta-feira da 5ª Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Recentemente um veículo de pesquisa não tripulado mergulhou no nível mais profundo do oceano, aproximadamente 12 kilômetros, creio. E para a surpresa dos cientistas encontraram vida abundante que ali se alimentava dos detritos que haviam descido de um nível mais alto do oceano.

Os padrões emocionais e neurais que determinam nosso comportamento e respostas aos eventos são também muito profundos. Conscientizamos-nos do início do processo de mudança quando adotamos uma prática espiritual profunda o suficiente para lidar com esses padrões da nossa mente e estilo de vida. Mas mudanças verdadeiras acontecem lentamente. Mudanças reais são aquelas ao mesmo tempo positivas e irreversíveis. Quando ela acontece já não mais voltamos, tal qual um elástico, a nossos velhos padrões quando estamos sob pressão ou “com a guarda baixa”.

Existem então dois níveis de motivação que temos que cultivar. No primeiro, por exemplo, nós aceitamos que existem padrões cuja continuidade não é desejável. Bebemos ou comemos demais. Cedemos à fantasia com muita frequência. Não conseguimos controlar nossa raiva. A tristeza nos domina e nos incapacita. Afastamos as pessoas que amamos e de quem precisamos, preferindo o isolamento. Conscientes desses padrões uma motivação progride para mudança. Nós provavelmente pensamos nisso cinco semanas atrás quando a Quaresma começou.

Então, encontramos fontes de esperança e acreditamos que a mudança é possível. E começamos a fazer algo a respeito. A meditação é um dos principais catalisadores para a mudança. Parece-se com o veículo de pesquisa não tripulado. Não tripulado por que o ego - aquilo que pensamos que somos e aquilo que somos quando pensamos - não está no comando. Outra pessoa está no comando puxando as alavancas. Nós confiamos nós mesmos ao Espírito.

Mas a viagem é longa e cercada de trevas (não avançarei mais nessa analogia). O que acontece é que nós notamos mudanças em nós mesmos ou outras pessoas apontam para essas mudanças. Mas parece que as coisas se mantêm do mesmo jeito. Os padrões podem mudar e reduzir mas parece que ainda estão funcionando. Eu uma vez tive que fazer acupuntura no meu joelho que estava mal. O acupunturista, muito invasivo e falante, parecia querer encontrar um trauma de infância que explicasse meu problema no joelho. Mas ele era minha maior esperança na época e aconteceu que durante o tratamento eu notei mudança - a dor persistia mas se movera para baixo na minha perna. O sol tropical, de minha parada seguinte, terminou o trabalho mais silenciosamente.

É quando percebemos a mudança nos padrões mas ficamos desapontados por eles ainda existirem, que o segundo nível de motivação deve ser cultivado. É aí que nos movemos da técnica para a disciplina na pratica. E, é quando a fé evidentemente se torna o poder de transformação e cura. ‘A tua fé te curou’. E é pela fé - esta poderosa mas elusiva qualidade da consciência - que vemos aquele que uma vez nos deu este ensinamento e que continua sendo a fonte de profunda motivação.

 



Texto original em inglês

Friday Lent Week 5
By Laurence Freeman, OSB

 

Recently an unmanned research vehicle plunged to the deepest level of the ocean, seven miles down I think. To the scientists’ surprise they found abundant life there feeding on the detritus that had sunk down from higher levels of the ocean.

The emotional and neural patterns which determine our behaviour and responses to events run very deep too. We can be aware of a process of change starting when we undertake a spiritual practice deep enough to address these patterns of our mind and lifestyle. But real change happens slowly. Real change means irreversible as well as positive. When it happens we no longer snap back like an elastic band to our old settings when we are under pressure or when off our guard.

There are two levels of motivation then that we have to cultivate. At the first level, for example, we accept that there are patterns that it is not desirable to continue. We eat or drink too much. We indulge fantasy too often. We cannot control our anger. Sadness overwhelms and disables us. We push away the people we love and need, preferring to be isolated. Aware of these patterns a motivation develops to change. We probably thought of these five weeks ago as Lent began.

Then we find hope from sources and we trust that change is possible. And we start to do something about it. Meditation is a major catalyst for change. It is rather like the unmanned research vehicle. Unmanned because the ego – what we think we are and what we are when we think – is not in charge. Someone else is pulling the levers. We entrust ourselves to the spirit.

But it is a long journey and it gets murky. (I won’t push this analogy any further.) What happens is that we notice changes in ourselves or others point them out. But things look and seem to remain pretty much the same. The patterns may shift and reduce but they still click in. I once had acupuncture on a bad knee. The intrusive and over talkative acupuncturist seemed to want to find a childhood trauma to explain it. But he was my best hope at the time and eventually during the treatment I noticed change – the pain persisted but it only moved further down my leg. The tropical sun, my next stop, finished the job more silently.

It is when we see a change in the patterns but we are disappointed that they are still there, that the second level of motivation needs to be cultivated. This is where we move from technique to discipline in the practice. And when faith becomes evidently the power of transformation and healing. ‘Your faith has healed you’. And it is by faith – this powerful but elusive quality of consciousness – that we see the one who once taught this and continues to be the source of deep motivation.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.