Reflexões da Quaresma

Durante toda a Quaresma, Dom Laurence envia suas reflexões diárias para a Comunidade.
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Séries de Palestras

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Terça-feira da 4ª Semana da Quaresma

D. Laurence Freeman

Falava com alguém acerca de uma terceira pessoa que a havia ofendido. Ela dizia: “Eu posso continuar a lidar com ela numa boa, mas jamais a perdoarei”. Isso era revelador:  o “jamais a perdoarei”, em vez de “jamais poderei perdoá-la”.

Me impressionou a sensação de provocação, até mesmo de orgulho, naquela decisão de jamais perdoar. Era como se ela soubesse ter a capacidade de perdoar, desconsiderar e seguir adiante. Porém, por uma razão qualquer, ela preferia ficar com a química agridoce do ressentimento e da raiva. Talvez isso nos traga uma sensação de satisfação com superioridade moral: “eu sou a parte prejudicada, de modo que estarei sempre do lado da razão desde que minha ação se baseie naquele ressentimento”. Talvez, também, não haja assim tanta liberdade na escolha de não perdoar, quanto poderíamos acreditar.

Por que cargas d’água iriamos preferir a dor e o negativismo do passado, em vez de crescer através dele e seguir adiante sob o bálsamo da sabedoria, da compaixão e de nova profundidade? Não há nenhuma boa razão para isso; e, no entanto, podemos sempre encontrar razões. Quem jamais agiu mal, em sã consciência, sem ter construído uma defesa ou justificativa para isso?

É sempre fácil dar vestimenta racional e saudável àquilo que é irracional e auto-destrutivo. No entanto, quando permitimos que a raiva e o ressentimento se agarrem a nós, isso meramente obscurece quem nós somos, e diminui nosso potencial de crescimento. Senti essa contração na pessoa com quem eu estava. Sua observação, acompanhada de uma aparência levemente louca, senão demoníaca, em seu olhar, era uma expressão que não era de maldade, mas de responsabilidade diminuída.

Assim como o filho mais jovem da parábola, quando nos permitimos excessos a ponto de que nos façam adoecer, acreditamos que merecemos ser punidos, por nossos corpos, por outras pessoas, ou por Deus. Parece-nos que não merecemos ser perdoados e restituídos ao relacionamento que prejudicamos. Não admira que apliquemos o mesmo padrão de justiça aos outros. A medida com que nos medimos a nós mesmos, será a medida com que mediremos os outros.

De fato, como toda meditação pode nos revelar, o amor é infinito e transbordante. O perdão está continuamente disponível como a água de uma torneira. “O Reino dos Céus está próximo”, é o refrão de cada dia da Quaresma.

 



Texto original em inglês

Tuesday Lent Week 4

By Laurence Freeman OSB

 

I was talking to someone about another person who had offended her. She said ‘I can get on with her now alright. But I will never forgive her’. It was revealing: the ‘will never’, rather than ‘can’t ever’.

I was struck by the sense of defiance even of pride in that resolution never to forgive. It was as if she knew she had the ability to forgive, let go and move on. But, for whatever, reason she preferred to stay with the bittersweet chemistry of resentment and anger. Maybe it brings us a satisfying sense of moral superiority – ‘I am the offended party so I am always in the right as long as I act out of that resentment’. Maybe too there isn’t as much freedom in the choice not to forgive as we might think.

Why on earth would we prefer the pain and negativity of the past than to grow through it and move on with the balm of wisdom, compassion and new depth? No good reason; and yet we can always find reasons. Whoever did something consciously bad without building a defence or justification for it?
It is always easy to dress up the irrational and self-destructive as rational and healthy. Allowing anger and resentment to cling to us, however, merely obscures who we are and diminishes what we are capable of becoming. In the person I was with I sensed this contraction. Her remark – accompanied by a slightly crazy, if not demonic look in her eyes - was an expression not of badness but of diminished responsibility.

Like the younger son in the parable, when we indulge ourselves and then get sick on excess we think we deserve to be punished – by our bodies or other people or by God. It seems we don’t deserve to be forgiven and restored to the relationship we have offended. Not surprisingly, we apply the same primitive standard of justice to others. The measure we give to ourselves will be the measure we give to others.

In fact - as every meditation can reveal to us - love is boundless and overflowing. Forgiveness is on tap. ‘The kingdom of heaven is close at hand’ – the refrain of each day of Lent.

 

Medite por Trinta Minutos

Lembre-se: Sente-se. Sente-se imóvel e, com a coluna ereta. Feche levemente os olhos. Sente-se relaxada(o), mas, atenta(o). Em silêncio, interiormente, comece a repetir uma única palavra. Recomendamos a palavra-oração "Maranatha". Recite-a em quatro silabas de igual duração. Ouça-a à medida que a pronuncia, suavemente mas continuamente. Não pense, nem imagine nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente afluirão, mas, deixe-os passar. Simplesmente, continue a voltar sua atenção, com humildade e simplicidade, à fiel repetição de sua palavra, do início ao fim de sua meditação.