Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Quarta-feira da 4ª Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Quando o pássaro preto voou para fora da vista
Marcou o limite
De um entre muitos círculos
(Wallace Stevens, Thirteen Ways of Looking at a Blackbird)

Existem muitas maneira de olhar para tudo. No poema de Wallace Steven, o verso acima é a nona maneira de olhar para um pássaro preto. Grande poesia frequentemente nos leva a um novo nível de despertar direcionando nossa atenção para algo tão óbvio que não podemos compreender por que não tínhamos visto aquilo antes.

Mas quando tentamos colocar esta nova percepção nas nossas próprias palavras, acabamos lançando mão de clichés rasos.

Conhecimentos verdadeiros são entregues e interpretados conforme o pacote em que chegam. Verdade é sempre encarnada porém difícil de fazer-se abstrata e espeta-la como uma borboleta, em uma exibição tipo “verdades eternas”. A verdade é encarnada e temporal como nós somos – mas também vive na transcendência que nos faz plenamente vivos, plenamente despertos.

O que Stevens descreve aqui? Talvez o senso de um resíduo ou resto de experiência que se segue após a experiência principal. O pássaro preto tinha ido para fora da vista mas o observador é deixado com a vívida impressão de um círculo que foi formado em seu voo. Uma presença na ausência, no ar vazio há um limite invisível. Mas também há a consciência de que esse é um entre muitos círculos no ar que estiveram e ainda estão lá.

Esta sensibilidade de percepção não é esotérica. Só não está sempre desperta. A meditação desperta a percepção e o conhecimento na vida ordinária. Ela traz o senso de que nem tudo o que está presente é sempre visível e também de que há a visão das coisas não-visíveis que chamamos de fé.



Outra sutil consequência desta percepção desperta é uma experiência de beleza. Com sorte, o processo de refinamento e humildade da Quaresma, dado o tempo de reflexão necessário, já deve ter produzido um pouco dessa beleza agora.

 



Texto original em inglês

Wednesday Lent Week 4

By Laurence Freeman OSB

When the blackbird flew out of sight
It marked the edge
Of one of many circles
(Wallace Stevens, Thirteen Ways of Looking at a Blackbird)

There are many ways of looking at anything. In Wallace Stevens’ poem the verse above is the ninth way he had found of looking at a blackbird. Great poetry often shocks us to a new level of wakefulness by drawing our attention to something so obvious we can’t understand why we hadn’t seen it for ourselves before. But when we try to put this new perception into our own words we come up with very flat sounding clichés.

True insights are delivered and interpreted in the package they come in. Truth is always embodied, however hard we try to make it abstract and pin it down like a dead butterfly in an exhibition case of ‘timeless truths’. Truth is as embodied and temporal as we are – but also lives in the transcendence that makes us fully alive, fully awake.

What is Stevens describing here? Perhaps the sense of a residue or a remnant of experience that remains after the main event has passed. The blackbird has gone out of sight but the person watching it is left with a vivid sense of the circle it had made in its flight. A presence in absence, in the empty air there is an invisible edge. But also there is the awareness of it being one of many circles in the air which were there and are still there.

This sensitivity of perception is not esoteric. It’s just not always awakened. Meditation awakens perception and insights into ordinary life. It delivers the sense that not everything that is present is always visible and also that there is the vision of things unseen that we call faith.

Another subtle consequence of this awakened perception is an experience of beauty. If we’re lucky, the refining and humbling process of Lent, given the reflective time it needs, should have produced a few of these by now.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.