O Poder da Atenção

Leitura de Domingo, 16 Junho 2019
Laurence Freeman, OSB

extraído do livro Perder para Encontrar de Laurence Freeman OSB (São Paulo: Editora Vozes, 2008).

Esse grande perigo sempre existiu, porém, em nossa sociedade auto-consciente e narcisista, ele nos afeta hoje de modo especial: o de confundirmos a verdadeira interioridade com auto-análise, ou auto-fixação. A grande dominância da mágoa psicológica e da alienação social exacerbam esse perigo, ao passo que demandam um suave tato e compaixão, ao lidarmos com isso. . . . A verdadeira interiorização é o oposto da introversão. Ao nos conscientizarmos da presença interior, nossa consciência se volta, se converte, de maneira a não mais estarmos. . .nos olhando, na antecipação ou na recordação de sentimentos, reações, desejos, idéias, ou fantasias. Todavia, estamos nos voltando para algo diferente. E, isso para nós é sempre um problema.
Pensamos que nos seria mais fácil nos voltarmos para fora da introspecção, caso soubéssemos para o que é que nos estamos voltando. Se ao menos tivéssemos um objeto fixo para o qual pudéssemos olhar. Se ao menos Deus pudesse ser representado por uma imagem. Todavia, o verdadeiro Deus nunca poderá ser uma imagem. As imagens de Deus são deuses. Ao fazermos uma imagem de Deus estaremos apenas olhando para uma imagem remodelada de nós mesmos. A verdadeira interiorização, a abertura dos olhos do coração, significa vivermos a visão sem imagens, o que é fé, e é a visão que nos permite “ver a Deus”.
Na fé, um novo Espírito controla a atenção, não mais os espíritos do materialismo, da busca de si, e da auto-preservação, porém, o ethos da fé, que por sua natureza não é possessivo. Ele sempre dá liberdade e, renuncia continuamente às recompensas da renúncia, que são muito grandes, e por isso faz-se ainda mais necessário que sejam devolvidas. . . . Podemos vislumbrá-lo, simplesmente puxando pela memória aqueles momentos ou fases da vida em que experimentamos o mais elevado nível de paz, satisfação e felicidade e, reconhecendo que aqueles não foram períodos em que possuímos algo, mas, em que nos perdemos em algo ou em alguém. O passaporte para o Reino precisa do carimbo da pobreza. 

original em inglês:

From Laurence Freeman OSB, “The Power of Attention,” THE SELFLESS SELF (Norwich: Canterbury, 2008), pp. 31-35.

There has always been a great danger, but one that exists especially for us today in our self-conscious and narcissistic society, of mistaking introversion, self-fixation, self-analysis, for true interiority. The great prevalence of psychological woundedness and social alienation exacerbates this danger while calling for gentle tact and compassion in dealing with it. . . . To be truly interior is the complete opposite of being introverted. In the awareness of the indwelling presence, our consciousness is turned around, converted, so that we are no longer. . .looking at ourselves, anticipating or remembering feelings, reactions, desires, ideas, or daydreams. But we are turning towards something else. And that is always a problem for us.

It would be easier, we think, to turn away from introspection if we knew what we were turning towards. If only we had a fixed object to look at. If only God could be represented by an image. But the true God can never be an image. Images of God are gods. To make an image of God is merely to end up looking at a refurbished image of ourselves. To be truly interior, to open the eye of the heart, means to be living within the imageless vision that is faith, and that is the vision that permits us to “see God.”

In faith, attention is controlled by a new Spirit, no longer the spirits of materialism, self-seeking and self-preservation, but the ethos of faith which is by its nature dispossessive. It is always letting go and continuously renouncing the rewards of renunciation, which are very great and so all the more necessary to be returned. . . .We can glimpse it simply by calling to mind those moments or phases in life where we experienced the highest degree of peace, fulfillment and joy and recognize that those were times, not when we possessed anything, but when we lost ourselves in something or someone. The passport into the kingdom requires the stamp of poverty.